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domingo

ARNALDO ANTUNES E A ORIGEM DA POESIA

A ORIGEM DA POESIA
Arnaldo Antunes


A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem. Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia. Ou: qual a origem do discurso não-poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas.
Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história.
A manifestação do que chamamos de poesia hoje nos sugere mínimos flashbacks de uma possível infância da linguagem, antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado.
Houve esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava em tudo o que se dizia? Quando o nome da coisa era algo que fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras?
Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado.
Lembro-me de ter lido, certa vez, um comentário de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção para o fato de, tanto em chinês como em tupi, não existir o verbo ser, enquanto verbo de ligação. Assim, o ser das coisas ditas se manifestaria nelas próprias (substantivos), não numa partícula verbal externa a elas, o que faria delas línguas poéticas por natureza, mais propensas à composição analógica.
Mais perto do senso comum, podemos atentar para como colocam os índios americanos falando, na maioria dos filmes de cowboy — Eles dizem "maçã vermelha", "água boa", "cavalo veloz"; em vez de "a maçã é vermelha", "essa água é boa", "aquele cavalo é veloz". Essa forma mais sintética, telegráfica, aproxima os nomes da própria existência — como se a fala não estivesse se referindo àquelas coisas, e sim apresentando-as (ao mesmo tempo em que se apresenta).
No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermediam nossa relação com as coisas, impedindo nosso contato direto com elas. A linguagem poética inverte essa relação pois vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
Segundo Mikhail Bakhtin, (em "Marxismo e Filosofia da Linguagem") "o estudo das línguas dos povos primitivos e a paleontologia contemporânea das significações levam-nos a uma conclusão acerca da chamada 'complexidade' do pensamento primitivo. O homem pré-histórico usava uma mesma e única palavra para designar manifestações muito diversas, que, do nosso ponto de vista, não apresentam nenhum elo entre si. Além disso, uma mesma e única palavra podia designar conceitos diametralmente opostos: o alto e o baixo, a terra e o céu, o bem e o mal, etc". Tais usos são inteiramente estranhos à linguagem referencial, mas bastante comuns à poesia, que elabora seus paradoxos, duplos sentidos, analogias e ambiguidades para gerar novas significações nos signos de sempre.
Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida. Mas temos esses pequenos oásis — os poemas — contaminando o deserto da referencialidade.

Esse texto foi retirado da Revista Oca das Letras 1ª Edição de Abril 2009

sábado

TEXTO PUBLICADO NO "CARDENO DE IDÉIAS", Nº 8 - CURITIBA, FEVEREIRO DE 2004.

CARNAVAL EM CURITIBA
Cristovão Tezza

Lembro Jamil Snege, atrás da mesa, cigarro entre os dedos: "Carnaval em Curitiba? Não dá. O sujeito pula na rua, alegrinho, vem o guarda e prende!" Vendo de um certo jeito, é uma espécie de maldição esse carnaval — ou não-carnaval — na cidade. Temos até de nos explicar por escrito, como agora. Parece que carregamos a culpa pela falta de espírito carnavalesco, a vergonha do falso rebolado, essa triste ausência de brasilidade, quem sabe até falta de patriotismo! Quando o Brasil inteiro dança, nós aqui, naquele silêncio de missa, andando pelas ruas vazias, metendo o olho crítico no primeiro engraçadinho que sai por aí fazendo escândalo. Coisa de bêbados!
Nem as crianças se entusiasmam: uma terça-feira gorda no Parque Barigüi, que descanso! Parece que estamos passeando em Genebra num começo de primavera! Nenhuma máscara de pirata ou palhaço, nada de serpentina, nem um único confete no chão, naquelas trilhas onde o pessoal sério faz a firme corrida vespertina, bufando, como se não estivesse acontecendo nada no resto do Brasil. É uma coisa tão desenxabida, que quem defende o carnaval da cidade tem de fazê-lo aos gritos, em altos brados, tem de exigir atitude das autoridades, reclamar por leis mais severas, mandar requerimento aos vereadores! Ora, alguma coisa tem de ser feita contra esse crime, parecem dizer, contra essa terrível indiferença!
Bem, carnaval que precisa de lei ou regulamentação, que precisa de muito apoio, defesas apaixonadas para uma platéia apática ou apenas discretamente divertida, tem alguma coisa errada — ou não tem nada errado; apenas não existe. Parece que há uma incompatibilidade radical entre o espaço curitibano e a idéia de carnaval. Digo "espaço" porque, no período, uma horda imensa de curitibanos foge daqui, desabala-se sôfrega em filas intermináveis para descer ao litoral onde, apertada na multidão que enche calçadas, praias, restaurantes, bares, supermercados e apartamentos, passa quatro dias, às vezes sem água na torneira, reclamando da chuva. Ou os habitantes escapam para Floripa, para o Rio, escondem-se em Antonina, em qualquer lugar onde possam se divertir. Aqui, alguma coisa decididamente não combina.
E não é de hoje. A edição de O Paranaense, de 15 de fevereiro de 1880, ilustra-nos Wilson Martins, descrevia os "folguedos carnavalescos" como um desfile de "raras e desengraçadas figuras". Observe-se a finura crítica da expressão, nossa marca registrada: "desengraçadas figuras" — onde naufraga o carnaval, brilha a linguagem.
Há algumas surpresas. Anos atrás, fui pela primeira vez ao antigo Bar do Ermes em pleno carnaval: fregueses bebiam cerveja tranqüilos nas mesas espalhadas, como numa noite de outubro. Mas percebi um som ao fundo, algo que vinha dos subterrâneos, vibrava o chão, uma espécie de bate-estacas que se aproxima. Descobri a escada para o porão e naquele pequeno espaço sem ar, enfumaçado, como na Chicago da Lei Seca, vislumbrei uma multidão clandestina que pulava carnaval, acotovelando-se no escuro com serpentina e tudo, num calor infernal e transpirando alegria. O contraste entre aquele caldeirão nas trevas e a paz iluminada lá da terra me sugeriu uma manchete possível para a Tribuna do Paraná: "Polícia estoura ponto de carnaval em Curitiba!"
Tudo bem: não temos carnaval. Mas vejamos de outro modo: em vez de defeito, não seria esse um capital respeitável a ser mais bem-aproveitado? Uma importante cidade brasileira substancialmente avessa ao carnaval! São quatro ou cinco dias de silêncio, de grandes espaços vazios para caminhar — e toda a infra-estrutura de lazer sub-aproveitada, teatros fechados, cinemas às moscas. Calculem-se os milhares — talvez milhões — de brasileiros que, como eu, acham carnaval uma coisa aborrecida e que muitas vezes se submetem por absoluta falta do que fazer àqueles desfiles intermináveis e chatíssimos da rede Globo, oitocentas horas seguidas da mesma coisa, torturados por sambas-enredos idiotas e clonados ao infinito na alegria militarizada da avenida.
Pois esse povo sofrido e sem opção encontraria em Curitiba o seu paraíso! Quanta coisa poderia ser programada nesse período! Desde a versão hard — digamos, um Festival Internacional de Música Sacra ou um Concurso Nacional de Canto Gregoriano —, até opções mais suaves, como, quem sabe, Encontros de Jazz Instrumental, algo assim, ou uma boa Mostra do Cinema Escandinavo, etc. São muitas opções. O único cuidado deverá ser vetar expressamente manifestações de MPB, porque atrás delas sempre há o risco de um trio-elétrico aparecer e aí, bem, aí sai todo mundo correndo, acabou o carnaval curitibano e voltamos à estaca zero.


