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Richard Clayderman - Matrimonio De Amor .mp3
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domingo

AMOR PELOS LIVROS

BLUES FÚNEBRES
W. H. Auden


Que parem os relógios, cale o telefone,
jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,
que emudeça o piano e que o tambor sancione
a vinda do caixão com seu cortejo atrás.


Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,
escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.
Que as pombas guardem luto — um laço no pescoço —
e os guardas usem finas luvas cor-de-breu.


Era meu norte, sul, meu leste, oeste, enquanto
viveu, meus dias úteis, meu fim-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, fala e canto;
quem julgue o amor eterno, como eu fiz, se engana.


É hora de apagar estrelas — são molestas —
guardar a lua, desmontar o sol brilhante,
de despejar o mar, jogar fora as florestas,
pois nada mais há de dar certo doravante.



O AMOR PELOS LIVROS

O ESPELHO
Sacha Guitry


Esta aconteceu na China. Um chinês preparava-se para ir ao mercado, que fica a alguns dias de viagem. Está anoitecendo. O chinês despede-se da mulher.
— Até à volta, Mel de Crisântemo. Que quer que lhe traga do mercado?
— Eu queria um pente.
— Um pente? Está bem. Mas eu tenho que comprar tanta coisa, como é que me vou lembrar?
— Não precisará mais do que olhar para a lua. Veja: a lua é crescente. Pois bem, o pente que eu quero é exatamente da forma da lua crescente.
— Até à volta.
E o chinês parte. Chega ao mercado. Faz suas compras. Terminando-as, já bem tarde, lembra-se da promessa, mas não se lembra muito bem do objeto desejado pela mulher.
Encontra-se, nesse momento, junto de um mercador e lhe diz:
— Pois veja só: prometi levar um presente a minha mulher, mas não me lembro mais o que foi. Ah! sim, espera. Estou-me lembrando agora que ela me disse para olhar a lua.
— Olhe, é lua cheia.
(A lua, que estava no seu primeiro quarto no dia da partida do chinês, agora era cheia).
— Deve ser um objeto redondo.
E o chinês compra um espelho, paga-o, faz um pacote e põe-se a caminho para a volta.
Ao chegar em casa, diz-lhe a mulher:
— Bom dia, meu marido. Trouxe-me o que eu lhe pedi?
— Naturalmente. Aqui está.
E o chinês dá o pacote à mulher, que apressadamente o abre. Essa mulher nunca tinha visto um espelho. E vendo nele um vulto de mulher, fica indignada:
— Meu marido, comprou outra mulher!
E Mel de Crisântemo chora todas as lágrimas de seu pequenino coração. Os seus olhos chamam a atenção de sua mãe.
— Ah! mamãe, mamãe — grita ela. — Venha ver. Meu marido trouxe para casa outra mulher.
A mãe toma o espelho, olha-o e diz à filha:
— Fica sossegada: é tão velha e tão feia!

O texto acima foi extraído do livro “Maravilhas do Conto Francês”, Editora Cultrix – São Paulo, 1958, pág. 319. Seleção de Jean P. L. Bellade e organização de Diaulas Riedel.

quinta-feira

O AMOR PELOS LIVROS

VIAGEM
Orides Fontela






Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde




sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.


Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.


O poema acima foi publicado no livro “Rosácea”, Ed. Duas Cidades - São Paulo (SP), 1986.

