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Richard Clayderman - Matrimonio De Amor .mp3
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terça-feira

O AMOR PELOS LIVROS

CAMINHA, CORNO
Charles Kiefer


"Contei e recontei a história tantas vezes que já nem sei mais o que é memória, o que é invenção. (A velha enfermeira, cega e meio caduca, com quem trabalhei durante décadas, sequer reconheceu minha voz. É isto, então, o que nos tornamos? Um saco desconjuntado de carnes moles, um conjunto de córneas vazias, uma boca gretada?) Lembro, sim, do médico que entrou no Hospital de Clínicas com um mendigo nos braços. Não fosse a ação rápida do doutor Nelson, o homem teria morrido. Não, dos detalhes não. Não sei de que cor eram os seus olhos, o tempo deixou as coisas meio nebulosas. Castanhos? Então, o senhor o conheceu? Ah, viu fotos, no hospital. Agora, minhas lembranças mais freqüentes são as de infância, e não desse período intermediário, os anos que passei metida num avental azul, correndo de um quarto ao outro do hospital, injetando morfina, trocando gaze, fechando, sobre olhos mortos, pálpebras espetadas. (Solitários são assim, quando encontram alguém disponível, desfiam o rosário todo. Mas a voz da velha ainda é agradável e melodiosa, e faz-me recordar as intermináveis noites de plantão, quando comecei a namorar a Júlia. No final da Residência, trocamos as incômodas macas de ambulatório pela cama sólida do casamento.) Escritores, como o senhor, além de não temer os clichês — que, afinal, o que seria da literatura, e da vida, sem os clichês? —, deviam passar os finais-de-semana em salas de emergência, para conhecer sangue, osso triturado, corte de faca, furo de bala. Flaubert, para melhor descrever os tormentos de Ema, tomou, ele próprio, arsênico. Espero que o seu interesse por mendigos passe, ao menos, pela vivência de uma ou duas noites ao relento, nos altos do inverno, sob a marquise de uma calçada. (Mais que escritor, sou médico. E como Pedro Páramo, personagem de Rulfo, só estou querendo saber quem foi meu pai. Não, não é só isso. A traição de Júlia, agora que eu supunha sua carne apaziguada, os e-mails que encontrei em seu computador, trouxeram até aqui.) Sim, o senhor tem razão, viver é recordar. Sem memória, não somos nada. O doutor Nelson exigiu que fizéssemos a higiene no paciente com o mesmo rigor de sempre. "Não é por ser mendigo que será tratado como cidadão de segunda classe", ele disse. "E quem pagará a conta?", aventurou-se a enfermeira-chefe. "Eu", disse o médico. Toda a implicância que eu nutria pelo jovem e orgulhoso doutor desfez-se naquele instante. Enfim, estávamos diante de um homem justo e sensível. (Não foi fácil localizar essa velha. Na Rua Felipe Camarão, onde residiu por décadas, disseram-me que talvez tivesse retornado a sua terra natal. Em Santa Cruz do Sul, encontrei parentes que me forneceram o endereço na capital, no Morro da Cruz. Meses de busca, e aqui estamos, um diante do outro. Na favela, todos a conhecem. Apesar da idade, presta auxílio aos necessitados. Enxerga pouco, mas tem boa mão para arrumar ossos. Na medida em que sua aposentadoria perdia poder aquisitivo, afastava-se do centro da cidade, e das livrarias. Acabou neste barraco imundo. Muitas vezes, no hospital, presenteei-a com livros. Era a única, na Zona 13, que aproveitava os raros instantes de folga para ler. Já então eu tinha pretensões literárias. A simples visão de um ser humano agarrado a um romance comovia-me. Prometi trazer-lhe algumas novidades, o último Saramago, as memórias de Garcia Márquez.) Não podes imaginar o fedor que exalava. Tinha o corpo coberto de escarras, os cabelos infestados de piolhos. Depois do banho, fiz-lhe a barba. Pelos dentes ainda sadios, percebi que não vivia há muito na rua. A recuperação foi rápida, era um velho forte. Dias depois, quando fui aplicar-lhe um sedativo, segurou a minha mão. Quero te contar um segredo. Não posso morrer com isso. Ali, naquela hora, imaginou o pior. Mas recuperou-se completamente, e retornou à rua. Nunca mais o vi. Sentei-me a seu lado e ouvi-o com atenção. Sempre fui delicada com os doentes. A gente nunca sabe o que o destino nos reserva, não é mesmo? (Muitas vezes eu o via, nas calçadas, arrastando as suas bugigangas, dormitando nos parques, acompanhado de um cachorro sarnento. Jamais me reaproximei. Salvei-o do infarto, era o suficiente. Fiz o meu trabalho, apenas isso. Respeitei a opção radical que fizera. "Enlouqueceu", dizia minha mãe, encerrando o assunto. Se aos lençóis quentes um homem prefere a escarcha da rua, é problema seu. Não seria eu, que dele tantas vezes ouvi, em seu inglês britânico, Live and let live, que o desrespeitaria. Dei-me apenas o direito de não comunicar a ninguém o grau de nossas relações. Quando foi necessário, salvei-o. Teria morrido na calçada, diante do hospital, sem a cirurgia. Depois, quando me formei, fui trabalhar no interior. Nunca mais o vi. Júlia era, então, apaixonada por mim.) Ele não devia ter fuçado nas coisas dela. Todo casal precisa manter espaços invioláveis. Se Carlos Bovary não tivesse aberto o compartimento secreto da escrivaninha de Ema, teria morrido feliz. Acho que para um homem é ainda mais difícil. Deles, até as mulheres exigem que sejam machos. Não somos as primeiras a desdenhar quando descobrimos que o vizinho é corno e não faz nada? De vez em quando, a esposa dormia na casa de uma amiga. No meio da noite, ele precisou de alguma coisa, era muito desorganizado. Resolveu telefonar. Até aquele instante não desconfiara de nada. O embaraço da outra, a explicação estapafúrdia — que Maurem saíra para comprar cigarros, mas a esposa não fumava —, fizeram soar o alarme. Tinha a noite inteira para procurar. Localizou as cartas. (Envergonhado, mantive em segredo meu parentesco com o mendigo. Quando essa mesma enfermeira, que agora mastiga a boca sem dentes, observou a coincidência de nomes no prontuário, desconversei.) Eu sabia, ele disse, agarrando-me a mão com firmeza. No instante em que apalpei o revólver na cintura, soube que não devia matá-los. Ouvi os gemidos de Maurem, atrás da porta, e compreendi que o que ela sentia era mais que paixão. Meses depois, quando anunciou que estava grávida, cheguei a sentir uma certa alegria, embora tivesse certeza de que o filho não era meu. O menino nasceu saudável, e de olho azul. Um professor de biologia, como eu, que ensinava a Teoria de Mendel a alunos sonolentos, não poderia enganar-se. Romeu comparou os olhos de Julieta a nozes-moscadas. Eu, depois, para fazê-la sofrer, comparava os olhos negros de minha mulher a suculentas ervilhas", disse-me o mendigo. Criei o menino. Sabia que um dia ele me salvaria. Não, ele não citou nenhum nome. Médico ou dentista, não tenho certeza. No início da gravidez, para protegê-la de assalto, de estupro, ele a levava até a porta do prédio. Enquanto ela se divertia, no consultório, ele fumava, na rua. Ao saber de seu estado, o amante quis que abortasse. Ela abriu a janela e apontou-lhe o marido, escorado numa árvore, no outro lado da rua. Ele vai nos matar, desesperou-se o homem. É manso, ela deve ter dito para acalmá-lo. O médico, ou dentista, nunca mais a recebeu. (Caminha, corno, essas ruas são ideais para um mergulho assim, ao fundo, ao que não se expressa ao melhor amigo, que não emerge nem mesmo do sono. Caminha sem pressa, há sempre uma janela interessante, um fundo de corredor inquieto, uma calçada de lajotas portuguesas, uma árvore mais velha, doente, de casca rugosa e remelenta para ser admirada. Caminha, corno, e esquece o calor infernal de março. Não podes negar, ele é bonito, assim, semi-nu nas fotos, bermuda gêmea da tua, presente de aniversário, para ele também, ora, então te pensaste exclusivo e único?, jovem, forte, tórax volumoso, braços que a abraçam, sonham-se, escrevem-se, tratam-se com um carinho que desconhecias nela, a tão dura companheira, econômica no afeto, no sexo, no sorriso, caminha e aquece o teu rancor, o teu ódio, a tua mágoa, toma coragem de encontrá-los, combinaram por escrito, há uma rua na cidade, um sofá estratégico, uma amiga alcoviteira, gemidos ainda não, gemidos só mais tarde. Caminha, corno, e avança por essas ruas com o frio do revólver na ilharga —) Sim, foi o que ele disse, que os gemidos dela, a intensidade deles, o tom, a freqüência, o espanto de descobri-la capaz de amar com fúria, fizeram-no mudar de idéia. Não, eu também não compreendo. A imagem dele, transtornado, decidido a matá-los, caminhando furiosamente por alamedas arborizadas, subindo os degraus de três em três, não teve paciência de esperar o elevador, nunca me saiu da cabeça, não, nunca me saiu da cabeça a imagem dele, escorado na porta e ouvindo os gemidos, e sorrindo."

