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Richard Clayderman - Matrimonio De Amor .mp3
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sexta-feira

O AMOR PELOS LIVROS

DEFINITIVO
Carlos Drummond de Andrade



Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional...

sábado

O AMOR PELOS LIVROS

BIOGRAFIA DE BARBOSA LIMA SOBRINHO


Quarto ocupante da Cadeira 6, eleito em 28 de abril de 1937, na sucessão de Goulart de Andrade e recebido em 31 de janeiro de 1938 pelo Acadêmico Múcio Leão. Recebeu os Acadêmicos Antônio Carneiro Leão e José Honório Rodrigues.
Barbosa Lima Sobrinho (Alexandre José B. L. S.), advogado, jornalista, ensaísta, historiador, professor e político, nasceu em Recife, PE, em 22 de janeiro de 1897 e faleceu no Rio de Janeiro, aos 103 anos de idade, no dia 16 de julho de 2000.
Filho de Francisco Cintra Lima e de d. Joana de Jesus Cintra Barbosa Lima, estudou o curso primário na Capital Federal, concluindo-o em Recife. Na mesma cidade, iniciou o secundário no Colégio Salesiano, terminando-o no Instituto Ginasial Pernambucano. Em 1913, matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife, onde colou grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1917. Foi adjunto de promotor do Recife, em 1917, e advogado no período imediato ao de sua formatura. Colaborou na imprensa pernambucana, no Diário de Pernambuco, no Jornal Pequeno e, principalmente, no Jornal do Recife, onde escreveu a crônica dos domingos, de outubro de 1919 a abril de 1921. Colaborou ainda na Revista Americana, Revista de Direito, Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, no Correio do Povo, de Porto Alegre, e na Gazeta, de São Paulo.
Mudando-se para o Rio de Janeiro, dedicou-se ao jornalismo. Trabalhou no Jornal do Brasil a partir de abril de 1921, a princípio como noticiarista, mais tarde como redator político e, a partir de 1924, como redator principal. Escreveu, até a data de sua morte, em julho de 2000, um artigo semanal, nesse jornal. Na Associação Brasileira de Imprensa, exerceu a presidência nos períodos de 1926 a 1929; a presidência do Conselho Administrativo de 1974 a 1977; e novamente a presidência em 1978-80 e nos períodos subseqüentes, até o de 1990-92. Foi proclamado Jornalista Emérito pelo Sindicato da categoria de São Paulo.
Eleito deputado federal por Pernambuco para o triênio 1935-37, foi escolhido líder de sua bancada, membro da Comissão de Finanças e relator do Orçamento do Interior e Justiça.
Foi presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool, de 1938 a 1945, quando tomou posse da cadeira de deputado federal por Pernambuco, na Assembléia Constituinte de 1946. Na Câmara dos Deputados, em 1946, foi membro da Comissão de Finanças e designado relator do orçamento do Ministério da Guerra. Renunciou à cadeira de deputado em 1948, para assumir, a 14 de fevereiro do mesmo ano, o cargo de governador do Estado de Pernambuco, exercendo o mandato até 31 de janeiro de 1951.
Foi procurador da Prefeitura do Distrito Federal e professor do ensino superior nos cursos de Ciências Sociais e Econômicas. Regeu a cadeira de Política Financeira e, mais tarde, a de História Econômica, na Faculdade de Ciências Econômicas Amaro Cavalcanti, do Estado da Guanabara. Deputado federal por Pernambuco para a legislatura 1959-1963, integrou, nessa Casa do Congresso, a Comissão de Justiça.
Foi sócio benemérito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Instituto dos Advogados do Rio de Janeiro; benemérito da Associação Brasileira de Imprensa e sócio correspondente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e do Instituto de Advogados de São Paulo; sócio efetivo da Sociedade de Geografia; sócio honorário do Instituto Histórico de Goiana (PE); presidente de honra do XIV Congresso Nacional de Estudantes; professor honorário da Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife; presidente do Pen Clube do Brasil em 1954; membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa; membro do Instituto de Direito Público e da Fundação Getúlio Vargas.
Recebeu a Medalha Quadragésimo Aniversário da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1981); o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco e o Prêmio Imprensa e Liberdade, conferido pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (1984); o Prêmio Governo do Estado do Rio de Janeiro e o título de Cidadão Benemérito da Cidade do Rio de Janeiro (1987); o Prêmio Juca Pato, conferido pela União Brasileira de Escritores; o Prêmio San Tiago Dantas (1989); e a Medalha Tiradentes (1992), conferida pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.
Na Academia Brasileira de Letras, foi secretário-geral em 1952; e presidente em 1953 e 1954; diretor da Revista da Academia em 1955-56, diretor da Biblioteca de 1957 a 1978 e tesoureiro de 1978 a 1993

Fonte: Site da Academia Brasileira de Letras

O AMOR PELOS LIVROS

MICROCONTOS





Bodas de Ouro
Foi só na volta do cemitério, depois de meio século de vida conjugal, que o viúvo percebeu como se cometia um crime perfeito.



(in SALVADOR JANTA NO LAMAS - Editora José Olympio, 1989)



As Três Marias

Com a morte de Socorro, José respirou satisfeito: enfim, poderia casar-se com Prazeres. Com a morte de Prazeres, José respirou satisfeito: enfim, poderia casar-se com Graça. Com a morte de José, Graça respirou satisfeita: José tinha ficado um velho sem graça, sem prazeres, sem socorro.



(in SALVADOR JANTA NO LAMAS - Editora José Olympio, 1989)



Relatividade em nome de Borges

Durante uma das primeiras apresentações da ópera Turandot, ocorreu um fato desconcertante. Quando o povo de Pequim, num coral soberbo, desejou dez mil anos de vida ao Imperador, ele interrompeu o espetáculo e mandou fuzilar todos os componentes do coro: há trezentos e sessenta e quatro dias, o monarca havia completado nove mil, novecentos e noventa e nove anos de idade.



(in O MUSEU DARBOT E OUTROS MISTéRIOS - Leviatã Publicações, 1994)



O Banquete

Foram três mil noites para três mil dores, mas assim que o enterro saiu, ela trancou a porta, assou o robalo e devorou-o entre as liberdades do vinho branco, pois era a melhor maneira de festejar a morte do marido e cicatrizar as feridas.