PROJETO RELEITURA

sexta-feira

EUGENIO MONTALE FOI AGRACIADO COM O PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA EM 1975

SEM TÍTULO
Eugenio Montale


Um dia não muito longe
assistiremos à colisão
dos planetas e o céu diamantado
acabará submerso em escombros.
Então colheremos flores rutilantes
e estrelas de néon.
Olha, eis o sinal, um fogo
acende-se no céu, chocam-se
Júpiter e Órion e no terrível
estampido onde acabou o homem?
Certo que basta um sopro neste mundo
em que vivemos para que ele acabe.
Ficará talvez um grito, o da
terra que não quer perecer.






O poema acima foi publicado na revista "Palavra", Editora da Palavra - Belo Horizonte (MG), ano 1, nº 7, Outubro/1999, tradução de Ivo Barroso.

"A VONTADE E A FORTUNA" NOVO ROMANCE DO ESCRITOR CARLOS FUENTES

CASTOR E PÓLUX


Permitam-me apresentar-me. Ou melhor: apresentar meu corpo, violentamente separado (isto já o sabem) de minha cabeça. Falo de meu corpo porque o perdi e não terei outra oportunidade de apresentá-lo a vossas mercês, ou a mim mesmo. Indico assim, de uma vez, que a narração que se segue é ditada por minha cabeça e apenas por minha cabeça, uma vez que meu corpo, separado dela, já não é mais que uma lembrança: o que aqui for capaz de consignar e deixar nas mãos do advertido leitor.

Bem advertido: o corpo é pelo menos metade do que somos. No entanto, o deixamos escondido num closet verbal. Por pudor, não nos referimos a suas inapreciáveis e indispensáveis funções. Dispensem-me vocês: falarei com todo o detalhe de meu corpo. Porque, se não o fizer, logo meu corpo não será senão cadáver insepulto, ave de açougue, anônimo lombo. E, se não quiserem saber de minhas intimidades corporais, pulem este capítulo e iniciem a leitura, muito formalmente, no seguinte.
Sou um homem de vinte e sete anos de idade e um metro e setenta e oito de altura. Toda manhã me olho nu no espelho de meu banheiro e acaricio as faces antecipando a cotidiana cerimônia: fazer a barba e o bigode, provocar uma reação forte com a água-de-colônia Jean-Marie Farina no rosto, resignar-me a pentear um cabelo preto, grosso e revolto. Fechar os olhos. Negar ao rosto e á cabeça preto, grosso e revolto. Fechar os olhos. Negar ao rosto e á cabeça o papel principal que minha morte se encarregará de dar-lhes. Concentrar-me, em vez disso, em meu corpo. O tronco que vai separar-se da cabeça. O corpo que me ocupa do pescoço às extremidades, revestido de uma pele cor de canela pálida e externado em unhas que continuam crescendo horas e dias após a morte, como se quisessem arranhar a tampa do caixão e gritar aqui estou eu, continuo vivo, você se enganaram ao enterrar-me.
Esta é uma consideração puramente metafísica, como o é o terror em suas modalidades passageiras e permanentes. Devo concentrar-me em minha pele aqui e agora: devo resgatar meu físico, em toda a sua integridade, antes que seja tarde demais. Este é o órgão do tato que cobre todo o meu corpo e se prolonga dentro dele com travessuras anais módicas e permissíveis se comparadas com as brincadeiras maiores do gênero feminino, com seu incessante entrar e sair de corpos alheios (a verga do macho notoriamente e o corpo do menino sagradamente, enquanto de meu envoltório masculino só saem o sêmen e a urina pela frente, e por trás, tal como chez la femme, a merda e, em casos de prisão de ventre, a hóstia profunda do supositório). Cantarolo agora: “Caga o boi, caga a vaca e até a menina mais guapa solta sua bola de caca.” Amplas, generosas entradas e saídas da mulher. Estreitas, avaras as do homem: a uretra, o ânus, a urina, a merda. Claros e brutais os nomes. Obscuros e risíveis as alcunhas: tubos de Bellini, asa de Henle, cápsula de Bowmann, glomérulo de Malpigio. Perigos: anuria e uremia. Sem urina. Urina no sangue. Eu os evitei. Tudo, ao fim e ao cabo, é evitável na vida, menos a morte.
Suei. em vida suou todo o meu corpo, com exceção das pálpebras e da borda dos lábios. Suei limpo, salgado, sem mau cheiro, embora suar e urinar fossem produtos humanos, mas distinguíveis pela qualidade distinta do cheiro. Nunca precisei de desodorantes. Tive nobres e limpas axilas. Minha urina, sim, cheirou mal, a tugúrio esquecido e a caverna sem luz. Meu cocô variou com as circunstâncias, sobretudo dependendo da dieta. A comida mexicana nos aproxima perigosamente da diarréia, a norte-americana da cólica, a britânica da prisão de ventre. Apenas a cozinha mediterrânea assegura um equilíbrio sadio entre o que entra pela boca e o que sai pelo cu, como se o azeite de oliva e o vinagre de Módena, o produto das horas de Meio-dia, os pêssegos e os figos, os melões e os pimentões, soubessem antecipadamente que o gosto de comer deve ser compensado como o gosto de cagar, muito de acordo com as prosas de Quevedo: “Mais te amo que a uma boa vontade de cagar.”
Em todo o caso — em meu caso —, a merda é quase sempre dura e amarronzada, ás vezes enroscada com estética como as de barro que se vendem nos mercados, às vezes diluída e atormentada pelos alimentos picantes nacionais: merda minha. E raras vezes (sobretudo ao viajar) reticente e mal-encarada.
Sei que com estas diversões, meus caros sobreviventes, estou adiando o mais importante. Chegar à minha cabeça. Contar-lhe como era meu rosto após dar a entender que as nádegas são, como é bem sabido, o segundo rosto do homem. Ou será o primeiro? Já indiquei, ao pentear-me, que tenho uma boa mata indígena de cabelo escuro e mais enraizado que um agave. Falta-me indicar que meus olhos escuros afundem nas órbitas de um esqueleto facial quase transparente se não fosse pelo disfarce moreno da pele. (A pele morena esconde melhor os sentimentos que a pele branca. Por isso quando se manifesta é mais brutal, ainda que menos hipócrita.) Resumo: tenho sobrancelhas invisíveis, boca agradável, fina, quase sempre, e sem razão alguma, salvo a da cortesia, sorridente. Orelhas nem grandes nem pequenas, apenas adequadas a meu rosto extremamente magro, a pele colada ao osso, as raízes do cabelo brotando como matos noturnos que crescem sem luz.
E tenho nariz. Não um nariz qualquer, mas uma probóscide grande, por sorte fina, mas longa e fina, como um periscópio da alma que se adianta á vista para explorar a paisagem e saber se vale a pena desembarcar ou permanecer retraído, debaixo do mar da existência.
O grande sargaço da morte antecipada.
O mar que sobe em breves ondas, obrigando-me a engoli-lo antes que chegue aos orifícios de meu grande nariz, saliente entre a praia e a maré do amanhecer.
Sou corpo. Serei alma.