Fonte: PROJETO RELEITURA

sábado

O AMOR PELOS LIVROS


HERBERTO SALES é dos mais sérios escritores da língua portugêsa. Não é um “best-seller”, não se trata de um romancista popularesco, voltado exclusivamente para os sucessos de livraria e para a consagração imediata. Êle prefere trabalhar com seriedade e manejar com honestidade e perícia e riqueza vocabular do idioma que domina. Sua linguaguem, porém, é acessível a todos: a nós, brasileiros, e a qualquer povo. “Cascalho”, um dos seus mais importantes trabalhos literários, acaba de ser lançado em língua tcheca, numa edição que prima pelo extraordinário bom gôsto e concepção de arte gráfica. Jornalista profissional, dirige a revista “A Cigarra” e a Editôra O CRUZEIRO. É uma extraordinária figura humana, com idéias próprias e inéditas sôbre as soluções dos problemas nacionais - desde o problema do negro à solução que defende para o turismo e as praias da Guanabara, que, segundo êle, devem funcionar com entrada paga e sessões de duas horas. É um homem metódico, prêso a padrões nada baianos, pois se assemelham aos melhores padrões saxônicos. É um saxônico que nos sabe fazer rir a sério e que, quando menos se espera, surpreende-nos com um formidável romance destinado à galeria dos clássicos.

CARLOS HEITOR CONY foi seminarista e virou ateísta. Não faz propaganda do seu ateísmo, que é puramente amadorístico. Mas só o ateísmo é nêle amadorístico, pois Cony é um competente profissional do jornalismo diário, da crônica e da literatura. Seus livros já eram consagrados entre os críticos e os escritores, quando o amável cronista do segundo caderno do “Correio da Manhã” transformou-se ràpidamente num terrível panfletário, num censor implacável da Revolução de Abril e de seus principais comandantes civis e militares. Estêve e ainda está ameaçado de prisão e seqüestro. Processado pelo Ministro da Guerra, ninguém pode negar a êsse excelente escritor e jornalista a coragem de dizer o que pensa e, principalmente, no momento em que poucos ousavam fazê-lo. Foi durante os primeiros meses do nôvo Govêrno o conduto por onde respiravam, alegremente, os partidários do Govêrno deposto e os que não concordavam com a “linha dura” militar tenazmente perseguida por Cony. A alta qualidade literária das crônicas de Cony e a sua ousadia fizeram-no o intérprete legítimo, na imprensa diária, dos sentimentos e ressentimentos, da tristeza e da ânsia.
E seus livros viraram "best-sellers".



Crédito: Memória Viva

terça-feira

O AMOR PELOS LIVROS

O ELÉTRICO
Santos Fernando





Com a mão de fora, o velhinho apanhava as folhas das árvores. Via nas faixas de rodagem camufladas com as folhas das árvores e dava grandes gargalhadas, como se o outono fosse dele. Sentados no mesmo banco, o rapaz e o velhinho eram os únicos passageiros do carro elétrico. Todos os outros bancos, incluindo os laterais, e ambas as plataformas, estavam ocupados por hirtos e silenciosos ramos de flores.
— O senhor tem sorte — disse o rapaz ao velhinho. — Conseguiu o melhor lugar. Um dia, quando casar, como afirmou Saroyan, nunca mais apanhará o lugar da janela.
O velhinho piscou um olho malicioso, de bom vidro alemão de antes do III Reich.
— Hei de manter-me solteiro para aproveitar e gozar uma senilidade tranqüila. Não me quero privar nem das janelas, nem do amor.
— Viaja há muito tempo neste carro?
— Oh, sim. Desde o tempo em que os "elétricos" falavam.
As ruas solitárias e envolvidas por um rastro de fumo azulado tinham amanhecido cobertas da minúscula flor do miosótis. Trepadeiras gigantes revestiam os prédios. Bisbilhoteiros cachos de buganvílias debruçavam-se das varandas. Nas paragens, nervosos girassóis e rosas petulantes aguardavam em bicha o seu transporte popular. E as folhas iam caindo com tal precisão que formavam grandes livros alinhados pelas avenidas. Às vezes, um sopro de vento vindo das montanhas virava-lhes as páginas vegetais até aos capítulos mais empolgantes. O mês de novembro escorria como azeite com um grau de acidez. O sol, aquecido em lume brando, empapava a cidade.
— E que fazia o senhor antigamente, antes de viajar de carro elétrico? — perguntou o rapaz.
Tinham chegado à praça da Tulipa Negra. A estátua da tulipa erguia-se majestosa e isolada no centro da rotunda. Nas esplanadas, aproveitando o verão de São Martinho, os goivos e os gerânios que faziam parte da tripulação de um barco surto no rio, os malvaíscos da Alfândega, os cóleos da estiva e as margaridas dos escritórios das redondezas, aproveitando a hora do almoço, bebiam grandes copos de água. Dois amores-perfeitos beijavam-se junto à estátua, enquanto pequenos narcisos, de uma escola primária, ouviam atentamente as explicações de uma jovem papoila aberta em vermelho à sua erudição.
— Antes de viajar de carro elétrico — respondeu, por fim, o velhinho — era industrial. Fabricava bolas de sabão. Uma ciência que vinha então de pais para filhos. Aparentemente fácil, como transformar o ouro em cobre. Mergulha-se um canudo na água do sabão e depois soprava-se. Assim... — o velhinho encheu as bochechas. — Da minha fábrica saíam por dia, para os cincos cantos do mundo, as mais vistosas bolas de sabão produzidas no país. O céu da cidade era um deslumbramento de balões coloridos, transparentes, diáfanos. Enquanto espetavam o nariz no ar, os homens não metiam o nariz nos problemas dos outros. E as mulheres tinham uns olhos mais belos por os abrirem desmedidamente à fantasia policrômica do espaço. Durante à noite havia milhares de luas que se precipitavam com suaves estampidos pelas chaminés das casas e vinhas aureolar nos jardins a cabeça dos notívagos, dos vagabundos e dos namorados.
— E ganhava muito dinheiro com isso, senhor?
— Oh, não — suspirou o velhinho. — Os poetas não ganham dinheiro. Um dia tive que fechar a fábrica. Os poetas não ganham dinheiro. Já nem me fiavam o sabão. Tentei ainda, numa água furtada, produzir bolas mais econômicas. Mas não há ersatz (1) para a beleza. As bolas saiam defeituosas; bicudas, quadradas, pálidas, efêmeras. Subiam apenas à altura da cabeça dos homens, excessivamente baixo. As bolas já não tinham vida, nem transportavam no colorido a mensagem de uma cidade de meninos. Nem saltitavam nos telhados, nem entravam pelas janelas, nem rebolavam nas camas, nos tapetes de relva, no empedrado, nos caracóis dos petizes. E a multidão ria das minhas bolas. E eu pensei que a cidade já não merecia as minhas bolas de sabão. Os poetas não ganham dinheiro.
O "elétrico" deteve-se subitamente. Cóleos, begônias e lobélias tombaram para diante.
— Mas ainda tenho uma das primeiras, das autênticas.
O rapaz viu o velhinho tirar do bolso um frasco e um tubo de plástico, e soprar através do tubo.
Uma rutilante bola de sabão ficou momentaneamente suspensa no ar. Mais pequena, uma lágrima do velhinho tombou do olho de vidro alemão de antes do III Reich.
Então o rapaz disse, em voz baixa:
— Bem, avô, é altura de acabarmos com esta farsa.
E com um movimento, rebentou a bola de sabão. Como se tivesse rebentado um enorme caleidoscópio. A campainha tocou, puxada energicamente pelo condutor.
O velhinho sorriu a sua tristeza murcha e fechou a janela, enregelado. O "elétrico" pôs-se em marcha, as flores desapareceram, e os passageiros, empurrando-se, começaram todos a falar ao mesmo tempo.