(in OS BANHEIROS - Editora Codecri, 1979)

Fonte: Escritos pós-utópicos

sexta-feira

O AMOR PELOS LIVROS

PASSAR UMA TARDE EM ITAPUÃ COM VINÍCIUS DE MORAES
Tasso Franco

Como diria o inesquecível poetinha: "É bom... passar uma tarde em Itapuã/ ao sol que arde em Itapuã/ Ouvir o mar de Itapuã/ falar de amor em Itapuã”.
Toquinho e Vinicius produziram um dos mais belos poemas (Tarde em Itapuã) à cidade da Bahia e a um dos seus mais bucólicos bairros, retratando na música todos os encantamentos do lugar: o mar, o bar, a preguiça de sua gente, o arco-íris, o ar, a água de coco, o sol, a pinga, a terra a rodar, o céu, a lua e o amor.
Um poema perfeito, popular, bem ao gosto do poetinha que, na época dessa composição, nos anos 1970, embalado nos braços de Gesse Gessy, uma mulata da terrinha, tomou férias com seu olhar esquecido e tornou-se o divino bardo, o Dante de Itapuã, como gostava de assinar somente na correspondência para os mais íntimos. Hoje pesquisadores de sua obra admitem que do poetinha só restou o eufemismo. Trata-se de um autêntico e valoroso bardo.
Dois anos (1973/74) marcaram a passagem de Vinicius de Moraes em Salvador, nessa época uma cidade com ares de província, período dos anos de chumbo da ditadura militar, de uma Bahia que emergira com força no meio intelectual, herdeira da efervescência cultural proporcionada pelo reitor Edgard Santos que apostou no modelo de superação do atraso baiano com ações diversificadas na Universidade Federal da Bahia, vista por alguns como uma espécie de oficina do diabo.
Vinicius veio para Salvador graças aos encantos da mulata Gesse Gessy e construiu uma casa à beira-mar de Itapuã, projeto de Jamison Pedra e Sílvio Robatto, obra executada a cargo do engenheiro Elisinho Lisboa, pelo mestre de obras Francisco e o carpinteiro Jonas. Segundo o poeta, “uma casa baiana, feita por baianos, para abrigar tua baianice máxima, sonhada desde os idos cariocas”.
Escreveu “A Casa”, um poema concluído em 19 de outubro de 1974, descritivo da construção, das grandes vigas e barrotes de madeira de lei, do amor a Gesse, de sua percepção com as coisas da natureza, o mar, as plantas e as flores gentis, de sua compreensão com a vida simples do lugar, os calções de banho, as dunas e o cheiro do mar, enfim, dedicado à mulata da sua própria pena: “Sim, amada, aí tens a tua casa. Tua, só tua, imensamente tua. Para que nela viva sempre nua/ com teu céu, com teu mar, com tua Lua! E o teu triste e amantíssimo poeta”.
Esse trabalho foi editado pela Macunaíma, em janeiro de 1975, com tiragem reduzidíssima, graças a Fernando da Rocha Peres e Myriam Fraga. Os amigos cotizaram-se em ajuda e em arte: a capa foi produzida por Carlos Bastos e o planejamento gráfico por mestre Calá. Prestou-se uma homenagem aos mestres-de-obra Luís Dias e Pedro Carvalhaes que aqui aportaram na esquadra de Tomé de Souza, em 1549, e foram os primeiros a se dedicarem à arte de construir casas na cidade de Salvador da Bahia.
Nos anos em que Vinicius habitou as terras de Itapuã, antiga fazenda de gado de Garcia D'Ávila, este dito por muitos como filho bastardo de Tomé de Souza, as ruas do bairro, em sua maioria, não dispunham de calçamento e os esgotos corriam a céu aberto em direção ao mar. Para o mar das baleias já cantado pelo mulato Dorival Caymmi, imortalizado na pena de Jorge Amado e gravado na arte de Calasans Neto.
Em novembro de 1973, fez um poema (“Petição ao prefeito”) a Clériston Andrade pedindo-lhe que mandasse calçar a Rua das Amoreiras, onde residia o casal de amigos Calasans Neto e Auta Rosas, ainda hoje sua pousada de lar e local de ateliê de gravuras e trabalho, também pouso quase diário do poetinha em suas andanças pelo que classificava como Principado Livre e Autônomo de Itapuã.
Calasans ilustrou dois dos seus livros — Das baleias e História natural de Pablo Neruda ou a Elegia que veio de longe — e muitas foram as horas de papo e tão diversas as tardes que provou do pirão de Auta, e da rede da varanda do ateliê que utilizava para "sentir preguiça no corpo", tal a expressão que usou na música Tarde em Itapuã. Escreveu duas belíssimas páginas sobre a arte em gravuras das baleias de Calá, a quem, classificou como Príncipe de Itapuã, Duque das Amoreiras, Conde do Abaeté e Barão do Coco Verde.
A presença de Vinicius em Salvador causou muita curiosidade, embora, a rigor, não tenha influenciado o chamado meio intelectual, até por que não veio com essa finalidade. Ao que se sabe, e não tive o privilégio de conviver com o poetinha, aportou em Itapuã para vadiar diante daquele mar que não tem tamanho e embalar seus sonhos de amor nos braços de Gesse Gessy.
E em pesadelos, também próprios dos poetas, citou em “A Casa”: “E ficar pensando/ Que atrás de cada aurora se esconde/ A face ansiosa da Vida e de cada crepúsculo/ A máscara irônica da Morte, ambas à espreita/ Ambas querendo cumprir a qualquer custo/ Os seus fatais desígnios. E depois desses tolos pensamentos/ E de induzir o sono em velhos filmes de televisão, ir deitar-me/ Com o sentimento de fragilidade, da precariedade/ Da inutilidade de tudo... até que uma nova manhã/ Me diga: Não! E então/ Retomar o cotidiano, olhando o mar”.
Vinicius deixou a cidade do Salvador em 1975 já nos braços de um novo amor, a portenha Martinha. Mas isso é outra história que não nos interessa. Pra encerrar, lembro de três pontos de Itapuã, citados pelo poetinha, os quais, para nós outros, mortais e não poetas, freqüentávamos nessa época: a barraca de Pombo, o bar do Galo e o Língua de Prata. Neste último, o poetinha desafiava a diabete e bebericava campari-soda.
Nós outros, portanto, ficávamos a acompanhar a construção da casa de Vinicius, que se tornou uma atração turística após sua conclusão, a habitar nos finais de semana à praia da Rua K, então muito em moda, e também a praia da Placa Ford e a barraca do Perilo. E, de resto, nos finais de tarde, olhando o mar de Itapuã, dançar no bar do Galo, situado na curva da rua, quase em frente ao Língua de Prata, este um restaurante mais sofisticado. No Galo era possível, e isso era o que fazíamos, dançar de sunga com direito a empinar a marinheira. O fotógrafo Xando P. era especialista nessa modalidade.
Que Deus guarde Vinicius de Moraes e Meu, seu cão de estimação, ambos hoje habitantes do mar de Itapuã. O poetinha, entre outras preciosidades, deixou-nos uma das mais belas músicas de nosso cancioneiro popular e também uma frase antológica: "O melhor amigo do homem é o uísque. O cachorro engarrafado”.

O texto acima foi extraído do livro "O trancelim da baiana", Editora Relume Dumará - Rio de Janeiro, 2002, pág. 75.