"A vontade e a fortuna" (Rocco), novo romance do escritor mexicano Carlos Fuentes.

"CORAÇÕES VAGABUNDOS" - FERNANDO BONASSI

CORAÇÕES VAGABUNDOS
Fernando Bonassi



O carro dobrou na Cesário Mota Jr., e Cibele logo percebeu que era o homem esquisito. Já passava de seis meses agora. Toda semana. Toda sexta-feira à noite. Nove horas em ponto o sujeito aparecia. Banho tomado, roupa passada. Ele vinha escorregando com o carro pro lado dela. Parava, mas deixava o motor ligado. Destravava a porta. Às vezes dizia alguma coisa.
— Boa noite.
— Boa.
Às vezes, nem isso... Mas sempre aquele cheiro de água de colônia. Enjoativo. Cibele sentia falta de ar. Procurava pelo botão do vidro. Não achava. Não tinha coragem de perguntar onde ficava. Contava até dez. Passava.
— Aposto que eu sei onde a gente vai...
O homem fez que sim com a cabeça. Ele a levava pra comer frango à passarinho com caipirinha em Pinheiros. Bebiam e comiam em silêncio aquelas irresistíveis desgraças cheias de gordura até perderem o juízo. Ela não conseguia se controlar. Depois pediam sobremesa. Ela simplesmente não conseguia se controlar! E ainda tomavam cafezinho:
— Sem açúcar, por favor...
Ele pagava e a deixava no mesmo lugar. Pagava o preço mais caro. Perguntou na primeira vez:
— Quanto é pra fazer tudo?
Ela caprichou. Ele tirou o dinheiro do bolso. Não tinha muito mais do que ela pedira, mas fez questão de acertar antes. De lá pra cá era sempre igual. Uma vez perguntou:
— Teve aumento?
Cibele não teve coragem. Pediu o de sempre.
Portanto ele podia fazer tudo o que quisesse, mas sempre a devolvia na mesma esquina. "Sem um arranhão!", como costumava dizer às amigas. Toda semana. Toda sexta-feira, entre 11 e 11 e meia estava de volta ao ponto. Menos mal, pensava a mulher, que ainda contava com todo o movimento da madrugada pra aproveitar. Aproveitava mesmo, que Cibele não fazia questão de prestar e tinha muitos planos; mas aquele homem... Não sabia se tinha vergonha... Ou pena. O coração dela ficava espremido. Ruminava as razões dele. Passava a semana com esse troço por dentro. Não chegava a lugar nenhum.
Até esse dia tinha ficado quieta, mas, no restaurante, quando ele perguntou o que ela queria, Cibele pôs a língua pra fora e disse:
— Você.
O garçom se fez de morto. Era um bom garçom. Ficou brincando de estátua com a caneta e o bloquinho. Passou um bom tempo assim, porque o homem deu uma risada comprida e só então virou pra pedir:
— Duas caipirinhas de pinga e um frango à passarinho.
O garçom se afastou e a mulher continuou provocando:
— Você gosta de beber, né?
— É bom, fica tudo mais fácil...
— Devia comer de vez em quando.
Dessa vez o homem não riu.
— Você é casado?
— Hum-hum.
— Mentira. Se fosse casado a tua mulher ia desconfiar da rotina.
— Não é uma questão de confiança.
— Ela é doente?
O homem voltou a rir.
— Você é doente?
— Não.
— Gay?
Chegou o pedido. Cibele ficou desacorçoada. Costumava dizer que se um dia fosse executada, frango à passarinho seria sua última refeição. Tentou escolher um pedaço bem sequinho. Difícil. Ficou mordiscando. Depois pegou mais. E foi pegando, querendo morrer. Seus lábios brilhavam quando perguntou:
— Eu não sou boa pra você?
O homem teve a coragem de fazer Cibele esperar que pegasse um cigarro do maço, tirasse caixa de fósforos do bolso da calça, um palito de dentro dela, acendesse esse maldito cigarro e só então se dignasse a responder:
— Você é a melhor coisa da minha semana.
— "Coisa"?!
O homem bufou diante da mulher, levantou a palma da mão pro garçom e fez que escrevia nela com um dedo. Cibele ficou pescando os restinhos de alho da bandeja.
— Você me engorda.
Cibele fechou a cara. De cara fechada esperou que o homem pagasse a conta e a levasse de volta à esquina de sempre. Nessa noite Cibele não sentiu o enjôo da água de colônia quando ele se debruçou nela pra destravar a porta. Desceu e ficou de costas. O homem baixou o vidro. "Aqueles botões...”
— Até sexta-feira...
Cibele pensou em ofender, mas quando virou, aquele homem esquisito estava bem ali... Ela sem saber se era vergonha ou pena... O coração espremido...
— Tá bom, te espero aqui.

Texto extraído da coluna que o autor mantém no jornal "Folha de S.Paulo".

"DESAFORISMOS" Franklin Jorge

DESAFORISMOS
"Tudo o que vemos é outra coisa."
Fernando Pessoa - Primeiro Fausto
Franklin Jorge


Ao embaixador Fernando Abbott Galvão.