O conto acima foi extraído do jornal "O Pasquim", edição nº. 39, de 19 a 25/03/70
PROJETO RELEITURA

domingo

O AMOR PELOS LIVROS

O ANTI-NATAL DE 1951
Carlos Sussekind


No documento emitido pelo Juizado de Menores lê-se o seguinte: "Requisito-vos" (ao agente da Estação D. Pedro II, no Rio de Janeiro) "duas passagens de ida e volta em 1ª classe dessa estação até a Estação Presidente Franklin Roosevelt, em São Paulo, para o Dr. Lourenço Laurentis, Curador de Menores do Distrito Federal, e um menor, que viajam a serviço deste Juízo".
Muito atencioso, o agente-ajudante que me atende na Central. Não me faz esperar. Mas, depois de carimbar a requisição, objeta-me que só amanhã poderá dar as passagens, pois o regulamento ferroviário exige antecedência de três dias, não de quatro. Adiantei-me, pois. Evito discutir, para que não surjam obstáculos futuros.
A idéia de fazer essa viagem na companhia unicamente de meu filho, tendo eu me comprometido a não desviá-lo de suas leituras nem durante o percurso nem durante o dia inteiro (25 de dezembro) que passaremos em São Paulo, corresponde satisfatoriamente à nossa concepção (minha e dele) do anti-Natal. Atravessaremos a véspera natalina dentro do trem, sem desejar mal nem bem a quem quer que seja, ele lendo, eu nos meus devaneios. Dia 26 estaremos de volta. Não daremos nem receberemos presentes. O único presente tolerado é essa viagem de graça, que, a bem dizer, não é um presente, é um direito que me dá o cargo de Curador de menores. Doutor Lourenço e o filósofo Lourencinho estarão na deles, numa boa.
Verifico que, se fosse de noturno, com leito de luxo, no "Santa Cruz", em cabine individual de dois passageiros, a viagem de ida e volta custaria ao Estado o triplo do preço desse trajeto feito em poltrona comum. Sairíamos do Rio às 22:30 do dia 24 e chegaríamos a São Paulo às 9 da manhã de 25. Magnífico, sem dúvida. Mas repugna à minha consciência abusar da requisição, proporcionando-nos esse luxo nababesco que ficaria documentado para sempre. Basta a fraude de dizer que eu e o Lourencinho vamos "a serviço do Juízo".
Tentarei, em todo caso, combinar ida em noturno e volta em diurno, numa última homenagem ao meu escrúpulo. O abuso já não será tanto, nem deixarei de proporcionar a meu filho uma viagem repousada. Se tiver de ir e vir de diurno — o que seria a hipótese mais econômica —, a consciência ficará mais leve, mas não sei como se comportariam o fígado dele e os meus rins. Enfim, veremos.
Precipitado no meu otimismo, faço, depois do jantar, uma descrição para a família toda reunida de como é o trem encantado em que viajaremos os dois. Vagões de aço inoxidável. As poltronas forradas de camurça. Giratórias. Ninguém em pé, todos acomodados, de fisionomias risonhas. A composição move-se deslizando, sem nenhuma trepidação, nenhum ruído, não entra pó, o ar que circula é como o do cinema Metro, trem de cinema, primeiro você pensa que é por causa do dia chuvoso, mas deixe chegar uma estação, abrir-se a porta e verá que é como se se abrisse uma fornalha. É a temperatura que faz lá fora. Dentro do carro, no entanto, a mesma inalterável e suavíssima ambiência! Moças e rapazes falam-se aos beijos. Quando não se beijam, cantam. Um sonho!
Diante da minha expansão, Lourencinho tem o comentário desalentador de que só vai a São Paulo para me acompanhar, e que não sabe, afinal, se isso de anti-Natal funcionará mesmo. Se nem o anti-Natal o seduz, meu Deus, que se pode esperar desse rapaz? Deve ser a perspectiva da viagem fatigante. Mas não é só isso, não. Quando lhe falo no que faremos para conhecer a cidade, onde não piso desde 1920 — há mais de 30 anos, portanto —, adverte logo: — Desista disso de querer mostrar parques e avenidas e monumentos e pessoas! Iremos cada qual para seu lado.
Vou buscar as passagens na estação. Outro subagente. Atencioso, como o de ontem. Entretanto, fez-me esperar 25 minutos para verificar se a assinatura era mesmo do juiz de menores, um desaforo. Conclui dizendo, amabilíssimo, que só amanhã, 22, poderá me dar os bilhetes, pois o regulamento fala em "três dias antes da viagem": sendo esta no dia 24, os três dias contam-se 22, 23 e 24. Considera 24 como sendo ao mesmo tempo o dia da viagem e a véspera! Evito discutir etc.
Risadas do homenzinho quando lhe falo em "noturno" e "Santa Cruz". A requisição menciona apenas "passagem de 1ª". Sem especificar "noturno", só se pode subentender "diurno". A fim de não dificultar a interpretação favorável em São Paulo, para a volta, escreve "tarifa noturna", o que permitirá que eu cogite de noturno de lá para cá. Mas, noturno em "trem de madeira", sem leito de qualquer espécie. Nem, sequer, poltrona. A poltrona, mesmo para o diurno, tem de ser paga à parte. São 60 para a ida e outros 60 para a volta. Quer dizer que a requisição do Juízo de Menores só me deu o direito de andar dentro do trem até São Paulo e de São Paulo aqui. Custará isso ao Estado 568 cruzeiros redondos. Acho infinita graça, agora, na minha ingenuidade de falar em "escrúpulo" de pleitear coisa melhor. . . O Governo sabe com quem lida. As bandalheiras não se fazem assim, com recibo. Elas se aninham noutras dobras.
Volto no dia seguinte, o guichê das passagens está se abrindo, sou o primeiro passageiro atendido. Entretanto, não posso ter os assentos que peço, na sombra. "Nós aqui desconhecemos os lugares que são no sol e os que ficam na sombra. As ordens são para destacá-los automaticamente, sem intervenção de quem quer que seja".Conformo-me. Ele lê a requisição. O outro funcionário, ao datá-la, pôs certo 21.12.1951; mas, quando se referiu ao dia da viagem, escreveu, sabe-se lá por que, 24.12.1952, equívoco palpável, evidente. Mas S. Exa. o bilheteiro do guichê nº 1 acha que deve ser retificado. Atendo-o, ainda nisto. No guichê n° 5 já está outro funcionário, diverso do "amabilíssimo" com quem falei ontem. Objeta-me que a retificação não é da sua competência, e que o funcionário que poderia fazê-la só começará a trabalhar às 4 da tarde. Não posso tolerar semelhante absurdo. Volto então ao agente substituto. Ouve-me em silêncio. Manda chamar o bilheteiro. Fala-lhe. E se volta para mim, austeramente: — O funcionário tem razão. Ele não pode retificar um erro que não cometeu. Mas o senhor, também, não vai pagar pelo que se fez sem sua culpa. Atenda-o, portanto, Sr. Freitas. Se o algarismo puder ser modificado, modifique-o. Se não puder, extraia outro passe.
E dá-me as costas. O algarismo não pôde ser modificado. Depois de ajustar pachorrentamente os carbonos e de "experimentar" noutro papel, de rascunho, Freitas pega solenemente o lápis, calca-o, descobre o carbono e diz:
— Não deu certo. — Espero, pois, 15 minutos para que ele extraia novo passe.
Seria justo que minha odisséia terminasse aí. Mas não terminou. Vou para o bilheteiro do guichê n° 1. Examina os novos passes, pede-me a carteira funcional e me diz secamente: 60 cruzeiros pelas duas poltronas. Dou-lhe o dinheiro, mas pergunto:
— Que é que essas poltronas têm de mais?
Ele não demora na resposta:
— Nada.
— Então por que se paga à parte? Se eu não pagasse, iria em pé?
O homem ajusta os óculos ao nariz, fita-me serenamente, reflete no que vai dizer. Responde-me:
— Iria.
Quer dizer: um funcionário, viajando a serviço do Estado, tendo sua passagem requisitada pelo Juízo de Menores, em nome do Ministro da Justiça, não tem direito sequer a viajar sentado nas 11 horas do percurso.
Mas ainda há mais. Pergunto, delicadamente, ao ditador que tenho pela frente, se as poltronas 37 e 38 do carro "B" ficam, ou não, na sombra. Com uma irritação mal disfarçada em calma "superior", responde-me:
— Meu caro senhor, quer um conselho? Peça a Deus que sejam na sombra, porque só Ele pode decidir.
Ali a justiça divina já está feita de antemão. Qualquer dos lugares é igual nos benefícios e nas desvantagens. Em 11 horas de viagem, de 7:25 às 18:25, quem tiver sol pela manhã não o terá mais à tarde, e quem, pela manhã, gozar da sombra, escaldará com o sol de depois do meio-dia.
Rimo-nos, ambos, para descarregar os nervos, evidentemente tensos, tensíssimos. Desejo-lhe Feliz Natal com toda a sinceridade. Posso respirar, enfim. As providências que tinha de tomar para garantir nosso anti-Natal, meu e do meu filho, já estão tomadas.