PROJETO RELEITURA

quinta-feira

O AMOR PELOS LIVROS

AMOR É AMOR
Plínio Marcos


Mulher gamada é fogo. Elas, quando se vidram e se amarram num homem, são capazes de fazer das tripas coração pra defender seus interesses. Uma mulher apaixonada se transforma dos pés à cabeça. Se é classuda, cai da panca e, sem vacilar apronta os maiores salseiros. Se é acanhada, endoida e não regateia pra fazer um escândalo. Esse lance de que a mulher mesmo muito ligada num homem e tal e coisa, se enruste e se fecha em copas porque tem categoria é papo furado. Mulher que deixa o amor no barato não está toda na parada. Que nada! Às vezes, está por solidão, por simpatia, por conveniência e os cambaus. Nunca por gama. É isso. Não tem erro. Sou eu que afirmo, e de mulher eu entendo. Mas deixa isso de lado. O que quero contar e o que pesa na balança é a história da Dilma Fuleira e da Celeste Bicuda, duas flores da Barra do Catimbó que se unharam e se dentaram por amor ao Ariovaldo Piolho, um vagau de pouca presença física, mas de muita embaixada. Ele lidava com seu rebanho com mil e um macetes e, por essas e outras, sempre foi muito considerado pelo mulherio. É verdade que esse perereco se deu nas quebradas do mundaréu, onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, mas, se acontecesse nos salões da mais fina gente da sociedade, não me causava nenhum espanto. Mulher é mulher em qualquer lugar. Mestre Zagaia, velho cabo-de-esquadra que navegou sem bandeira por muita água barrenta e que bateu perna à toa pelos caminhos mais escamosos, esquisitos e estreitos do roçado do bom Deus, viu quizilas de assombrar negos de patuá forte, embrulhou sua solidão em muito lençol encardido e escancarou nas Tabuadas das Candongas uma dica sobre o assunto:
— Depois dos panos arriados, o espetáculo é sempre o mesmo.
E, se Mestre Zagaia falou, tá falado. Mulher é sempre mulher. E a Dilma Fuleira e a Celeste Bicuda também são, embora à primeira vista não pareçam. Sabe como é. Elas nasceram lesadas da sorte e só pegaram a pior. Bagulho catado no chão da feira nunca fez bem à beleza de ninguém.
Porém (e sempre tem um porém), não foi a condição de bagulho que impediu que elas tivessem grandes ilusões a respeito de amor. E o galã dos sonhos das duas era, como já disse, o Ariovaldo Piolho. Esse vagau se serviu das duas sem a mínima cerimônia. Foi ali na base do agrião. Como as duas estavam a fim dele, o danado negociou. Fez valer a velha e tinhosa lei da oferta e da procura. Se fingia de morto e esperava pra ver quem comparecia no seu enterro.
Como quem não quer nada, pegava a grana na mão da Dilma, cumpria a obrigação e ia buscar os pixulés com a Celeste. E se o dinheiro compensava, não deixava ela em falta. Até que o caldo engrossou.
Bateu sujeira. O doutor delerusca resolveu acabar com o pesqueiro das piranhas e a Dilma Fuleira e a Celeste Bicuda se viram no papo-de-aranha. Escaparam da cana, mas o faturamento caiu às pamparras. E, no meio disso tudo, o Ariovaldo Piolho sentiu o aroma da perpétua. Vagau escolado por muitos anos de janela é sempre cem por cento profissional. Sem pagório, deixou as mulheres na saudade. E se deu o esquinapo.
A Dilma Fuleira achou que o Piolho não queria nada com ela porque estava enredado pela Celeste Bicuda. Procurou a rival e, sem conversa, deu-lhe uma tremenda biaba. A Celeste Bicuda era encardida. Encarou, mas não deu nem pra saída. A Dilma Fuleira era gordona e alta. A Celeste, baixinha e só pele e osso. Teve que apanhar e correr. Porém, como não era de engolir nada enrolado, a Celeste Bicuda tramou a forra. Foi na macumba levar o nome da Dilma Fuleira pra sua mãe-de-santo enterrar no cemitério. Feita a façanha, a Celeste Bicuda se botou a boquejar nos botecos. Garantia pra quem duvidasse que a Dilma Fuleira ia murchar até morrer. E não faltou fuxiqueiro pra ir rapidinho envenenar a Dilma. E ela, que já estava atolada até o gogó no pântano, acreditou que a bananosa toda que curtia era devido à mandinga da Celeste. Se picou de raiva e jurou pela luz que a iluminava que ia pegar a inimiga e dar pancada até ela desenterrar seu nome. E foi pra guerra.
A Dilma encontrou a Celeste no seu barraco e nem pediu licença. Entrou na força bruta e foi botando pra quebrar. De repente, a Celeste Bicuda deu uns gritos, uns pulos pro alto e, quando desceu, era uma fera batusquela. Passou a mão numa enxada e tocou o bumba-meu-boi no lombo da Dilma, que se viu obrigada a dar pinote. Mas a Celeste foi na captura e derrubou o barraco da Dilma a enxadada. Em desespero e apavorada com a fúria da Celeste Bicuda, a Dilma se refugiou na casa do Piolho. A Celeste não tomou conhecimento. Aliás, ainda ficou mais endoidada de ver a rival junto do homem da sua gama. Aumentou o escarcéu.
O Ariovaldo, sem se afobar saiu de fininho e chamou a polícia. A cana chegou e ferrou a Celeste e a Dilma. No Distrito, a Celeste falou que não tinha nada com a briga. Foi o exu da sua crença que encarnou nela pra acabar com a Dilma. A Dilma, de zoeira, entregou tudo como era. Disse pro doutor que a bronca era por causa do Piolho, que estava na fita como testemunha. O delegado quis saber se o Piolho tinha emprego. Não tinha. Entrou em pua e as mulheres foram dispensadas. Mas continuam pelejando por amor. Uma visita o vagau às quartas-feiras; a outra, aos domingos. E todas as duas levam o santo dinheirinho de presente pro Ariovaldo Piolho, o bom amante.



O texto acima foi extraído do livro "Histórias das quebradas do mundaréu", Mirian Paglia Editora de Cultura Ltda. - São Paulo, 2004, págs. 105e 177/8.