Ascese: A rotina é uma forma de ascese.
Alegria: A alegria, de essência vulgar, é o consolo dos pobres.
Arquivo: V. Corpo.
Artista: Um artista alegre é tão inconcebível quanto um boi voador.
Bagdad: V. Sertão.
Balé: O balé é por demais abstrato.
Café: Ópio dos intelectuais. Madame de Sévigné repudiou o café como um modismo de cortesãos. Não foi feliz quando lhe vaticinou um sucesso efêmero.
Carnaval: O carnaval é a ópera socializada.
Casamento: Comodidade que acaba incomodando. Suprema punição do indivíduo que recorre ao hábito da família.
Clube: A feira, popular e multitudinária, é o clube do homem sertanejo.
Corpo: Arquivo de sensações.
Criar: Criar, para burlar a morte.
Dândi: Homem que não gosta de tirar a roupa.
Édipo (Complexo de): O homem é de tal forma edipiano que às vezes casa-se apenas para ter uma sogra.
Envelhecer: Embora o corpo não constitua obstáculo ao romance, sinto o grave desgosto de envelhecer.
Excesso: O excesso de limão estraga a ostra.
Excrescência: Os seios, numa mulher, são excrescência. Como a barba, nos homens.
Escrever: Escrever é transgredir os códigos. Escrever paralisa os hipócritas. Escrever é a vingança do mais fraco. Escrever equivale a um lento suicídio. É o ato mais próximo do suicídio. Quero disciplinar-me a escrever com uma raiva fria.
Família: uma sociedade de estranhos que se cumprimentam e às vezes se agridem. A vida em família é uma maneira aceitável de autopunição.
Filhos: Os filhos pagam os prazeres dos pais, mas rolam a dívida para os netos e bisnetos etc.
Humor: A ausência de humor embrutece o homem.
Jornalismo: Profissão de homens sem profissão. A sociedade espera mais do que recebe do jornalismo.
Linguagem: A linguagem sertaneja é por demais refinada. Muita vez ouvi dizer "miolo de quartinha", significando a conversa fútil, inconsistente, jogada fora, a prosa vadia.
Mediocridade: A mediocridade é contaminante. Sempre vence. A mediocridade é o partido dos que tiram vantagem de tudo na vida.
Metáfora: A mais bela metáfora é a do homem que escala a montanha.
Morrer: Antes morrer de Aids do que de tédio.
Morte: A morte é ecológica.
Motel: Sinônimo de supermercado.
Mulheres: As mulheres seriam os melhores amigos do homem, se soubessem distinguir sexo de amizade.
Museu: O museu do futuro não terá limites.
Música: Quando menino eu gostava de cantar e tinha uma bela voz. Depois, meu ouvido tomou-se impaciente para a música. O pior dos ruídos, segundo Napoleão. Dante não faz referência à música no seu poema.
Músicos: Convivi em minha infância com violeiros, músicos e poetas ambulantes, populares no sertão nordestino. Aprecio alguns músicos que não sei bem se o são. Eric Satie, Jean-Michel Jarre, Ravel e Saint-Sãens.
Narcisismo: A idéia de procriar é o cúmulo do narcisismo.
Nietzsche: O mundo seria pobre sem os ditirambos de Nietzsche, assassino de Deus.
Ópera: A ópera é um carnaval estilizado. É um espetáculo que cansa os sentidos. Resultaria numa tortura refinada a imposição de uma temporada que durasse infinitamente.
Orgasmo: O orgasmo não vale o esforço de tirar a roupa. Os homens confundem orgasmo com poder.
Piscina: A piscina é o símbolo infeccioso de uma época vulgar e promíscua. Piscina é coisa de romano ou arrivista.
Plástico: O plástico é uma matéria-prima repulsiva, símbolo descartável da sociedade de consumo. Nos séculos 17 e 18, civilizadíssimos, não havia plástico.
Rabo: Sinônimo de cu. Rogaciano Leite, escrevendo sobre os efeitos da seca no Nordeste, disse que Deus não viu quando o diabo amarrou uma tocha flamífera no rabo e saiu a correr incendiando o sertão.
Releitura: A cada releitura de Ascendino Leite, pensador de um infinito jornal literário, tenho a noção de que aprendi alguma coisa.
Remorso: O remorso é uma metáfora do inferno. É um inferno para uso privado.
Ricos: Mesmo entre os ricos há os que trabalham e os que se divertem.
Ridículo: Somente o ridículo tem vida eterna. Somente o ridículo sobrevive ao homem. Somente o ridículo é eficaz.
Rir: Os homens vulgares não sabem rir.
Ruído: A palavra ruído me cativa com a sua sonoridade sincopada.
Sauna: A sauna é o que há de mais próximo de um templo. Como nos santuários de antigos deuses do paganismo, aqui a prostituição é ofício sagrado. É uma maravilhosa invenção que reúne em um mesmo âmbito duas coisas sagradas: religião e prostituição. Nunca entrei numa sauna sem um certo temor reverente.
Sertão: O sertão é um mundo na fronteira do Oriente. Para o sertanejo, toda cidade é um pouco Bagdá. O sertão é uma utopia de João Guimarães Rosa.
Sexo: De origem vulgar. O sexo é suspeito porque implica a cumplicidade de um parceiro. O sexo competitivo é tão insípido quanto um rodízio de churrascaria. Uma herança das cavernas. Sinônimo de tédio.
Sobressalto: O luxo de criar, enfim, um sobressalto.
Solidão: Conquista difícil, prêmio de poucos.
Sonhos: Os sonhos são alquímicos.
Tragédia: Quase todo noivado antecipa uma tragédia.
Utopia: A utopia é um nobre refúgio.
Vaqueiro: Porque tenho a alma de vaqueiro, sigo adorando os sons orientais.
Vulgaridade: A vulgaridade é superlativa.


Franklin Jorge
"Ficções Fricções Africções" - Mares do Sul, 1999, pg. 53.