sexta-feira

O AMOR PELOS LIVROS

DEFINITIVO
Carlos Drummond de Andrade



Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional...

sábado

O AMOR PELOS LIVROS

BIOGRAFIA DE BARBOSA LIMA SOBRINHO


Quarto ocupante da Cadeira 6, eleito em 28 de abril de 1937, na sucessão de Goulart de Andrade e recebido em 31 de janeiro de 1938 pelo Acadêmico Múcio Leão. Recebeu os Acadêmicos Antônio Carneiro Leão e José Honório Rodrigues.
Barbosa Lima Sobrinho (Alexandre José B. L. S.), advogado, jornalista, ensaísta, historiador, professor e político, nasceu em Recife, PE, em 22 de janeiro de 1897 e faleceu no Rio de Janeiro, aos 103 anos de idade, no dia 16 de julho de 2000.
Filho de Francisco Cintra Lima e de d. Joana de Jesus Cintra Barbosa Lima, estudou o curso primário na Capital Federal, concluindo-o em Recife. Na mesma cidade, iniciou o secundário no Colégio Salesiano, terminando-o no Instituto Ginasial Pernambucano. Em 1913, matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife, onde colou grau de bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais em 1917. Foi adjunto de promotor do Recife, em 1917, e advogado no período imediato ao de sua formatura. Colaborou na imprensa pernambucana, no Diário de Pernambuco, no Jornal Pequeno e, principalmente, no Jornal do Recife, onde escreveu a crônica dos domingos, de outubro de 1919 a abril de 1921. Colaborou ainda na Revista Americana, Revista de Direito, Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, no Correio do Povo, de Porto Alegre, e na Gazeta, de São Paulo.
Mudando-se para o Rio de Janeiro, dedicou-se ao jornalismo. Trabalhou no Jornal do Brasil a partir de abril de 1921, a princípio como noticiarista, mais tarde como redator político e, a partir de 1924, como redator principal. Escreveu, até a data de sua morte, em julho de 2000, um artigo semanal, nesse jornal. Na Associação Brasileira de Imprensa, exerceu a presidência nos períodos de 1926 a 1929; a presidência do Conselho Administrativo de 1974 a 1977; e novamente a presidência em 1978-80 e nos períodos subseqüentes, até o de 1990-92. Foi proclamado Jornalista Emérito pelo Sindicato da categoria de São Paulo.
Eleito deputado federal por Pernambuco para o triênio 1935-37, foi escolhido líder de sua bancada, membro da Comissão de Finanças e relator do Orçamento do Interior e Justiça.
Foi presidente do Instituto do Açúcar e do Álcool, de 1938 a 1945, quando tomou posse da cadeira de deputado federal por Pernambuco, na Assembléia Constituinte de 1946. Na Câmara dos Deputados, em 1946, foi membro da Comissão de Finanças e designado relator do orçamento do Ministério da Guerra. Renunciou à cadeira de deputado em 1948, para assumir, a 14 de fevereiro do mesmo ano, o cargo de governador do Estado de Pernambuco, exercendo o mandato até 31 de janeiro de 1951.
Foi procurador da Prefeitura do Distrito Federal e professor do ensino superior nos cursos de Ciências Sociais e Econômicas. Regeu a cadeira de Política Financeira e, mais tarde, a de História Econômica, na Faculdade de Ciências Econômicas Amaro Cavalcanti, do Estado da Guanabara. Deputado federal por Pernambuco para a legislatura 1959-1963, integrou, nessa Casa do Congresso, a Comissão de Justiça.
Foi sócio benemérito do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Instituto dos Advogados do Rio de Janeiro; benemérito da Associação Brasileira de Imprensa e sócio correspondente do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e do Instituto de Advogados de São Paulo; sócio efetivo da Sociedade de Geografia; sócio honorário do Instituto Histórico de Goiana (PE); presidente de honra do XIV Congresso Nacional de Estudantes; professor honorário da Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife; presidente do Pen Clube do Brasil em 1954; membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa; membro do Instituto de Direito Público e da Fundação Getúlio Vargas.
Recebeu a Medalha Quadragésimo Aniversário da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1981); o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal de Pernambuco e o Prêmio Imprensa e Liberdade, conferido pelo Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade (1984); o Prêmio Governo do Estado do Rio de Janeiro e o título de Cidadão Benemérito da Cidade do Rio de Janeiro (1987); o Prêmio Juca Pato, conferido pela União Brasileira de Escritores; o Prêmio San Tiago Dantas (1989); e a Medalha Tiradentes (1992), conferida pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.
Na Academia Brasileira de Letras, foi secretário-geral em 1952; e presidente em 1953 e 1954; diretor da Revista da Academia em 1955-56, diretor da Biblioteca de 1957 a 1978 e tesoureiro de 1978 a 1993

Fonte: Site da Academia Brasileira de Letras

O AMOR PELOS LIVROS

MICROCONTOS





Bodas de Ouro
Foi só na volta do cemitério, depois de meio século de vida conjugal, que o viúvo percebeu como se cometia um crime perfeito.



(in SALVADOR JANTA NO LAMAS - Editora José Olympio, 1989)



As Três Marias

Com a morte de Socorro, José respirou satisfeito: enfim, poderia casar-se com Prazeres. Com a morte de Prazeres, José respirou satisfeito: enfim, poderia casar-se com Graça. Com a morte de José, Graça respirou satisfeita: José tinha ficado um velho sem graça, sem prazeres, sem socorro.



(in SALVADOR JANTA NO LAMAS - Editora José Olympio, 1989)



Relatividade em nome de Borges

Durante uma das primeiras apresentações da ópera Turandot, ocorreu um fato desconcertante. Quando o povo de Pequim, num coral soberbo, desejou dez mil anos de vida ao Imperador, ele interrompeu o espetáculo e mandou fuzilar todos os componentes do coro: há trezentos e sessenta e quatro dias, o monarca havia completado nove mil, novecentos e noventa e nove anos de idade.



(in O MUSEU DARBOT E OUTROS MISTéRIOS - Leviatã Publicações, 1994)



O Banquete

Foram três mil noites para três mil dores, mas assim que o enterro saiu, ela trancou a porta, assou o robalo e devorou-o entre as liberdades do vinho branco, pois era a melhor maneira de festejar a morte do marido e cicatrizar as feridas.