PROJETO RELEITURA

segunda-feira

O AMOR PELOS LIVROS

COMO É MESMO O NOME?
Marina Colasanti


Levou o manequim de madeira à festa porque não tinha companhia e não queria ir sozinho.
Gravata bordeaux, seda. Camisa pregueada, cambraia. Terno riscado, lã. Tudo do bom. Suas melhores roupas na madeira bem talhada, bem lixada, bem pintada, melhor corpo. Só as meias um pouco grossas, o que porém se denunciaria apenas se o manequim cruzasse as pernas. Para o nariz firmemente obstruído, um lenço no bolsinho.
No relógio de ouro do pulso torneado, a festa já tinha começado há algum tempo.
Sorridentes, os donos da casa se declararam encantados por ter ele trazido um amigo.
— Os amigos dos nossos amigos são nossos amigos — disseram saboreando a generosidade da sua atitude. E o apresentaram a outros convidados, amigos e amigos de nossos amigos. Todos exibiram os dentes em amável sorriso.
Recebeu o copo de uísque, sua senha. E foi colocado no canto esquerdo da sala, entre a porta e a cômoda inglesa, onde mais se harmonizaria com a decoração.
A meia hilaridade pintada com tinta esmalte e reforçada com verniz náutico exortava outras hilaridades a se manterem constantes, embora nenhuma alcançasse idêntico brilho. Abriam-se os transitórios vizinhos em amenidades que o compreensivo calar-se do outro logo transformava em confidências. Enfim alguém que sabia ouvir. Relatos sibilavam por entre gengivas à mostra e se perdiam em quase espuma na comissura dos lábios. Cabeças aproximavam-se, cúmplices. Apertavam-se as pálpebras no dardejado do olhar. O ruge, o seio, o ventre, a veia expandida palpitavam. O gelo no uísque fazia-se água.
A própria dona da casa ocupou-se dele na refrega de gentilezas. Trocou-lhe o copo ainda cheio e suado por outro de puras pedras e âmbar. Atirou-se à conversa sem preocupações de tema, cuidando apenas de mantê-lo entretido. Do que logo se arrependeu, naufragando na ironia do sorriso que lhe era oferecido de perfil. A necessidade de assunto mais profundo levou-a à única notícia lida nos últimos meses. E nela avançou estimulada pelo silêncio do outro, logo úmida de felicidade frente a alguém que finalmente não a interrompia. No mais frondoso do relato o marido, entre convivas, a exigiu com um sinal. Afastou-se prometendo voltar.
O brilho de uma calvície abandonou o centro da sala e coruscou a seu lado, derramando-lhe sobre o ombro confissões impudicas, relato de farta atividade extraconjugal. Sem obter comentários, sequer um aceno, o senhor louvou intimamente a discrição, achando-a, porém, algo excessiva entre homens. Homens menos excessivos aguardavam em outros cantos da sala a repetição de suas histórias.
Não acendeu o cigarro de uma dama e esta ofendeu-se, já não havia cavalheiros como antigamente. Não acendeu o cigarro de outra dama e esta encantou-se, sabia bem o que se esconde atrás de certo cavalheirismo de antigamente. Os cinzeiros acolheram os cigarros sem uso.
Um cavalheiro sentiu-se agredido pelo seu desprezo. Um outro pela sua superioridade. Um doutor enalteceu-lhe a modéstia. Um senhor acusou-lhe a empáfia. E o jovem que o segurou pelo braço surpreendeu-se com sua rígida força viril.
Nenhum suor na testa. Nenhum tremor na mão. Sequer uma ponta de tédio. Imperturbável, o manequim de madeira varava a festa em que os outros aos poucos se descompunham.
Já não eram como tinham chegado. As mechas escapavam, amoleciam os colarinhos, secreções escorriam nas peles pegajosas. Só os sorrisos se mantinham, agora descorados.
No relógio torneado do pulso rijo a festa estava em tempo de acabar.
As mulheres recolhiam as bolsas com discrição. Os amigos, os amigos dos amigos, os novos amigos dos velhos amigos deslizavam porta afora.
Mais tarde, a dona da casa, tirando a maquilagem na paz final do banheiro, dedos no pote de creme, comentava a festa com o marido.
— Gostei — concluiu alastrando preto e vermelho no rosto em nova máscara —, gostei mesmo daquele convidado, aquele atencioso, de terno riscado, aquele, como é mesmo o nome?


O texto acima foi extraído do livro "O leopardo é um animal delicado", Editora Rocco — Rio de Janeiro, 1998, pág. 131.


PROJETO RELEITURA

O AMOR PELOS LIVROS

CIDADE DE DEUS
Rubem Fonseca


O nome dele é João Romeiro, mas é conhecido como Zinho na Cidade de Deus, uma favela em Jacarepaguá, onde comanda o tráfico de drogas. Ela é Soraia Gonçalves, uma mulher dócil e calada. Soraia soube que Zinho era traficante dois meses depois de estarem morando juntos num condomínio de classe média alta da Barra da Tijuca. Você se importa?, Zinho perguntou, e ela respondeu que havia tido na vida dela um homem metido a direito que não passava de um canalha. No condomínio Zinho é conhecido como vendedor de uma firma de importação. Quando chega uma partida grande de droga na favela Zinho some durante alguns dias. Para justificar sua ausência Soraia diz, para as vizinhas que encontra no playground ou na piscina, que o marido está viajando pela firma. A polícia anda atrás dele, mas sabe apenas o seu apelido, e que ele é branco. Zinho nunca foi preso.

Hoje à noite Zinho chegou em casa depois de passar três dias distribuindo, pelos seus pontos, cocaína enviada pelo seu fornecedor em Puerto Suarez e maconha que veio de Pernambuco. Foram para a cama. Zinho era rápido e rude e depois de foder a mulher virava as costas para ela e dormia. Soraia era calada e sem iniciativa, mas Zinho queria ela assim, gostava de ser obedecido na cama como era obedecido na Cidade de Deus.

“Antes de você dormir posso te perguntar uma coisa?”

“Pergunta logo, estou cansado e quero dormir, amorzinho.”

"Você seria capaz de matar uma pessoa por mim?"

“Amorzinho, eu mato um cara porque ele me roubou cinco gramas, não vou matar um sujeito que você pediu? Diz quem é o cara. É aqui do condomínio?”

“Não”.

“De onde é?”

“Mora na Taquara”.

“O que foi que ele te fez?”

“Nada. Ele é um menino de sete anos. Você já matou um menino de sete anos?”

“Já mandei furar a bala as palmas das mãos de dois merdinhas que sumiram com uns papelotes, pra servir de exemplo, mas acho que eles tinham dez anos. Por que você quer matar um moleque de sete anos?”

“Para fazer a mãe dele sofrer. Ela me humilhou. Tirou o meu namorado, fez pouco de mim, dizia para todo mundo que eu era burra. Depois casou com ele. Ela é loura, tem olhos azuis e se acha o máximo.”

“Você quer se vingar porque ela tirou o seu namorado? Você ainda gosta desse puto, é isso?”

“Gosto só de você, Zinho, você é tudo para mim. Esse merda do Rodrigo não vale nada, só sinto desprezo por ele. Quero fazer a mulher sofrer porque ela me humilhou, me chamou de burra, ria na frente dos outros.”

“Posso matar esse puto.”

“Ela nem gosta dele. Quero fazer essa mulher sofrer muito. Morte de filho deixa a mãe desesperada.”

“Está bem. Você sabe onde o menino mora?”

“Sei.”