"GERAÇÃO 90: OS TRANSGRESSORES DE 2003" - IVANA ARRUDA LEITE

RONDÓ
Ivana Arruda Leite


Luísa julgava impossível terminar seu caso com Mário. Um dia, tenra como um pintinho saído da casca, chamou Mário à sua casa e pediu que não a procurasse mais. Ele relutou, mas foi. Ela nem chorou. Abriu a bolsa, apanhou a agenda e anotou o único compromisso para o próximo fim de semana: ser feliz.
Luísa julgava impossível terminar seu caso com Mário. Sofria da síndrome do fracasso prévio, já tentara mil vezes e nunca havia conseguido. Um dia, tenra como um pintinho saído da casca, chamou Mário à sua casa e pediu que não a procurasse mais. Ele relutou, mas foi. Ela nem chorou. Abriu a bolsa, apanhou a agenda e anotou o único compromisso para o próximo fim de semana: ser feliz.
Luísa julgava impossível terminar seu caso com Mário. Sofria da síndrome do fracasso prévio, já tentara mil vezes e nunca havia conseguido. Aquele amor mais parecia um câncer ou vício que não se cura. Ela esperava que um milagre acontecesse. Um dia, tenra como um pintinho saído da casca, chamou Mário à sua casa e pediu que não a procurasse mais. Antes, porém, sentou no colo e falou que talvez ainda valesse a pena tentar. Mário não disse palavra. Ela fez pé firme e pediu que ele fosse embora de uma vez. Ele relutou, mas foi. Ela nem chorou. Fez um café, sentou-se na sala e acendeu um cigarro. Abriu a bolsa, apanhou a agenda e anotou o único compromisso para o próximo fim de semana: ser feliz.
Luísa julgava impossível terminar seu caso com Mário. Sofria da síndrome do fracasso prévio. Já tentara mil vezes e nunca havia conseguido. Estavam juntos há mais de oito anos, mas Mário só prometia casamento quando bebia além da conta. Aquele amor mais parecia um câncer ou vício que não se cura. Ela esperava que um milagre acontecesse. Um dia, tenra como um pintinho saído da casca, chamou Mário à sua casa e pediu que não a procurasse mais. Antes, porém, sentou no colo e falou que talvez ainda valesse a pena tentar. Mário não disse palavra. Nisso tocou o telefone. Era a mulher de Mário dizendo que hoje era o último dia para pagar o Credicard. Mário pediu dinheiro emprestado a Luísa e foi entregar à mulher que estava esperando lá embaixo. Com o talão de cheques aberto sobre a mesa, Luísa disse olhando fundo nos seus olhos: você não tem dó de mim? Mais do que você pensa, ele respondeu. Tava na cara que aquilo era frase feita, ele nunca quis mudar a situação. Ela fez pé firme e pediu que ele fosse embora de uma vez. Ele relutou. mas foi. Ela nem chorou. E eu ainda lhe paguei o Credicard. Fez café, sentou-se na sala e acendeu um cigarro. Abriu a bolsa, apanhou a agenda e anotou o único compromisso para o próximo fim de semana: ser feliz.
Luísa julgava impossível terminar seu caso com Mário. Sofria da síndrome do fracasso prévio, já tentara mil vezes e nunca havia conseguido. Estavam juntos há mais de oito anos, mas Mário só prometia casamento quando bebia além da conta. No começo foi um romance muito apaixonado. Acreditavam que haviam nascido um para o outro. Hoje, aquele amor mais parecia um câncer ou vício que não se cura. Ela esperava que um milagre acontecesse. Um dia, tenra como um pintinho saído da casca, chamou Mário à sua casa e pediu que não a procurasse mais. Antes, porém, sentou no colo e falou que talvez ainda valesse a pena tentar. Mário não disse palavra. Nisso tocou o telefone. Era a mulher de Mário dizendo que hoje era o último dia para pagar o Credicard. Mário pediu dinheiro emprestado a Luísa e foi entregar à mulher que estava esperando lá embaixo. Com o talão de cheques aberto sobre a mesa, Luísa disse olhando fundo nos seus olhos: você não tem dó de mim? Mais do que você pensa, ele respondeu. Tava na cara que aquilo era frase feita, ele nunca quis mudar a situação. Ela fez pé firme e pediu que ele fosse embora de uma vez. Não sei se se fez de surdo ou de bobo, mas sugeriu que fossem comprar cerveja pra lavar a serpentina. Luísa disse que não estava a fim de cerveja porcaria nenhuma e que não queria prolongar aquele inferno por mais nenhum minuto. Ele relutou, mas foi. Ela nem chorou. E eu ainda lhe paguei o Credicard. Fez café, sentou-se na sala e acendeu um cigarro. Abriu a bolsa, apanhou a agenda e anotou o único compromisso para o próximo fim de semana: ser feliz.
Meu nome é Luísa, tenho trinta e sete anos e sempre julguei impossível terminar meu caso com Mário. Passei a sofrer a síndrome do fracasso prévio, já tentara mil vezes e nunca havia conseguido. Estávamos juntos há mais de oito anos, mas Mário só prometia casamento quando bebia além da conta. Sóbrio, tinha sempre um punhado de razões: o filho, os cachorros, a casa, a mulher, o papagaio, a mãe doente, a grana. No começo foi um romance muito apaixonado. Acreditávamos que havíamos nascido um para o outro. Hoje, aquele amor mais parecia um câncer ou vício que não se cura. Sempre esperei que um milagre acontecesse. Um dia, tenra como um pintinho saído da casca, chamei Mário à minha casa e pedi que não me procurasse mais. Antes, porém, sentei no colo e falei que talvez ainda valesse a pena tentar. Mário não disse palavra. Depois riu: você já me falou isto mil vezes. Nisso tocou o telefone. Era a mulher dele dizendo que hoje era o último dia para pagar o Credicard. Pois ele teve a cara de pau de me pedir dinheiro emprestado e levar à mulher que estava esperando lá embaixo. Quando perguntei: e nós? E a nossa situação? Ele me disse: hoje é o último dia pra pagar o Credicard e você quer que eu pense na nossa situação? Ao subir, me encontrou feito estátua na sala de jantar. Olhei fundo nos seus olhos e perguntei: você não tem dó de mim? Mais do que você pensa, ele respondeu. Tava na cara que aquilo era frase feita, Mário nunca quis mudar a situação. Fiz pé firme e pedi que ele fosse embora de uma vez. Não sei se se fez de surdo ou de bobo, mas sugeriu que fôssemos comprar cerveja pra lavar a serpentina. Disse-lhe que não estava a fim de cerveja porcaria nenhuma e que não queria prolongar aquele inferno por mais nenhum minuto. Ele relutou, mas foi. Eu nem chorei. E eu ainda lhe paguei o Credicard. Depois que ele saiu, fiz café, sentei-me na sala e acendi um cigarro. Nunca mais fui feliz.

Texto do livro “Geração 90: os transgressores de 2003”; “Ficções fraternas” e “Contos de escritoras brasileiras”, Editora Martins Fontes – São Paulo, 2003, pág. 145.

Projeto Releitura

quinta-feira

O MACACO QUE QUIS SER ESCRITOR SATÍRICO - AUGUSTO MONTERROSO

O MACACO QUE QUIS SER ESCRITOR SATÍRICO
Augusto Monterroso
                                        
Na Selva vivia uma vez um Macaco que quis ser escritor satírico.Estudou muito, mas logo se deu conta de que para ser escritor satírico lhe faltava conhecer as pessoas e se aplicou em visitar todo mundo e ir a todos os coquetéis e observá-las com o rabo do olho enquanto estavam distraídas com o copo na mão.
Como era verdadeiramente muito gracioso e as suas piruetas ágeis divertiam os outros animais, era bem recebido em toda parte e aperfeiçoou a arte de ser ainda mais bem recebido.
Não havia quem não se encantasse com sua conversa, e quando chegava era recebido com alegria tanto pelas Macacas como pelos esposos das Macacas e pelos outros habitantes da Selva, diante dos quais, por mais contrários que fossem a ele em política internacional, nacional ou municipal, se mostrava invariavelmente compreensivo; sempre, claro, com o intuito de investigar a fundo a natureza humana e poder retratá-la em suas sátiras.
E assim chegou o momento em que entre os animais ele era o mais profundo conhecedor da natureza humana, da qual não lhe escapava nada.
Então, um dia disse vou escrever contra os ladrões, e se fixou na Gralha, e começou a escrever com entusiasmo e gozava e ria e se encarapitava de prazer nas árvores pelas coisas que lhe ocorriam a respeito da Gralha; porém de repente refletiu que entre os animais de sociedade que o recebiam havia muitas Gralhas e especialmente uma, e que iam se ver retratadas na sua sátira, por mais delicada que a escrevesse, e desistiu de fazê-lo.
Depois quis escrever sobre os oportunistas, e pôs o olho na Serpente, a qual por diferentes meios — auxiliares na verdade de sua arte adulatória — conseguia sempre conservar, ou substituir, por melhores, os cargos que ocupava; mas várias Serpentes amigas suas, e especialmente uma, se sentiriam aludidas, e desistiu de fazê-lo.
Depois resolveu satirizar os trabalhadores compulsivos e se deteve na Abelha, que trabalhava estupidamente sem saber para que nem para quem; porém com medo de que suas amigas dessa espécie, e especialmente uma, se ofendessem, terminou comparando-a favoravelmente com a Cigarra, que egoísta não fazia mais do que cantar bancando a poeta, e desistiu de fazê-lo.
Finalmente elaborou uma lista completa das debilidades e defeitos humanos e não encontrou contra quem dirigir suas baterias, pois tudo estava nos amigos que sentavam à sua mesa e nele próprio.
Nesse momento renunciou a ser escritor satírico e começou a se inclinar pela Mística e pelo Amor e coisas assim; porém a partir daí, e já se sabe como são as pessoas, todos disseram que ele tinha ficado maluco e já não o recebiam tão bem nem com tanto prazer.

segunda-feira

ZUENIR VENTURA EM "CRÔNICAS DE UM FIM DE SÉCULO".