(in OS BANHEIROS - Editora Codecri, 1979)

Fonte: Escritos pós-utópicos

sexta-feira

O AMOR PELOS LIVROS

PASSAR UMA TARDE EM ITAPUÃ COM VINÍCIUS DE MORAES
Tasso Franco

Como diria o inesquecível poetinha: "É bom... passar uma tarde em Itapuã/ ao sol que arde em Itapuã/ Ouvir o mar de Itapuã/ falar de amor em Itapuã”.
Toquinho e Vinicius produziram um dos mais belos poemas (Tarde em Itapuã) à cidade da Bahia e a um dos seus mais bucólicos bairros, retratando na música todos os encantamentos do lugar: o mar, o bar, a preguiça de sua gente, o arco-íris, o ar, a água de coco, o sol, a pinga, a terra a rodar, o céu, a lua e o amor.
Um poema perfeito, popular, bem ao gosto do poetinha que, na época dessa composição, nos anos 1970, embalado nos braços de Gesse Gessy, uma mulata da terrinha, tomou férias com seu olhar esquecido e tornou-se o divino bardo, o Dante de Itapuã, como gostava de assinar somente na correspondência para os mais íntimos. Hoje pesquisadores de sua obra admitem que do poetinha só restou o eufemismo. Trata-se de um autêntico e valoroso bardo.
Dois anos (1973/74) marcaram a passagem de Vinicius de Moraes em Salvador, nessa época uma cidade com ares de província, período dos anos de chumbo da ditadura militar, de uma Bahia que emergira com força no meio intelectual, herdeira da efervescência cultural proporcionada pelo reitor Edgard Santos que apostou no modelo de superação do atraso baiano com ações diversificadas na Universidade Federal da Bahia, vista por alguns como uma espécie de oficina do diabo.
Vinicius veio para Salvador graças aos encantos da mulata Gesse Gessy e construiu uma casa à beira-mar de Itapuã, projeto de Jamison Pedra e Sílvio Robatto, obra executada a cargo do engenheiro Elisinho Lisboa, pelo mestre de obras Francisco e o carpinteiro Jonas. Segundo o poeta, “uma casa baiana, feita por baianos, para abrigar tua baianice máxima, sonhada desde os idos cariocas”.
Escreveu “A Casa”, um poema concluído em 19 de outubro de 1974, descritivo da construção, das grandes vigas e barrotes de madeira de lei, do amor a Gesse, de sua percepção com as coisas da natureza, o mar, as plantas e as flores gentis, de sua compreensão com a vida simples do lugar, os calções de banho, as dunas e o cheiro do mar, enfim, dedicado à mulata da sua própria pena: “Sim, amada, aí tens a tua casa. Tua, só tua, imensamente tua. Para que nela viva sempre nua/ com teu céu, com teu mar, com tua Lua! E o teu triste e amantíssimo poeta”.
Esse trabalho foi editado pela Macunaíma, em janeiro de 1975, com tiragem reduzidíssima, graças a Fernando da Rocha Peres e Myriam Fraga. Os amigos cotizaram-se em ajuda e em arte: a capa foi produzida por Carlos Bastos e o planejamento gráfico por mestre Calá. Prestou-se uma homenagem aos mestres-de-obra Luís Dias e Pedro Carvalhaes que aqui aportaram na esquadra de Tomé de Souza, em 1549, e foram os primeiros a se dedicarem à arte de construir casas na cidade de Salvador da Bahia.
Nos anos em que Vinicius habitou as terras de Itapuã, antiga fazenda de gado de Garcia D'Ávila, este dito por muitos como filho bastardo de Tomé de Souza, as ruas do bairro, em sua maioria, não dispunham de calçamento e os esgotos corriam a céu aberto em direção ao mar. Para o mar das baleias já cantado pelo mulato Dorival Caymmi, imortalizado na pena de Jorge Amado e gravado na arte de Calasans Neto.
Em novembro de 1973, fez um poema (“Petição ao prefeito”) a Clériston Andrade pedindo-lhe que mandasse calçar a Rua das Amoreiras, onde residia o casal de amigos Calasans Neto e Auta Rosas, ainda hoje sua pousada de lar e local de ateliê de gravuras e trabalho, também pouso quase diário do poetinha em suas andanças pelo que classificava como Principado Livre e Autônomo de Itapuã.
Calasans ilustrou dois dos seus livros — Das baleias e História natural de Pablo Neruda ou a Elegia que veio de longe — e muitas foram as horas de papo e tão diversas as tardes que provou do pirão de Auta, e da rede da varanda do ateliê que utilizava para "sentir preguiça no corpo", tal a expressão que usou na música Tarde em Itapuã. Escreveu duas belíssimas páginas sobre a arte em gravuras das baleias de Calá, a quem, classificou como Príncipe de Itapuã, Duque das Amoreiras, Conde do Abaeté e Barão do Coco Verde.
A presença de Vinicius em Salvador causou muita curiosidade, embora, a rigor, não tenha influenciado o chamado meio intelectual, até por que não veio com essa finalidade. Ao que se sabe, e não tive o privilégio de conviver com o poetinha, aportou em Itapuã para vadiar diante daquele mar que não tem tamanho e embalar seus sonhos de amor nos braços de Gesse Gessy.
E em pesadelos, também próprios dos poetas, citou em “A Casa”: “E ficar pensando/ Que atrás de cada aurora se esconde/ A face ansiosa da Vida e de cada crepúsculo/ A máscara irônica da Morte, ambas à espreita/ Ambas querendo cumprir a qualquer custo/ Os seus fatais desígnios. E depois desses tolos pensamentos/ E de induzir o sono em velhos filmes de televisão, ir deitar-me/ Com o sentimento de fragilidade, da precariedade/ Da inutilidade de tudo... até que uma nova manhã/ Me diga: Não! E então/ Retomar o cotidiano, olhando o mar”.
Vinicius deixou a cidade do Salvador em 1975 já nos braços de um novo amor, a portenha Martinha. Mas isso é outra história que não nos interessa. Pra encerrar, lembro de três pontos de Itapuã, citados pelo poetinha, os quais, para nós outros, mortais e não poetas, freqüentávamos nessa época: a barraca de Pombo, o bar do Galo e o Língua de Prata. Neste último, o poetinha desafiava a diabete e bebericava campari-soda.
Nós outros, portanto, ficávamos a acompanhar a construção da casa de Vinicius, que se tornou uma atração turística após sua conclusão, a habitar nos finais de semana à praia da Rua K, então muito em moda, e também a praia da Placa Ford e a barraca do Perilo. E, de resto, nos finais de tarde, olhando o mar de Itapuã, dançar no bar do Galo, situado na curva da rua, quase em frente ao Língua de Prata, este um restaurante mais sofisticado. No Galo era possível, e isso era o que fazíamos, dançar de sunga com direito a empinar a marinheira. O fotógrafo Xando P. era especialista nessa modalidade.
Que Deus guarde Vinicius de Moraes e Meu, seu cão de estimação, ambos hoje habitantes do mar de Itapuã. O poetinha, entre outras preciosidades, deixou-nos uma das mais belas músicas de nosso cancioneiro popular e também uma frase antológica: "O melhor amigo do homem é o uísque. O cachorro engarrafado”.

O texto acima foi extraído do livro "O trancelim da baiana", Editora Relume Dumará - Rio de Janeiro, 2002, pág. 75.