“Vou mandar pegar o moleque e levar para a Cidade de Deus.”

“Mas não faz o garoto padecer muito.”

“Se essa puta souber que o filho morreu sofrendo é melhor, não é? Me dá o endereço. Amanhã mando fazer o serviço, a Taquara é perto da minha base.”

De manhã bem cedo Zinho saiu de carro e foi para a Cidade de Deus. Ficou fora dois dias. Quando voltou, levou Soraia para a cama e ela docilmente obedeceu a todas as suas ordens, Antes de ele dormir, ela perguntou, “você fez aquilo que eu pedi?”

“Faço o que prometo, amorzinho. Mandei meu pessoal pegar o menino quando ele ia para o colégio e levar para a Cidade de Deus. De madrugada quebraram os braços e as pernas do moleque, estrangularam, cortaram ele todo e depois jogaram na porta da casa da mãe. Esquece essa merda, não quero mais ouvir falar nesse assunto", disse Zinho.
“Sim, eu já esqueci.”

Zinho virou as costas para Soraia e dormiu. Zinho tinha um sono pesado. Soraia ficou acordada ouvindo Zinho roncar. Depois levantou-se e pegou um retrato de Rodrigo que mantinha escondido num lugar que Zinho nunca descobriria. Sempre que Soraia olhava o retrato do antigo namorado, durante aqueles anos todos, seus olhos se enchiam de lágrimas. Mas nesse dia as lágrimas foram mais abundantes.

“Amor da minha vida”, ela disse, apertando o retrato de Rodrigo de encontro ao seu coração sobressaltado.


Texto extraído do livro "Histórias de Amor", Cia. das Letras - 1997 - São Paulo, pág. 11.

PROJETO RELEITURA

O AMOR PELOS LIVROS

A PARTIDA
Osman Lins



Hoje, revendo minhas atitudes quando vim embora, reconheço que mudei bastante. Verifico também que estava aflito e que havia um fundo de mágoa ou desespero em minha impaciência. Eu queria deixar minha casa, minha avó e seus cuidados. Estava farto de chegar a horas certas, de ouvir reclamações; de ser vigiado, contemplado, querido. Sim, também a afeição de minha avó incomodava-me. Era quase palpável, quase como um objeto, uma túnica, um paletó justo que eu não pudesse despir.
Ela vivia a comprar-me remédios, a censurar minha falta de modos, a olhar-me, a repetir conselhos que eu já sabia de cor. Era boa demais, intoleravelmente boa e amorosa e justa.
Na véspera da viagem, enquanto eu a ajudava a arrumar as coisas na maleta, pensava que no dia seguinte estaria livre e imaginava o amplo mundo no qual iria desafogar-me: passeios, domingos sem missa, trabalho em vez de livros, mulheres nas praias, caras novas. Como tudo era fascinante! Que viesse logo. Que as horas corressem e eu me encontrasse imediatamente na posse de todos esses bens que me aguardavam. Que as horas voassem, voassem!
Percebi que minha avó não me olhava. A princípio, achei inexplicável ela fizesse isso, pois costumava fitar-me, longamente, com uma ternura que incomodava. Tive raiva do que me parecia um capricho e, como represália, fui para a cama.
Deixei a luz acesa. Sentia não sei que prazer em contar as vigas do teto, em olhar para a lâmpada. Desejava que nenhuma dessas coisas me afetasse e irritava-me por começar a entender que não conseguiria afastar-me delas sem emoção.
Minha avó fechara a maleta e agora se movia, devagar, calada, fiel ao seu hábito de fazer arrumações tardias. A quietude da casa parecia triste e ficava mais nítida com os poucos ruídos aos quais me fixava: manso arrastar de chinelos, cuidadoso abrir e lento fechar de gavetas, o tique-taque do relógio, tilintar de talheres, de xícaras.
Por fim, ela veio ao meu quarto, curvou-se:
— Acordado?
Apanhou o lençol e ia cobrir-me (gostava disto, ainda hoje o faz quando a visito); mas pretextei calor, beijei sua mão enrugada e, antes que ela saísse, dei-lhe as costas.
Não consegui dormir. Continuava preso a outros rumores. E quando estes se esvaíam, indistintas imagens me acossavam. Edifícios imensos, opressivos, barulho de trens, luzes, tudo a afligir-me, persistente, desagradável — imagens de febre.
Sentei-me na cama, as têmporas batendo, o coração inchado, retendo uma alegria dolorosa, que mais parecia um anúncio de morte. As horas passavam, cantavam grilos, minha avó tossia e voltava-se no leito, as molas duras rangiam ao peso de seu corpo. A tosse passou, emudeceram as molas; ficaram só os grilos e os relógios. Deitei-me.
Passava de meia-noite quando a velha cama gemeu: minha avó levantava-se. Abriu de leve a porta de seu quarto, sempre de leve entrou no meu, veio chegando e ficou de pé junto a mim. Com que finalidade? — perguntava eu. Cobrir-me ainda? Repetir-me conselhos? Ouvi-a então soluçar e quase fui sacudido por um acesso de raiva. Ela estava olhando para mim e chorando como se eu fosse um cadáver — pensei. Mas eu não me parecia em nada com um morto, senão no estar deitado. Estava vivo, bem vivo, não ia morrer. Sentia-me a ponto de gritar. Que me deixasse em paz e fosse chorar longe, na sala, na cozinha, no quintal, mas longe de mim. Eu não estava morto.
Afinal, ela beijou-me a fronte e se afastou, abafando os soluços. Eu crispei as mãos nas grades de ferro da cama, sobre as quais apoiei a testa ardente. E adormeci.
Acordei pela madrugada. A princípio com tranqüilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir. Inútil, o sono esgotara-se. Com precaução, acendi um fósforo: passava das três. Restavam-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem chegaria às cinco. Veio-me então o desejo de não passar nem uma hora mais naquela casa. Partir, sem dizer nada, deixar quanto antes minhas cadeias de disciplina e de amor.
Com receio de fazer barulho, dirigi-me à cozinha, lavei o rosto, os dentes, penteei-me e, voltando ao meu quarto, vesti-me. Calcei os sapatos, sentei-me um instante à beira da cama. Minha avó continuava dormindo. Deveria fugir ou falar com ela? Ora, algumas palavras... Que me custava acordá-la, dizer-lhe adeus?
Ela estava encolhida, pequenina, envolta numa coberta escura. Toquei-lhe no ombro, ela se moveu, descobriu-se. Quis levantar-se e eu procurei detê-la. Não era preciso, eu tomaria um café na estação. Esquecera de falar com um colega e, se fosse esperar, talvez não houvesse mais tempo. Ainda assim, levantou-se. Ralhava comigo por não tê-la despertado antes, acusava-se de ter dormido muito. Tentava sorrir.
Não sei por que motivo, retardei ainda a partida. Andei pela casa, cabisbaixo, à procura de objetos imaginários enquanto ela me seguia, abrigada em sua coberta. Eu sabia que desejava beijar-me, prender-se a mim, e à simples idéia desses gestos, estremeci. Como seria se, na hora do adeus, ela chorasse?
Enfim, beijei sua mão, bati-lhe de leve na cabeça. Creio mesmo que lhe surpreendi um gesto de aproximação, decerto na esperança de um abraço final. Esquivei-me, apanhei a maleta e, ao fazê-lo, lancei um rápido olhar para a mesa (cuidadosamente posta para dois, com a humilde louça dos grandes dias e a velha toalha branca, bordada, que só se usava em nossos aniversários.