UM IDOSO NA FILA DO DETRAN
Zuenir Ventura


"O senhor aqui é idoso", gritava a senhora para o guarda, no meio da confusão na porta do Detran da Avenida Presidente Vargas, apontando com o dedo o tal "senhor". Como ninguém protestasse, o policial abriu o caminho para que o velhinho enfim passasse à frente de todo mundo para buscar a sua carteira.
Olhei em volta e procurei com os olhos 0 velhinho, mas nada. De repente, percebi que o "idoso" que a dama solidária queria proteger do empurra-empurra não era outro senão eu.
Até hoje não me refiz do choque, eu que já tinha me acostumado a vários e traumáticos ritos de passagem para a maturidade: dos 40, quando em crise se entra pela primeira vez nos "entra"; dos 50, quando, deprimido, salte que jamais vai se fazer outros 50 (a gente acha que pode chegar aos 80, mas aos 100?); e dos 60, quando um eufemismo diz que a gente entrou na "terceira idade". Nunca passou pela minha cabeça que houvesse uma outra passagem, um outro marco, aos 65 anos. E, muito menos, nunca achei que viesse a ser chamado, tão cedo, de "idoso", ainda mais numa fila do Detran.
Na hora, tive vontade de pedir à tal senhora que falasse mais baixo. Na verdade, tive vontade mesmo foi de lhe dizer: "idoso é o senhor seu pai. O que mais irritava era a ausência total de hesitação ou dúvida. Como é que ela tinha tanta certeza? Que ousadia! Quem lhe garantia que eu tinha 65 anos, se nem pediu pra ver minha identidade? E 0 guarda paspalhão, por que não criou um caso, exigindo prova e documentos? Será que era tão evidente assim? Como além de idoso eu era um recém-operado, acabei aceitando ser colocado pela porta adentro. Mas confesso que furei a fila sonhando com a massa gritando, revoltada: "esse coroa tá furando a fila! Ele não é idoso! Manda ele lá pro fim!" Mas que nada, nem um pio.
O silêncio de aprovação aumentava o sentimento de que eu era ao mesmo tempo privilegiado e vítima — do tempo. Me lembrei da manhã em que acordei fazendo 60 anos: "Isso é uma sacanagem comigo", me disse, "eu não mereço." Há poucos dias, ao revelar minha idade, uma jovem universitária reagira assim: "Mas ninguém lhe dá isso." Respondi que, em matéria de idade, o triste é que ninguém precisa dar para você ter. De qualquer maneira, era um gentil consolo da linda jovem. Ali na porta do Detran, nem isso, nenhuma alma caridosa para me "dar" um pouco menos.
Subi e a mocinha da mesa de informações apontou para os balcões 15 e 16, onde havia um cartaz avisando: "Gestantes, deficientes físicos e pessoas idosas." Hesitei um pouco e ela, já impaciente, perguntou: "O senhor não tem mais de 65 anos? Não é idoso?"
— Não, sou gestante — tive vontade de responder, mas percebi que não carregava nenhum sinal aparente de que tinha amamentado ou estava prestes a amamentar alguém. Saí resmungando: "não tenho mais, tenho só 65 anos."
O ridículo, a partir de uma certa idade, é como você fica avaro em matéria de tempo: briga por causa de um mês, de um dia. "Você nasceu no dia 14, eu sou do dia 15", já ouvi essa discussão.
Enquanto espero ser chamado, vou tentando me lembrar quem me faz companhia nesse triste transe. Ai, se não me falha a memória — e essa é a segunda coisa que mais falha nessa idade —, me lembro que Fernando Henrique, Maluf e Chico Anysio estariam sentados ali comigo. Por associação de idéias, ou de idades, vou recordando também que só no jornalismo, entre companheiros de geração, há um respeitável time dos que não entram mais em fila do Detran, ou estão quase não entrando: Ziraldo, Dines, Gullar, Evandro Carlos, Milton Coelho, Janio de Freitas (Lemos, Cony, Barreto, Armando e Figueiró já andam de graça em ônibus há um bom tempo). Sei que devo estar cometendo injustiça com um ou com outro — de ano, meses ou dias —, e eles vão ficar bravos. Mas não perdem por esperar: é questão de tempo.
Ah, sim, onde é que eu estava mesmo? "No Detran", diz uma voz. Ah, sim. "E o atendimento?" Ah, sim, está mais civilizado, há mais ordem e limpeza. Mas mesmo sem entrar em fila passa-se um dia para renovar a carteira. Pelo menos alguma coisa se renova nessa idade.

Este texto foi publicado no livro "Crônicas de um fim de século", Ed. Objetiva - Rio de Janeiro - 1999 - pág. 25

PROJETO RELEITURAS

domingo

Fabrício (Carpi Nejar) Carpinejar nasceu em Caxias do Sul – RS, em 23 de outubro de 1972, filho do poeta Carlos Nejar. É mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

O FIM É LINDO
Fabrício Carpinejar




Minha casa é estranhamente regulada. Quando uma lâmpada queima, as outras vão junto. É um boicote que aumenta em minutos para testar a paciência. O gás da cozinha falta bem no momento da janta, e logo de madrugada, com o objetivo de me constranger ao telefone com uma lista infindável de entregadores. Se o computador estraga, o chuveiro também e o microondas sofre problemas de circuito. Confio que os aparelhos se imitam e conversam entre si. Devem reivindicar melhores condições de trabalho e uso, cobrar insalubridade, ou estão cansados das extensões e da sobrecarga indevidas. O certo é que minha casa é grevista. Insurgente. Nunca acontece de algo quebrar isoladamente.
Cheguei a minha residência depois de uma série de viagens. E mal acendi a luz, puf, puf, puf. Meu dedo estalou em cada interruptor. Teve até choque. Foi patético, para não dizer desanimador. Corredores mexendo as sombras, as paredes escorrendo a cegueira.
Mas, um pouco antes de explodirem, as lâmpadas aumentaram sua fosforescência. Puxaram todo o resto de força para refulgirem a extinção. Estenderam seus aros como nunca antes, com a potência de um refletor.
O mesmo ocorreu com o gás de cozinha, a chama das bocas subiu com perigosa curiosidade. Poderia ouvir o fogo gemer. Ele escurecia as bordas das panelas com sua assinatura. Quase formava os dedos de uma mão.
Conclui que o fim é lindo.
Assim como as luzes da casa e do fogão, o amor perto do desastre não se economiza. Não mais se contém. É desesperadamente transparente.
Um casal diante do fim terá a grande noite de sua vida por não prever uma próxima. Sairá do esconderijo porque não se vê mais seguro. Mostrará do que é capaz. Queimará o que guardou, não fará mais nenhum jogo, esquecerá a sedução e os conselhos dos amigos. Mais intensidade do que intenção.
É o escândalo da verdade. Tímidos se transformam em terroristas, calmos ficam enervados, pacientes se portam como histéricos. Por um instante, não há medo de fazer as propostas mais desvairadas, confessar palavras reprimidas, estender os olhos como um lençol limpo.
O fim é lindo. Do crepúsculo, de uma vela, de uma chuva. O fim é esperançoso, exigente. Pancadas de beleza. O som e o sol pulam como um suicida ao avesso para dentro da vida.