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quinta-feira

O AMOR PELOS LIVROS

AMOR É AMOR
Plínio Marcos


Mulher gamada é fogo. Elas, quando se vidram e se amarram num homem, são capazes de fazer das tripas coração pra defender seus interesses. Uma mulher apaixonada se transforma dos pés à cabeça. Se é classuda, cai da panca e, sem vacilar apronta os maiores salseiros. Se é acanhada, endoida e não regateia pra fazer um escândalo. Esse lance de que a mulher mesmo muito ligada num homem e tal e coisa, se enruste e se fecha em copas porque tem categoria é papo furado. Mulher que deixa o amor no barato não está toda na parada. Que nada! Às vezes, está por solidão, por simpatia, por conveniência e os cambaus. Nunca por gama. É isso. Não tem erro. Sou eu que afirmo, e de mulher eu entendo. Mas deixa isso de lado. O que quero contar e o que pesa na balança é a história da Dilma Fuleira e da Celeste Bicuda, duas flores da Barra do Catimbó que se unharam e se dentaram por amor ao Ariovaldo Piolho, um vagau de pouca presença física, mas de muita embaixada. Ele lidava com seu rebanho com mil e um macetes e, por essas e outras, sempre foi muito considerado pelo mulherio. É verdade que esse perereco se deu nas quebradas do mundaréu, onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, mas, se acontecesse nos salões da mais fina gente da sociedade, não me causava nenhum espanto. Mulher é mulher em qualquer lugar. Mestre Zagaia, velho cabo-de-esquadra que navegou sem bandeira por muita água barrenta e que bateu perna à toa pelos caminhos mais escamosos, esquisitos e estreitos do roçado do bom Deus, viu quizilas de assombrar negos de patuá forte, embrulhou sua solidão em muito lençol encardido e escancarou nas Tabuadas das Candongas uma dica sobre o assunto:
— Depois dos panos arriados, o espetáculo é sempre o mesmo.
E, se Mestre Zagaia falou, tá falado. Mulher é sempre mulher. E a Dilma Fuleira e a Celeste Bicuda também são, embora à primeira vista não pareçam. Sabe como é. Elas nasceram lesadas da sorte e só pegaram a pior. Bagulho catado no chão da feira nunca fez bem à beleza de ninguém.
Porém (e sempre tem um porém), não foi a condição de bagulho que impediu que elas tivessem grandes ilusões a respeito de amor. E o galã dos sonhos das duas era, como já disse, o Ariovaldo Piolho. Esse vagau se serviu das duas sem a mínima cerimônia. Foi ali na base do agrião. Como as duas estavam a fim dele, o danado negociou. Fez valer a velha e tinhosa lei da oferta e da procura. Se fingia de morto e esperava pra ver quem comparecia no seu enterro.
Como quem não quer nada, pegava a grana na mão da Dilma, cumpria a obrigação e ia buscar os pixulés com a Celeste. E se o dinheiro compensava, não deixava ela em falta. Até que o caldo engrossou.
Bateu sujeira. O doutor delerusca resolveu acabar com o pesqueiro das piranhas e a Dilma Fuleira e a Celeste Bicuda se viram no papo-de-aranha. Escaparam da cana, mas o faturamento caiu às pamparras. E, no meio disso tudo, o Ariovaldo Piolho sentiu o aroma da perpétua. Vagau escolado por muitos anos de janela é sempre cem por cento profissional. Sem pagório, deixou as mulheres na saudade. E se deu o esquinapo.
A Dilma Fuleira achou que o Piolho não queria nada com ela porque estava enredado pela Celeste Bicuda. Procurou a rival e, sem conversa, deu-lhe uma tremenda biaba. A Celeste Bicuda era encardida. Encarou, mas não deu nem pra saída. A Dilma Fuleira era gordona e alta. A Celeste, baixinha e só pele e osso. Teve que apanhar e correr. Porém, como não era de engolir nada enrolado, a Celeste Bicuda tramou a forra. Foi na macumba levar o nome da Dilma Fuleira pra sua mãe-de-santo enterrar no cemitério. Feita a façanha, a Celeste Bicuda se botou a boquejar nos botecos. Garantia pra quem duvidasse que a Dilma Fuleira ia murchar até morrer. E não faltou fuxiqueiro pra ir rapidinho envenenar a Dilma. E ela, que já estava atolada até o gogó no pântano, acreditou que a bananosa toda que curtia era devido à mandinga da Celeste. Se picou de raiva e jurou pela luz que a iluminava que ia pegar a inimiga e dar pancada até ela desenterrar seu nome. E foi pra guerra.
A Dilma encontrou a Celeste no seu barraco e nem pediu licença. Entrou na força bruta e foi botando pra quebrar. De repente, a Celeste Bicuda deu uns gritos, uns pulos pro alto e, quando desceu, era uma fera batusquela. Passou a mão numa enxada e tocou o bumba-meu-boi no lombo da Dilma, que se viu obrigada a dar pinote. Mas a Celeste foi na captura e derrubou o barraco da Dilma a enxadada. Em desespero e apavorada com a fúria da Celeste Bicuda, a Dilma se refugiou na casa do Piolho. A Celeste não tomou conhecimento. Aliás, ainda ficou mais endoidada de ver a rival junto do homem da sua gama. Aumentou o escarcéu.
O Ariovaldo, sem se afobar saiu de fininho e chamou a polícia. A cana chegou e ferrou a Celeste e a Dilma. No Distrito, a Celeste falou que não tinha nada com a briga. Foi o exu da sua crença que encarnou nela pra acabar com a Dilma. A Dilma, de zoeira, entregou tudo como era. Disse pro doutor que a bronca era por causa do Piolho, que estava na fita como testemunha. O delegado quis saber se o Piolho tinha emprego. Não tinha. Entrou em pua e as mulheres foram dispensadas. Mas continuam pelejando por amor. Uma visita o vagau às quartas-feiras; a outra, aos domingos. E todas as duas levam o santo dinheirinho de presente pro Ariovaldo Piolho, o bom amante.



O texto acima foi extraído do livro "Histórias das quebradas do mundaréu", Mirian Paglia Editora de Cultura Ltda. - São Paulo, 2004, págs. 105e 177/8.

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segunda-feira

O AMOR PELOS LIVROS

COMO É MESMO O NOME?
Marina Colasanti


Levou o manequim de madeira à festa porque não tinha companhia e não queria ir sozinho.
Gravata bordeaux, seda. Camisa pregueada, cambraia. Terno riscado, lã. Tudo do bom. Suas melhores roupas na madeira bem talhada, bem lixada, bem pintada, melhor corpo. Só as meias um pouco grossas, o que porém se denunciaria apenas se o manequim cruzasse as pernas. Para o nariz firmemente obstruído, um lenço no bolsinho.
No relógio de ouro do pulso torneado, a festa já tinha começado há algum tempo.
Sorridentes, os donos da casa se declararam encantados por ter ele trazido um amigo.
— Os amigos dos nossos amigos são nossos amigos — disseram saboreando a generosidade da sua atitude. E o apresentaram a outros convidados, amigos e amigos de nossos amigos. Todos exibiram os dentes em amável sorriso.
Recebeu o copo de uísque, sua senha. E foi colocado no canto esquerdo da sala, entre a porta e a cômoda inglesa, onde mais se harmonizaria com a decoração.
A meia hilaridade pintada com tinta esmalte e reforçada com verniz náutico exortava outras hilaridades a se manterem constantes, embora nenhuma alcançasse idêntico brilho. Abriam-se os transitórios vizinhos em amenidades que o compreensivo calar-se do outro logo transformava em confidências. Enfim alguém que sabia ouvir. Relatos sibilavam por entre gengivas à mostra e se perdiam em quase espuma na comissura dos lábios. Cabeças aproximavam-se, cúmplices. Apertavam-se as pálpebras no dardejado do olhar. O ruge, o seio, o ventre, a veia expandida palpitavam. O gelo no uísque fazia-se água.
A própria dona da casa ocupou-se dele na refrega de gentilezas. Trocou-lhe o copo ainda cheio e suado por outro de puras pedras e âmbar. Atirou-se à conversa sem preocupações de tema, cuidando apenas de mantê-lo entretido. Do que logo se arrependeu, naufragando na ironia do sorriso que lhe era oferecido de perfil. A necessidade de assunto mais profundo levou-a à única notícia lida nos últimos meses. E nela avançou estimulada pelo silêncio do outro, logo úmida de felicidade frente a alguém que finalmente não a interrompia. No mais frondoso do relato o marido, entre convivas, a exigiu com um sinal. Afastou-se prometendo voltar.
O brilho de uma calvície abandonou o centro da sala e coruscou a seu lado, derramando-lhe sobre o ombro confissões impudicas, relato de farta atividade extraconjugal. Sem obter comentários, sequer um aceno, o senhor louvou intimamente a discrição, achando-a, porém, algo excessiva entre homens. Homens menos excessivos aguardavam em outros cantos da sala a repetição de suas histórias.
Não acendeu o cigarro de uma dama e esta ofendeu-se, já não havia cavalheiros como antigamente. Não acendeu o cigarro de outra dama e esta encantou-se, sabia bem o que se esconde atrás de certo cavalheirismo de antigamente. Os cinzeiros acolheram os cigarros sem uso.
Um cavalheiro sentiu-se agredido pelo seu desprezo. Um outro pela sua superioridade. Um doutor enalteceu-lhe a modéstia. Um senhor acusou-lhe a empáfia. E o jovem que o segurou pelo braço surpreendeu-se com sua rígida força viril.
Nenhum suor na testa. Nenhum tremor na mão. Sequer uma ponta de tédio. Imperturbável, o manequim de madeira varava a festa em que os outros aos poucos se descompunham.
Já não eram como tinham chegado. As mechas escapavam, amoleciam os colarinhos, secreções escorriam nas peles pegajosas. Só os sorrisos se mantinham, agora descorados.
No relógio torneado do pulso rijo a festa estava em tempo de acabar.
As mulheres recolhiam as bolsas com discrição. Os amigos, os amigos dos amigos, os novos amigos dos velhos amigos deslizavam porta afora.
Mais tarde, a dona da casa, tirando a maquilagem na paz final do banheiro, dedos no pote de creme, comentava a festa com o marido.
— Gostei — concluiu alastrando preto e vermelho no rosto em nova máscara —, gostei mesmo daquele convidado, aquele atencioso, de terno riscado, aquele, como é mesmo o nome?