O texto acima, publicado em "Os Gestos", Editora Melhoramentos — São Paulo, 1975, consta também do livro "Os cem melhores contos brasileiros do século", seleção de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 190.

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domingo

O AMOR PELOS LIVROS

O SUBLIME É SIMPLES
NICODEMOS SENA



No artigo "Instinto de nacionalidade", escrito em 1873, Machado de Assis – para quem não sabe, um dos fundadores, ao lado de José Veríssimo, da moderna crítica literária brasileira – afirma: "Bem sei que as cenas majestosas da natureza americana exigem do poeta imagens e expressões adequadas. O condor que rompe dos Andes, o pampeiro que varre os campos do sul, os grandes rios, a mata virgem com todas as suas magnificências de vegetação, – não há dúvida que são painéis que desafiam o estro, mas, por isso mesmo que são grandes, devem ser trazidos com oportunidade e expressos com simplicidade".
Eu, que nasci e cresci na Amazônia das florestas catedralescas e de uma malha fluvial gigante, e que me atrevi a transfigurar na Literatura esta paisagem grandiosa, pude comprovar a veracidade de tais palavras. Sem dúvida, a oportunidade e a simplicidade (que muitas vezes faltavam à poesia da época de Machado e, com mais freqüência, costumam faltar à poesia de nossa época) são cabais para reproduzir uma grande imagem ou exprimir uma grande idéia. Diria mais: sem o senso de oportunidade e simplicidade é impossível reproduzir, em verso ou em prosa, um grande sentimento.
Teço tais considerações a propósito do livro "Eu vivo só ternuras" (Associação Cultuarte Missões, 2ª edição, 2002), do gaúcho de Roque Gonzales, Nelson Hoffmann. Trata-se, à primeira vista, de uma coletânea de contos, mas também pode ser lido como um romance curto, ou uma novela, pois, na verdade, cada "conto" funciona como um episódio que se une aos demais pela mesma temática: o Amor, a Ternura, o Embevecimento do avô diante de seu neto. Poucos sentimentos humanos são tão grandes quanto o do avô pelo neto; entretanto, Nelson Hoffmann escreveu um livro pouco volumoso – de apenas 74 páginas! Como conseguiu tratar de algo tão grandioso em tão pouco espaço?! Qual o segredo?
Com um tema "infantil", Nelson Hoffmann fez um livro para adultos reencontrarem a criança que dormita ou está manietada dentro de cada um. O homem que anda pela praça com a criança pelas mãos, o homem que conversa com a mãe da criança sobre os graves assuntos da vida, o homem que dá voltas pela cidade com o menino ao seu lado – tal homem, distanciado do mundo infantil, deixa-se conduzir pela criança, que, de repente, já não está ao seu lado, mas lhe fala de dentro, do fundo de si próprio.
Nelson Hoffmann consegue transmitir, a partir de sua experiência de avô, um sentimento que é de todos os avôs do mundo: o de ternura pelo pupilo. "Eu vivo só ternuras" é um livro de aventuras, de descobertas, não da África, do Himalaia ou qualquer outro lugar exótico do globo, mas das regiões sombrias do coração do homem, ainda tão pouco exploradas. "Eu vivo só ternuras" mostra, lado a lado, os mundos do adulto e da criança. A criança, buliçosa, enxergando tudo, curiosa, aprendendo com as coisas elementares – sol, céu, lua, vento, doença etc. E o adulto, preguiçoso, seguro de sua "sapiência", apenas "tocando" a vida. Há, neste livro, uma criança filosofando o mundo e um adulto que se permite "aprender" com ela.
Nelson Hoffmann extrai poesia do mais comezinho cotidiano, enxerga a vida em seus detalhes, descortina a "realidade" de um universo que nos disseram ser apenas imaginário. Mostra-nos que, antes da consciência de que todo jogo tem sua platéia, havia simplesmente o jogo pelo jogo, o "estar à vontade no mundo". Um sentimento grandioso e complexo foi traduzido de um modo tão natural e despretensioso que nos vem a certeza de que o sublime é simples.

(O Girassol, 25/11/2003, Palmas, TO)

*Nicodemos Sena é jornalista e escritor, autor do romance "A espera do nunca mais“

quinta-feira

O AMOR PELOS LIVROS

HERMANDAD
Octavio Paz

Homenaje a Claudio Ptolomeo

Soy hombre: duro poco
Y es enorme la noche.
Pero miro hacia arriba:
Las estrellas escriben.
Sin entender compreendo:
También soy escritura
Y en este mismo instante
Alguien me deletrea.

IRMANDADE
Homenagem a Claudio Ptolomeo


Sou homem: duro pouco
E é enorme a noite.
Mas olho para cima:
As estrelas escrevem.
Sem entender, compreendo:
Também fui escrito
E neste mesmo instante
Alguém me soletra.


Octavio Paz, ensaísta e poeta mexicano, nasceu na capital de seu país em 1914. Passou sua infância nos Estados Unidos, acompanhando sua família, e sua vida adulta entre a França e a Índia, por fazer parte do quadro de diplomatas mexicanos. Em seu país, é o poeta mais considerado e controvertido da segunda metade do século XX.
Foi agraciado, entre outros, com os prêmios Cervantes, em 1979, Alexis de Tocquerville, em 1989, e com o Nobel de Literatura, em 1990.
Algumas obras do autor: "Luna silvestre" (1933), "Entre lapiedra y la flor" (1940), "el laberinto de la soledad" (1959), "La estación violenta" (1958), "El arco y la lira" (1956), "Topoemas" (1971), e "Hijos del aire" (1979).

O escritor faleceu na cidade do México no ano de 1998.

Traduzido por Regina Werneck para o português, este poema faz parte da antologia "Poemas Reunidos" (1957 - 1987). Octavio Paz e Eliot Weinberger fizeram sua versão para o inglês, para o "Poesia em Movimento".