O poema acima foi extraído do livro "Canalha!", Ed. Bertrand Brasil - Rio de Janeiro, 2008, pág. 314.
PROJETO RELEITURA  

EVANDRO AFFONSO FERREIRA EM DOIS MINICONTOS

DOIS MINICONTOS

Evandro Affonso Ferreira

TaediumVitae



Desempregado, time caiu pra terceira divisão, artrite cada vez pior, senhorio no encalço, dor intermitente no peito, geladeira vazia, mulher com caroço esquisito no seio esquerdo, filho drogado, xi, mais essa, válvula da descarga quebrou.


Suspicaz

Você anda muito desconfiante, querida, muito desconfiante, sinto isso no fundo da alma, de mais a mais é preciso dizer que não existe homem em tais condições inteiramente fiel, não existe, nem mesmo Diógenes com sua lâmpada conseguiria encontrá-lo em plena luz do dia, de modo que você precisa acabar de vez com isso, querida, do contrário, não lhe trarei outras flores no próximo finados.

CARLOS NEJAR, POETA, FICCIONISTA, CRÍTICO E TRADUTOR

O HOMEM E AS COISAS
Carlos Nejar


à nossa vestidura;
na máscara que somos
as coisas nos conjuram.

Por que não escutá-las,
tão sáfaras e puras,
como flores ou larvas,
estranhas criaturas?

Por que desprezá-las
no sopro que as transmuda
com os olhos de favas,
fechados na espessura?

Por que não escutá-las
na linguagem mais dura,
comprimidas as asas
na testa que as vincula?

Despimos a armadura
e a viseira diurna;
a linguagem resvala
onde as coisas se apuram.

Recônditas e escravas
na cava da palavra,
são fiandeiras escuras
ou áspides sequiosas.

 
As coisas não se submetem
à nossa vestidura.


Poema extraído do livro “Obra poética I”, Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 1980, pág. 329

PROJETO RELEITURA

sábado

ALICE RUIZ - DRUMUNDANA

DRUMUNDANA
Alice Ruiz


e agora maria?


o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria


Nota: Paródia do poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade.
O poema acima foi extraído do livro Navalhanaliga, Editora ZAP – Curitiba, 1980.

PROJETO RELEITURA

"O DOIDO DA GARRAFA" POR ADRIANA FALCÃO

O HOMEM QUE SÓ TINHA CERTEZAS
Adriana Falcão




Nem o homem feliz de Maiakovsky nem o homem liberto de Paulo Mendes Campos, resolvi imaginar outra improbabilidade. Digamos que aparecesse agora, justo aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, mais exatamente, bem aí na sua frente, um homem que só tivesse certezas.
O homem que só tinha certezas quase nunca usava ponto de interrogação, e em seu vocabulário não constavam as expressões: talvez, quiçá, quem sabe, porventura.
Parece que foi de nascença. Ele já teria vindo ao mundo assim, com todas as certezas junto, pulou a fase dos por quês e nunca soube o que era curiosidade na vida. Na escola, era uma sensação. Mas não ligava muito pra isso não. E cresceu achando muito natural viver derramando afirmações pela boca. Tinha resposta pra tudo, o homem que só tinha certezas, mas o maior orgulho do homem eram as certezas mais duvidosas que ele tinha. A certeza de que o mais fraco ia vencer, de que as coisas iam melhorar, de que o desenganado ainda teria muitos anos pela frente.
A notícia espalhou-se rapidamente. Como ele vivia no meio de pessoas, e pessoas vivem cheias de dúvidas, logo começaram a pedir sua opinião para os mais diversos assuntos, os triviais e os de grande importância, e ele, certo de que podia viver muito bem de suas certezas, virou um consultor. Pendurou em sua porta uma placa onde estava escrito "Consultor de tudo" e o negócio foi crescendo aos pouquinhos. Devido ao boca-a-boca favorável de clientes e a um único anúncio no rádio, passou a atender, sem nenhum exagero, milhares de pessoas por dia, até que limitou o número de consultas diárias para quatrocentos e oitenta, um minuto e meio por pessoa, o que era mais do que suficiente para uma resposta certa desde que a pergunta não fosse muito longa.
Chegava gente do país inteiro e depois de outros continentes, pessoas comuns, pessoas ilustres, todas elas indecisas, mas cada pessoa só tinha direito a uma pergunta por consulta, o que as deixava mais indecisas ainda. Certa vez uma moça chegou na dúvida se devia perguntar primeiro sobre o amor ou o trabalho, no que o homem respondeu, sobre o amor, é claro, senão você não vai conseguir trabalhar direito, e deu por encerrada a consulta. O homem que só tinha certezas aconselhou um garoto tímido a tomar quatro cervejas, encorajou um político receoso a aprovar um projeto esquisitíssimo que se destinava a melhorar a vida dos homens, avisou a uma senhora preocupada com os anos que no caso dela nada melhor do que beijos na boca, desentorpeceu um rapaz doente de amor por uma mulher que gostava de outro, convenceu o ministro da fazenda de que ou o dinheiro era pouco, ou eram muitos os homens, ou ele estava louco, ou alguém tinha se enganado nas contas.
Não demorou muito para se tornar capa de todas as revistas e personagem assíduo dos programas de TV. Para cada pergunta havia uma só resposta certa e era essa que ele dava, invariavelmente, exterminando aos pouquinhos todas as dúvidas que existiam, até que só restou uma dúvida no mundo: será que ele não vai errar nunca? Mas ele nunca errava, e já nem havia mais o que errar, uma vez que não havia mais dúvidas.
Num mundo que só tinha certezas, o homem que só tinha certezas virou apenas mais um homem no mundo. Melhor assim, ele pensava, ou melhor, tinha certeza.
Um dia aconteceu um imprevisto, e o homem que só tinha certezas, quem diria, acordou apaixonado. Para se assegurar de que aquela era a mulher certa para ele, formulou cento e vinte perguntas, que ela respondeu sem vacilar, mandou fazer mapas do céu, exames de sangue, contagem de triglicerídeos, planilhas complicadíssimas e finalmente apresentou a moça à sua mãe e ao seu cachorro. Os dois se amaram noites adentro, foram a Barcelona, tiraram fotos juntos, compraram álbuns, porta-retratos, garfos, facas, um escorredor de pratos, tiveram filhos e tal, e, desde então, por alguma razão desconhecida, o homem que só tinha certezas foi perdendo todas elas, uma por uma. No início ainda tentou disfarçar, por via das dúvidas, quem sabe era um mal passageiro? Mas as dúvidas multiplicavam-se como praga (dúvidas se multiplicam?), espalharam-se pelo mundo, e agora, meu Deus? Deus existe? Existe sim. Ou será que não? Ele não estava bem certo.