O texto acima foi extraído do livro "O leopardo é um animal delicado", Editora Rocco — Rio de Janeiro, 1998, pág. 131.


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O AMOR PELOS LIVROS

CIDADE DE DEUS
Rubem Fonseca


O nome dele é João Romeiro, mas é conhecido como Zinho na Cidade de Deus, uma favela em Jacarepaguá, onde comanda o tráfico de drogas. Ela é Soraia Gonçalves, uma mulher dócil e calada. Soraia soube que Zinho era traficante dois meses depois de estarem morando juntos num condomínio de classe média alta da Barra da Tijuca. Você se importa?, Zinho perguntou, e ela respondeu que havia tido na vida dela um homem metido a direito que não passava de um canalha. No condomínio Zinho é conhecido como vendedor de uma firma de importação. Quando chega uma partida grande de droga na favela Zinho some durante alguns dias. Para justificar sua ausência Soraia diz, para as vizinhas que encontra no playground ou na piscina, que o marido está viajando pela firma. A polícia anda atrás dele, mas sabe apenas o seu apelido, e que ele é branco. Zinho nunca foi preso.

Hoje à noite Zinho chegou em casa depois de passar três dias distribuindo, pelos seus pontos, cocaína enviada pelo seu fornecedor em Puerto Suarez e maconha que veio de Pernambuco. Foram para a cama. Zinho era rápido e rude e depois de foder a mulher virava as costas para ela e dormia. Soraia era calada e sem iniciativa, mas Zinho queria ela assim, gostava de ser obedecido na cama como era obedecido na Cidade de Deus.

“Antes de você dormir posso te perguntar uma coisa?”

“Pergunta logo, estou cansado e quero dormir, amorzinho.”

"Você seria capaz de matar uma pessoa por mim?"

“Amorzinho, eu mato um cara porque ele me roubou cinco gramas, não vou matar um sujeito que você pediu? Diz quem é o cara. É aqui do condomínio?”

“Não”.

“De onde é?”

“Mora na Taquara”.

“O que foi que ele te fez?”

“Nada. Ele é um menino de sete anos. Você já matou um menino de sete anos?”

“Já mandei furar a bala as palmas das mãos de dois merdinhas que sumiram com uns papelotes, pra servir de exemplo, mas acho que eles tinham dez anos. Por que você quer matar um moleque de sete anos?”

“Para fazer a mãe dele sofrer. Ela me humilhou. Tirou o meu namorado, fez pouco de mim, dizia para todo mundo que eu era burra. Depois casou com ele. Ela é loura, tem olhos azuis e se acha o máximo.”

“Você quer se vingar porque ela tirou o seu namorado? Você ainda gosta desse puto, é isso?”

“Gosto só de você, Zinho, você é tudo para mim. Esse merda do Rodrigo não vale nada, só sinto desprezo por ele. Quero fazer a mulher sofrer porque ela me humilhou, me chamou de burra, ria na frente dos outros.”

“Posso matar esse puto.”

“Ela nem gosta dele. Quero fazer essa mulher sofrer muito. Morte de filho deixa a mãe desesperada.”

“Está bem. Você sabe onde o menino mora?”

“Sei.”

“Vou mandar pegar o moleque e levar para a Cidade de Deus.”

“Mas não faz o garoto padecer muito.”

“Se essa puta souber que o filho morreu sofrendo é melhor, não é? Me dá o endereço. Amanhã mando fazer o serviço, a Taquara é perto da minha base.”

De manhã bem cedo Zinho saiu de carro e foi para a Cidade de Deus. Ficou fora dois dias. Quando voltou, levou Soraia para a cama e ela docilmente obedeceu a todas as suas ordens, Antes de ele dormir, ela perguntou, “você fez aquilo que eu pedi?”

“Faço o que prometo, amorzinho. Mandei meu pessoal pegar o menino quando ele ia para o colégio e levar para a Cidade de Deus. De madrugada quebraram os braços e as pernas do moleque, estrangularam, cortaram ele todo e depois jogaram na porta da casa da mãe. Esquece essa merda, não quero mais ouvir falar nesse assunto", disse Zinho.
“Sim, eu já esqueci.”

Zinho virou as costas para Soraia e dormiu. Zinho tinha um sono pesado. Soraia ficou acordada ouvindo Zinho roncar. Depois levantou-se e pegou um retrato de Rodrigo que mantinha escondido num lugar que Zinho nunca descobriria. Sempre que Soraia olhava o retrato do antigo namorado, durante aqueles anos todos, seus olhos se enchiam de lágrimas. Mas nesse dia as lágrimas foram mais abundantes.

“Amor da minha vida”, ela disse, apertando o retrato de Rodrigo de encontro ao seu coração sobressaltado.


Texto extraído do livro "Histórias de Amor", Cia. das Letras - 1997 - São Paulo, pág. 11.

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O AMOR PELOS LIVROS

A PARTIDA
Osman Lins



Hoje, revendo minhas atitudes quando vim embora, reconheço que mudei bastante. Verifico também que estava aflito e que havia um fundo de mágoa ou desespero em minha impaciência. Eu queria deixar minha casa, minha avó e seus cuidados. Estava farto de chegar a horas certas, de ouvir reclamações; de ser vigiado, contemplado, querido. Sim, também a afeição de minha avó incomodava-me. Era quase palpável, quase como um objeto, uma túnica, um paletó justo que eu não pudesse despir.
Ela vivia a comprar-me remédios, a censurar minha falta de modos, a olhar-me, a repetir conselhos que eu já sabia de cor. Era boa demais, intoleravelmente boa e amorosa e justa.
Na véspera da viagem, enquanto eu a ajudava a arrumar as coisas na maleta, pensava que no dia seguinte estaria livre e imaginava o amplo mundo no qual iria desafogar-me: passeios, domingos sem missa, trabalho em vez de livros, mulheres nas praias, caras novas. Como tudo era fascinante! Que viesse logo. Que as horas corressem e eu me encontrasse imediatamente na posse de todos esses bens que me aguardavam. Que as horas voassem, voassem!
Percebi que minha avó não me olhava. A princípio, achei inexplicável ela fizesse isso, pois costumava fitar-me, longamente, com uma ternura que incomodava. Tive raiva do que me parecia um capricho e, como represália, fui para a cama.
Deixei a luz acesa. Sentia não sei que prazer em contar as vigas do teto, em olhar para a lâmpada. Desejava que nenhuma dessas coisas me afetasse e irritava-me por começar a entender que não conseguiria afastar-me delas sem emoção.
Minha avó fechara a maleta e agora se movia, devagar, calada, fiel ao seu hábito de fazer arrumações tardias. A quietude da casa parecia triste e ficava mais nítida com os poucos ruídos aos quais me fixava: manso arrastar de chinelos, cuidadoso abrir e lento fechar de gavetas, o tique-taque do relógio, tilintar de talheres, de xícaras.
Por fim, ela veio ao meu quarto, curvou-se:
— Acordado?
Apanhou o lençol e ia cobrir-me (gostava disto, ainda hoje o faz quando a visito); mas pretextei calor, beijei sua mão enrugada e, antes que ela saísse, dei-lhe as costas.
Não consegui dormir. Continuava preso a outros rumores. E quando estes se esvaíam, indistintas imagens me acossavam. Edifícios imensos, opressivos, barulho de trens, luzes, tudo a afligir-me, persistente, desagradável — imagens de febre.
Sentei-me na cama, as têmporas batendo, o coração inchado, retendo uma alegria dolorosa, que mais parecia um anúncio de morte. As horas passavam, cantavam grilos, minha avó tossia e voltava-se no leito, as molas duras rangiam ao peso de seu corpo. A tosse passou, emudeceram as molas; ficaram só os grilos e os relógios. Deitei-me.
Passava de meia-noite quando a velha cama gemeu: minha avó levantava-se. Abriu de leve a porta de seu quarto, sempre de leve entrou no meu, veio chegando e ficou de pé junto a mim. Com que finalidade? — perguntava eu. Cobrir-me ainda? Repetir-me conselhos? Ouvi-a então soluçar e quase fui sacudido por um acesso de raiva. Ela estava olhando para mim e chorando como se eu fosse um cadáver — pensei. Mas eu não me parecia em nada com um morto, senão no estar deitado. Estava vivo, bem vivo, não ia morrer. Sentia-me a ponto de gritar. Que me deixasse em paz e fosse chorar longe, na sala, na cozinha, no quintal, mas longe de mim. Eu não estava morto.
Afinal, ela beijou-me a fronte e se afastou, abafando os soluços. Eu crispei as mãos nas grades de ferro da cama, sobre as quais apoiei a testa ardente. E adormeci.
Acordei pela madrugada. A princípio com tranqüilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir. Inútil, o sono esgotara-se. Com precaução, acendi um fósforo: passava das três. Restavam-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem chegaria às cinco. Veio-me então o desejo de não passar nem uma hora mais naquela casa. Partir, sem dizer nada, deixar quanto antes minhas cadeias de disciplina e de amor.
Com receio de fazer barulho, dirigi-me à cozinha, lavei o rosto, os dentes, penteei-me e, voltando ao meu quarto, vesti-me. Calcei os sapatos, sentei-me um instante à beira da cama. Minha avó continuava dormindo. Deveria fugir ou falar com ela? Ora, algumas palavras... Que me custava acordá-la, dizer-lhe adeus?
Ela estava encolhida, pequenina, envolta numa coberta escura. Toquei-lhe no ombro, ela se moveu, descobriu-se. Quis levantar-se e eu procurei detê-la. Não era preciso, eu tomaria um café na estação. Esquecera de falar com um colega e, se fosse esperar, talvez não houvesse mais tempo. Ainda assim, levantou-se. Ralhava comigo por não tê-la despertado antes, acusava-se de ter dormido muito. Tentava sorrir.
Não sei por que motivo, retardei ainda a partida. Andei pela casa, cabisbaixo, à procura de objetos imaginários enquanto ela me seguia, abrigada em sua coberta. Eu sabia que desejava beijar-me, prender-se a mim, e à simples idéia desses gestos, estremeci. Como seria se, na hora do adeus, ela chorasse?
Enfim, beijei sua mão, bati-lhe de leve na cabeça. Creio mesmo que lhe surpreendi um gesto de aproximação, decerto na esperança de um abraço final. Esquivei-me, apanhei a maleta e, ao fazê-lo, lancei um rápido olhar para a mesa (cuidadosamente posta para dois, com a humilde louça dos grandes dias e a velha toalha branca, bordada, que só se usava em nossos aniversários.