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terça-feira

O AMOR PELOS LIVROS

IDOLATRIA
Sérgio Faraco





Eu olhava para a estrada e tinha a impressão de que jamais na vida chegaríamos a Nhuporã. Que pedaço brabo. O camaleão se esfregava no chassi e o pai praguejava:
— Caminho do diabo!
Nosso Chevrolet era um trinta e oito de carroceria verde-oliva e cabina da mesma cor, só um nadinha mais escura. No pára-choque havia uma frase sobre amor de mãe e em cima da cabina uma placa onde o pai anunciava que fazia carreto na cidade, fora dela e ele garantia, de boca, que até fora do estado, pois o Chevrolet não se acanhava nas estradas desse mundo de Deus.
Mas o caminho era do diabo, ele mesmo tinha dito. A pouco mais de légua de Nhuporã o caminhão derrapou, deu um solavanco e tombou de ré na valeta. O pai acelerou, a cabina estremeceu. Ouvíamos os estalos da lataria e o gemido das correntes no barro e na água, mas o caminhão não saiu do lugar. Ele deu um murro no guidom.
— Puta merda.
Quis abrir a porta, ela trancou no barranco.
— Abre a tua.
A minha também trancava e ele se arreliou:
— Como é, ô Moleza!
Empurrou-a com violência.
— Me traz aquelas pedras. E vê se arranca um feixe de alecrim, anda.
Agachou-se junto às rodas e começou a fuçar, jogando grandes porções de barro para os lados. Mal ele tirava, novas porções vinham abaixo, afogando as rodas. Com a testa molhada, escavava sem parar, suspirando, praguejando, merda isso e merda aquilo, e de vez em quando, com raiva, mostrava o punho para o caminhão.
O pai era alto, forte, tinha o cabelo preto e o bigode espesso. Não era raro ele ficar mais de mês em viagem e nem assim a gente se esquecia da cara dele, por causa do nariz, chato como o de um lutador. Bastava lembrar o nariz e o resto se desenhava no pensamento.
— Vamos com essas pedras!
Por que falava assim comigo, tão danado? As pedras, eu as sentia dentro do peito, inamovíveis.
— Não posso, estão enterradas.
— Ah, Moleza.
Meteu as mãos na terra e as arrancou uma a uma. Carreguei-as até o caminhão, enquanto ele se embrenhava no capinzal para pegar o alecrim.
— Pai, pai, o caminhão tá afundando!
A cabeça dele apareceu entre as ervas.
— Não vê que é a água que tá subindo, ô pedaço de mula?
E riu. Ficava bonito quando ria, os dentes bem parelhos e branquinhos.
— Tá com fome?
— Não.
— Vem cá.
Tirou do bolso uma fatia de pão.
— Toma.
— Não quero.
— Toma logo, anda.
— E tu?
— Eu o quê? Come isso.
Trinquei o pão endurecido. Estava bom e minha boca se encheu de saliva.
— Acho que não vamos conseguir nada por hoje. De manhãzinha passa a patrola do DAER*, eles puxam a gente.
Atirou a erva longe e entrou na cabina.
— Ô Moleza, vamos tomar um chimarrão?
Fiz que sim. Ao me aproximar, ele me jogou sua japona.
— Veste isso, vai esfriar.
A japona me dava nos joelhos e ele riu de novo, mostrando os dentes.
— Que bela figura.
A cara dele era tão boa e tão amiga que eu tinha uma vontade enorme de me atirar nos seus braços, de lhe dar um beijo. Mas receava que dissesse: como é, Moleza, tá ficando dengoso? Então agüentei firme ali no barro, com as abas da japona me batendo nas pernas, até que ele me chamou outra vez:
— Como é, vens ou não?
Aí eu fui.
*Sigla do departamento responsável pela conservação das estradas estaduais.


O texto acima, publicado em "Dançar Tango em Porto Alegre", L&PM Editora — Porto Alegre, 1998, consta também do livro "Os cem melhores contos brasileiros do século", seleção de Italo Moriconi, Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 423.

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domingo

AMOR PELOS LIVROS

BLUES FÚNEBRES
W. H. Auden


Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.


Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.


Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.


É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.



O AMOR PELOS LIVROS

O ESPELHO
Sacha Guitry


Esta aconteceu na China. Um chinês preparava-se para ir ao mercado, que fica a alguns dias de viagem. Está anoitecendo. O chinês despede-se da mulher.
— Até à volta, Mel de Crisântemo. Que quer que lhe traga do mercado?
— Eu queria um pente.
— Um pente? Está bem. Mas eu tenho que comprar tanta coisa, como é que me vou lembrar?
— Não precisará mais do que olhar para a lua. Veja: a lua é crescente. Pois bem, o pente que eu quero é exatamente da forma da lua crescente.
— Até à volta.
E o chinês parte. Chega ao mercado. Faz suas compras. Terminando-as, já bem tarde, lembra-se da promessa, mas não se lembra muito bem do objeto desejado pela mulher.
Encontra-se, nesse momento, junto de um mercador e lhe diz:
— Pois veja só: prometi levar um presente a minha mulher, mas não me lembro mais o que foi. Ah! sim, espera. Estou-me lembrando agora que ela me disse para olhar a lua.
— Olhe, é lua cheia.
(A lua, que estava no seu primeiro quarto no dia da partida do chinês, agora era cheia).
— Deve ser um objeto redondo.
E o chinês compra um espelho, paga-o, faz um pacote e põe-se a caminho para a volta.
Ao chegar em casa, diz-lhe a mulher:
— Bom dia, meu marido. Trouxe-me o que eu lhe pedi?
— Naturalmente. Aqui está.
E o chinês dá o pacote à mulher, que apressadamente o abre. Essa mulher nunca tinha visto um espelho. E vendo nele um vulto de mulher, fica indignada:
— Meu marido, comprou outra mulher!
E Mel de Crisântemo chora todas as lágrimas de seu pequenino coração. Os seus olhos chamam a atenção de sua mãe.
— Ah! mamãe, mamãe — grita ela. — Venha ver. Meu marido trouxe para casa outra mulher.
A mãe toma o espelho, olha-o e diz à filha:
— Fica sossegada: é tão velha e tão feia!

O texto acima foi extraído do livro “Maravilhas do Conto Francês”, Editora Cultrix – São Paulo, 1958, pág. 319. Seleção de Jean P. L. Bellade e organização de Diaulas Riedel.

quinta-feira

O AMOR PELOS LIVROS

VIAGEM
Orides Fontela






Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde




sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.


Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.


O poema acima foi publicado no livro “Rosácea”, Ed. Duas Cidades - São Paulo (SP), 1986.

segunda-feira

O AMOR PELOS LIVROS

PARA ONDE VAMOS?
 por Fernando Henrique Cardoso

A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio “talvez” porque alguns estão de tal modo inebriados com “o maior espetáculo da terra”, de riqueza fácil que beneficia a poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?
Só que cada pequena transgressão, cada desvio, vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advenha do nosso Príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o país, devagarinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade, que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos.
É possível escolher ao acaso os exemplos de “pequenos assassinatos”. Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira “nacionalista”, pois se o sistema atual, de concessões, fosse “entreguista” deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental em uma companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem qualquer pudor, passear pelo Brasil às custas do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?
Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do “autoritarismo popular” vai minando o espírito da democracia constitucional. Essa supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os “projetos de impacto” (alguns dos quais viraram “esqueletos”, quer dizer obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Em pauta, temos a transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no orçamento e minguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo TCU. Não importa: no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: “Minha casa, minha vida”; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.
Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo “Brasil potência”. Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU – contra a letra expressa da Constituição – vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que tivesse se esquecido de acrescentar “l’État c’est moi”. Mas não esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender “nosso pré-sal”. Está bem, tudo muito lógico.
Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no “dedaço” que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições, sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são “estrelas novas”. Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.
Ora dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso, os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil, os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas – mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou “privatizadas”. Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde.