O texto acima foi extraído do livro "O doido da garrafa", Editora Planeta do Brasil – São Paulo, 2003, pág. 75.

Projeto Releitura

POETA AUGUSTO DE CAMPOS - HUMANO (2004)


Poeta Augusto de Campos


HUMANO

quinta-feira

A BIBLIOTECA DE DEUS - ANTONIO CARLOS VILLAÇA

QUANDO EU CHEGAR AO CÉU...
Antonio Carlos Villaça




Quando eu chegar ao Céu, de manhã, de tarde ou de noite, não sei ainda, pedirei para ir à biblioteca de Deus, onde curiosamente bisbilhotarei — com respeito — algumas obras. Quero reler a Invenção de Orfeu, de nosso Jorge de Lima, sofredor, telúrico e místico, homem bom, cirenaico, assim lhe chamou Rachel de Queiróz, quando ele morreu, novembro, 15, do ano de 1953.
E pedirei, sim, para conversar com Manu, Manuel Bandeira, que se chamava Neném. Matarei saudades do dentuço Manuel, que foi o melhor ser humano que conheci, neste mundo. E gostaria de conhecer Chiquita do Rio Negro, que recusou casar se com Ataulfo Nápoles de Paiva, conviva do baile da ilha Fiscal. Escrevi sobre Chiquita. Li a sua biografia, escrita por Garrigou-Lagrange.
Meu Deus, convocaria Jaime Ovalle, o tio Nhonhô, que morreu com a idade de Jorge de Lima. Ali, na biblioteca do Céu, conheceria o estupendo Ovalle, o do Azulão, o bêbedo místico, o amigo de Manuel, íntimo de Londres e de Nova York.
Por fim, suplicaria para falar com João Guimarães Rosa, poliglota, com quem tão poucas vezes falei. E evocaria a posse do seu sucessor, na Casa de Machado. Esqueci-me completamente dessa posse, ai de mim.
E fui. Lá estava eu, 1968. Um ano depois da morte de Rosa. Mário Palmério falou sobre ele, como seu herdeiro. E gostei tanto do discurso, equilibrado, lúcido, original. Se me lembro. Foi procurar cartas íntimas de Rosa para grande amigo, médico e fazendeiro em Minas, Moreira Barbosa. Cartas de outrora. Deliciosas, fraternais, confiantes, de pura entrega. Reveladoras do ser complexíssimo, fechado, carente, que gostava de disfarçar, despistar, ir e vir, comensal do mistério. Saudarei a uns e outros na largueza dadivosa do Céu, turbilhão de amor, como dizia o insaciável Léon Bloy.

Texto extraído do livro “Os saltimbancos da Porciúncula”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1996, pág. 73.

Projeto Releitura

segunda-feira

ESTÓRIAS DE QUEM GOSTA DE ENSINAR - RUBEM ALVES

URUBUS E SABIÁS
Rubem Alves


"Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam... Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam de Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas para os sabiás... Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa , e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.
— Onde estão os documentos dos seus concursos? E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente...
— Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.
E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás...

MORAL: Em terra de urubus diplomados não se houve canto de sabiá."

O texto acima foi extraído do livro "Estórias de quem gosta de ensinar — O fim dos Vestibulares", editora Ars Poetica — São Paulo, 1995, pág. 81.

Projeto Releitura

HELIO PELLEGRINO HOMENAGEIA AMIGO

MENSAGENS A FERNANDO SABINO
Hélio Pellegrino


Na juventude, já grande amigo do escritor Fernando Sabino, Hélio Pellegrino lhe escreveu a seguinte mensagem:


"O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo em sua liberrérima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio-dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece seu nome."
Muitos anos depois, quando completava 60 anos, Hélio reformulou o que havia escrito para Sabino, com muito humor:
"Quando você faz 20 anos está de manhã olhando o sol do meio dia. Aos 60 são seis e meia da tarde e você olha a boca da noite. Mas a noite também tem seus direitos. Esses 60 anos valeram a pena. Investi na amizade, no capital erótico, e não me arrependo. A salvação está em você se dar, se aplicar aos outros. A única coisa não perdoável é não fazer. É preciso vencer esse encaramujamento narcísico, essa tendência à uteração, ao suicídio. Ser curioso. Você só se conhece conhecendo o mundo. Somos um fio nesse imenso tapete cósmico. Mas haja saco!"


Os textos acima foram extraídos do livro "Hélio Pellegrino - A paixão indignada", da coleção "Perfis do Rio", Relume-Dumará / Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1998, pág. 11 e seguintes.

FERNANDO MORAIS NA ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS



Fernando Morais especializou-se na arte de contar as histórias escondidas na história oficial. Partindo dos vários anos de trabalho como jornalista, Morais descobriu que as versões públicas dos fatos por vezes ocultam verdadeiros dramas que em nada ficam devedores à ficção, ou melhor, que justamente por serem reais, por terem de fato ocorrido no mundo real com pessoas reais, são ainda mais pungentes. Perfeccionista, o autor só começa a redigir sua história depois de recolher, como todo bom repórter, milhares de anotações, entrevistas, fotos e investigações de toda ordem. Como manda a lei do jornalismo, todas as informações têm de ser checadas e confirmadas. A partir daí, aquieta-se o jornalista e nasce o escritor obsessivo por seu texto, que dá a todos os dados coletados a costura de um romance, onde se apresentam as características da grande ficção: a coragem, a cobiça, a sordidez, o idealismo etc., ou seja, tudo o que dá uma dimensão humana ao texto, sem que, no entanto, nenhum fato relatado tenha de se afastar do que realmente ocorreu.



obras


Primeira Página (1982)
A Ilha (1983)
Olga (1985)
Chatô: o Rei do Brasil (1999)
Corações Sujos (2000)

terça-feira

AMAR É UM ATO DE CORAGEM - PAULO FREIRE

Verdades da Profissão de Professor





Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho.

A data é um convite para que todos, pais, alunos, sociedade, repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois com elas demonstramos o compromisso com a educação que queremos. Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias” e não apenas “galinhas”. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.


Paulo Reglus Neves Freire (1921 - 1997), foi um educador brasileiro