O texto acima, publicado em "Os Gestos", Editora Melhoramentos — São Paulo, 1975, consta também do livro "Os cem melhores contos brasileiros do século", seleção de Ítalo Moriconi, Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 190.

PROJETO RELEITURA

domingo

O AMOR PELOS LIVROS

O SUBLIME É SIMPLES
NICODEMOS SENA



No artigo "Instinto de nacionalidade", escrito em 1873, Machado de Assis – para quem não sabe, um dos fundadores, ao lado de José Veríssimo, da moderna crítica literária brasileira – afirma: "Bem sei que as cenas majestosas da natureza americana exigem do poeta imagens e expressões adequadas. O condor que rompe dos Andes, o pampeiro que varre os campos do sul, os grandes rios, a mata virgem com todas as suas magnificências de vegetação, – não há dúvida que são painéis que desafiam o estro, mas, por isso mesmo que são grandes, devem ser trazidos com oportunidade e expressos com simplicidade".
Eu, que nasci e cresci na Amazônia das florestas catedralescas e de uma malha fluvial gigante, e que me atrevi a transfigurar na Literatura esta paisagem grandiosa, pude comprovar a veracidade de tais palavras. Sem dúvida, a oportunidade e a simplicidade (que muitas vezes faltavam à poesia da época de Machado e, com mais freqüência, costumam faltar à poesia de nossa época) são cabais para reproduzir uma grande imagem ou exprimir uma grande idéia. Diria mais: sem o senso de oportunidade e simplicidade é impossível reproduzir, em verso ou em prosa, um grande sentimento.
Teço tais considerações a propósito do livro "Eu vivo só ternuras" (Associação Cultuarte Missões, 2ª edição, 2002), do gaúcho de Roque Gonzales, Nelson Hoffmann. Trata-se, à primeira vista, de uma coletânea de contos, mas também pode ser lido como um romance curto, ou uma novela, pois, na verdade, cada "conto" funciona como um episódio que se une aos demais pela mesma temática: o Amor, a Ternura, o Embevecimento do avô diante de seu neto. Poucos sentimentos humanos são tão grandes quanto o do avô pelo neto; entretanto, Nelson Hoffmann escreveu um livro pouco volumoso – de apenas 74 páginas! Como conseguiu tratar de algo tão grandioso em tão pouco espaço?! Qual o segredo?
Com um tema "infantil", Nelson Hoffmann fez um livro para adultos reencontrarem a criança que dormita ou está manietada dentro de cada um. O homem que anda pela praça com a criança pelas mãos, o homem que conversa com a mãe da criança sobre os graves assuntos da vida, o homem que dá voltas pela cidade com o menino ao seu lado – tal homem, distanciado do mundo infantil, deixa-se conduzir pela criança, que, de repente, já não está ao seu lado, mas lhe fala de dentro, do fundo de si próprio.
Nelson Hoffmann consegue transmitir, a partir de sua experiência de avô, um sentimento que é de todos os avôs do mundo: o de ternura pelo pupilo. "Eu vivo só ternuras" é um livro de aventuras, de descobertas, não da África, do Himalaia ou qualquer outro lugar exótico do globo, mas das regiões sombrias do coração do homem, ainda tão pouco exploradas. "Eu vivo só ternuras" mostra, lado a lado, os mundos do adulto e da criança. A criança, buliçosa, enxergando tudo, curiosa, aprendendo com as coisas elementares – sol, céu, lua, vento, doença etc. E o adulto, preguiçoso, seguro de sua "sapiência", apenas "tocando" a vida. Há, neste livro, uma criança filosofando o mundo e um adulto que se permite "aprender" com ela.
Nelson Hoffmann extrai poesia do mais comezinho cotidiano, enxerga a vida em seus detalhes, descortina a "realidade" de um universo que nos disseram ser apenas imaginário. Mostra-nos que, antes da consciência de que todo jogo tem sua platéia, havia simplesmente o jogo pelo jogo, o "estar à vontade no mundo". Um sentimento grandioso e complexo foi traduzido de um modo tão natural e despretensioso que nos vem a certeza de que o sublime é simples.

(O Girassol, 25/11/2003, Palmas, TO)

*Nicodemos Sena é jornalista e escritor, autor do romance "A espera do nunca mais“

quinta-feira

O AMOR PELOS LIVROS

HERMANDAD
Octavio Paz

Homenaje a Claudio Ptolomeo

Soy hombre: duro poco
Y es enorme la noche.
Pero miro hacia arriba:
Las estrellas escriben.
Sin entender compreendo:
También soy escritura
Y en este mismo instante
Alguien me deletrea.

IRMANDADE
Homenagem a Claudio Ptolomeo


Sou homem: duro pouco
E é enorme a noite.
Mas olho para cima:
As estrelas escrevem.
Sem entender, compreendo:
Também fui escrito
E neste mesmo instante
Alguém me soletra.


Octavio Paz, ensaísta e poeta mexicano, nasceu na capital de seu país em 1914. Passou sua infância nos Estados Unidos, acompanhando sua família, e sua vida adulta entre a França e a Índia, por fazer parte do quadro de diplomatas mexicanos. Em seu país, é o poeta mais considerado e controvertido da segunda metade do século XX.
Foi agraciado, entre outros, com os prêmios Cervantes, em 1979, Alexis de Tocquerville, em 1989, e com o Nobel de Literatura, em 1990.
Algumas obras do autor: "Luna silvestre" (1933), "Entre lapiedra y la flor" (1940), "el laberinto de la soledad" (1959), "La estación violenta" (1958), "El arco y la lira" (1956), "Topoemas" (1971), e "Hijos del aire" (1979).

O escritor faleceu na cidade do México no ano de 1998.

Traduzido por Regina Werneck para o português, este poema faz parte da antologia "Poemas Reunidos" (1957 - 1987). Octavio Paz e Eliot Weinberger fizeram sua versão para o inglês, para o "Poesia em Movimento".

PROJETO RELEITURA