Ex-presidente da República

sábado

AMOR PELOS LIVROS

"ESPLANADA"



“Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,


agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.


O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.”


Manuel António Pina em "Poesia Reunida"

AMOR PELOS LIVROS

Entrevista por Paulo Ricardo Kralik Angelini


Como nasce um livro? Como nasceram A rua dos secretos amores e Aconteceu também comigo?
Jane Tutikian: Um livro nasce um pouco a cada dia. A vida está cheia de histórias; é só olhar para ela e contá-las. Foi assim que surgiram A rua dos secretos amores e Aconteceu também comigo. O primeiro de contos, o segundo, uma novela juvenil. A Rua era um projeto antigo, implicava mexer numa série de coisas, até porque o modelo de rua era o modelo da rua da minha infância: a Avenida Cauduro, talvez por isso tenha demorado para realizá-lo, e, talvez por isso o processo de criação tenha sido tão rápido e tão intenso. Escrevi a primeira versão da Rua em apenas dez dias. Foi uma experiência única. Estive povoada por dez dias e vivi emoções extremas, do riso ao choro. Quanto ao Aconteceu, minha quarta novela juvenil, queria falar de um tempo que era o tempo da minha própria adolescência e, então, me ocorreu falar de um último ano, na vida de uma menina, no Instituto de Educação. Acho que é o livro que mais responde ao meu projeto com relação aos jovens: não tem uma história, tem situações, e tem um objetivo claro que é discutir a adolescência, os sentimentos, as dúvidas, as surpresas.

Como é escrever literatura infanto-juvenil? Vem à tona uma Jane diferente da que escreve outro tipo de literatura?
Jane Tutikian: Para falar a verdade, eu entrei na literatura juvenil quase por acaso, ou, pelo menos, sem intenção. Tinha uma personagem de 13 anos, escrevi sua história e surgiu A cor do azul, hoje na 22ª edição. Não pensei “agora vou escrever para jovem”. E acho isso o mais legal de tudo, porque não fiz nenhuma concessão de linguagem, de estilo, de pensamento, de nada. Não subestimei ninguém. Estou lá inteira, da mesma forma que estou inteira nos textos para adultos. Sou lá mais uma contadora de emoções do que uma contadora de histórias, da mesma forma que sou nos textos para adultos.

Quem é a primeira pessoa que lê teus livros? Eles vão direto para o editor ou há uma espécie de leitura informal de amigos?
Jane Tutikian: A primeira pessoa que lê os meus textos é a minha filha Fernanda. Ela é muito sensível e muito crítica. Se passa por ela, eu sei que está pronto; se não passa, sento e trabalho o texto. Por que não entrego para alguém da área? Porque o público não é da área e é para ele que eu escrevo.

Quando tu estás mergulhada na criação de um livro, quais são as maiores transformações no teu dia a dia?
Jane Tutikian: Não há grandes transformações no meu dia, há em mim, que fico mais dispersiva e com mais dificuldade de me concentrar em outra coisa que não o texto. Às vezes sou tomada por uma sensação de perda de tempo e lembro da Katherine Mansfield, lá na década de 20, quando dizia em uma das suas cartas: “não sei por que a gente que escreve acha que é tudo o que importa.” Quando escrevo, é, também, o que importa.

Tua atuação acadêmica facilita ou dificulta teu produção literária?
Jane Tutikian: Já atrapalhou e muito. Hoje, consigo separar a escritora da professora e isso me dá tranquilidade e espontaneidade para criar.

Quais são tuas influências literárias?
Jane Tutikian: Tudo o que li, que me transformou, que me emocionou. Álvaro de Campos, Clarice Lispector, Virgínia Woolf, Simone de Beauvoir, Caio Fernando Abreu e tantos outros.

Para uma autora que já recebeu tantos prêmios, até mesmo o Jabuti – prêmio máximo em nível nacional – existe uma certa expectativa de reconhecimento a cada novo trabalho?
Jane Tutikian: Os prêmios são um momento. Envaidecem, mas não inspiram, não são determinantes na criação de novos textos. O reconhecimento, por sua vez, depende de muitos fatores extra-literários e a gente tem que ter isso muito claro. Não temos, por exemplo, uma estrutura editorial que nos permita uma distribuição adequada, tanto em termos de Rio Grande do Sul quanto de Brasil, e uma boa divulgação. A distribuição é precária e a divulgação privilegia meia dúzia de eleitos. O reconhecimento passa por isso. Há muita gente boa produzindo muito e bem, neste país de extensão continental, e a gente não chega sequer a conhecer.

Qual a importância de um evento como a Feira do Livro de Porto Alegre?
Jane Tutikian: A Feira do Livro de Porto Alegre faz parte da nossa identidade, essa é sua grande e verdadeira importância, é o momento em que a cidade para e se centra no livro. As pessoas economizam e juntam dinheiro para a feira, e isso é um barato! É a grande oportunidade de o livro cumprir seu destino, pois não há como cumpri-lo se não for junto ao leitor. Em termos mais amplos, em tempos de avanço tecnológico, impõe-se o desafio da humanização de que o livro pode ser o melhor agente.

Qual a tua opinião sobre sites na internet que estimulam a criação literária e a discussão na rede?
Jane Tutikian: Sou de uma geração muito mais feliz do que esta. Tínhamos o Caderno de Sábado, que aceitava nossos textos. Criticávamos nossos textos impressos e essa relação é fundamental. Como esse espaço foi suprimido, criaram-se outros, como os sites, e eu sou plenamente a favor deles como espaço alternativo de divulgação e de reflexão. Não creio, por exemplo, que possam vir a substituir o livro.

Jane Tutikian nasceu em Porto Alegre em 1952. É escritora e professora universitária (UFRGS). Autora de Batalha naval, A cor do azul (prêmio Jabuti literatura Infanto-Juvenil), Pessoas (prêmio Erico Verissimo), Geração Traída (prêmio Gralha Azul/PR), Um time muito especial (prêmio Tibicuera Livro do Ano), Alê, Marcelo, Ju & Eu (prêmio Açorianos Infanto-Juvenil), A rua dos secretos amores, Aconteceu também comigo (prêmio destaque Academia Brasileira de Letras), entre outros.