segunda-feira

O AMOR PELOS LIVROS

PARA ONDE VAMOS?
 por Fernando Henrique Cardoso

A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio “talvez” porque alguns estão de tal modo inebriados com “o maior espetáculo da terra”, de riqueza fácil que beneficia a poucos, que tenho dúvidas. Parece mais confortável fazer de conta que tudo vai bem e esquecer as transgressões cotidianas, o discricionarismo das decisões, o atropelo, se não da lei, dos bons costumes. Tornou-se habitual dizer que o governo Lula deu continuidade ao que de bom foi feito pelo governo anterior e ainda por cima melhorou muita coisa. Então, por que e para que questionar os pequenos desvios de conduta ou pequenos arranhões na lei?
Só que cada pequena transgressão, cada desvio, vai se acumulando até desfigurar o original. Como dizia o famoso príncipe tresloucado, nesta loucura há método. Método que provavelmente não advenha do nosso Príncipe, apenas vítima, quem sabe, de apoteose verbal. Mas tudo o que o cerca possui um DNA que, mesmo sem conspiração alguma, pode levar o país, devagarinho, quase sem que se perceba, a moldar-se a um estilo de política e a uma forma de relacionamento entre Estado, economia e sociedade, que pouco têm a ver com nossos ideais democráticos.
É possível escolher ao acaso os exemplos de “pequenos assassinatos”. Por que fazer o Congresso engolir, sem tempo para respirar, uma mudança na legislação do petróleo mal explicada, mal ajambrada? Mudança que nem sequer pode ser apresentada como uma bandeira “nacionalista”, pois se o sistema atual, de concessões, fosse “entreguista” deveria ter sido banido, e não foi. Apenas se juntou a ele o sistema de partilha, sujeito a três ou quatro instâncias político-burocráticas para dificultar a vida dos empresários e cevar os facilitadores de negócios na máquina pública. Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental em uma companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem qualquer pudor, passear pelo Brasil às custas do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?
Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do “autoritarismo popular” vai minando o espírito da democracia constitucional. Essa supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente. Na contramão disso tudo, vamos regressando a formas políticas do tempo do autoritarismo militar, quando os “projetos de impacto” (alguns dos quais viraram “esqueletos”, quer dizer obras que deixaram penduradas no Tesouro dívidas impagáveis) animavam as empreiteiras e inflavam os corações dos ilusos: “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Em pauta, temos a transnordestina, o trem-bala, a Norte-Sul, a transposição do São Francisco e as centenas de pequenas obras do PAC, que, boas algumas, outras nem tanto, jorram aos borbotões no orçamento e minguam pela falta de competência operacional ou por desvios barrados pelo TCU. Não importa: no alarido da publicidade, é como se o povo já fruísse os benefícios: “Minha casa, minha vida”; biodiesel de mamona, redenção da agricultura familiar; etanol para o mundo e, na voragem de novos slogans, pré-sal para todos.
Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo “Brasil potência”. Até mesmo a apologia da bomba atômica como instrumento para que cheguemos ao Conselho de Segurança da ONU – contra a letra expressa da Constituição – vez por outra é defendida por altos funcionários, sem que se pergunte à cidadania qual o melhor rumo para o Brasil. Até porque o presidente já declarou que em matéria de objetivos estratégicos (como a compra dos caças) ele resolve sozinho. Pena que tivesse se esquecido de acrescentar “l’État c’est moi”. Mas não esqueceu de dar as razões que o levaram a tal decisão estratégica: viu que havia piratas na Somália e, portanto, precisamos de aviões de caça para defender “nosso pré-sal”. Está bem, tudo muito lógico.
Pode ser grave, mas, dirão os realistas, o tempo passa e o que fica são os resultados. Entre estes, contudo, há alguns preocupantes. Se há lógica nos despautérios, ela é uma só: a do poder sem limites. Poder presidencial com aplausos do povo, como em toda boa situação autoritária, e poder burocrático-corporativo, sem graça alguma para o povo. Este último tem método. Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no “dedaço” que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições, sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são “estrelas novas”. Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam.
Ora dirão (já que falei de estrelas), os fundos de pensão constituem a mola da economia moderna. É certo. Só que os nossos pertencem a funcionários de empresas públicas. Ora, nessas, o PT, que já dominava a representação dos empregados, domina agora a dos empregadores (governo). Com isso, os fundos se tornaram instrumentos de poder político, não propriamente de um partido, mas do segmento sindical-corporativo que o domina. No Brasil, os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas – mas gestores: participam dos blocos de controle ou dos conselhos de empresas privadas ou “privatizadas”. Partidos fracos, sindicatos fortes, fundos de pensão convergindo com os interesses de um partido no governo e para eles atraindo sócios privados privilegiados, eis o bloco sobre o qual o subperonismo lulista se sustentará no futuro, se ganhar as eleições. Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde.



Ex-presidente da República

sábado

AMOR PELOS LIVROS

"ESPLANADA"



“Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,


agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.


O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.”


Manuel António Pina em "Poesia Reunida"

AMOR PELOS LIVROS

Entrevista por Paulo Ricardo Kralik Angelini


Como nasce um livro? Como nasceram A rua dos secretos amores e Aconteceu também comigo?
Jane Tutikian: Um livro nasce um pouco a cada dia. A vida está cheia de histórias; é só olhar para ela e contá-las. Foi assim que surgiram A rua dos secretos amores e Aconteceu também comigo. O primeiro de contos, o segundo, uma novela juvenil. A Rua era um projeto antigo, implicava mexer numa série de coisas, até porque o modelo de rua era o modelo da rua da minha infância: a Avenida Cauduro, talvez por isso tenha demorado para realizá-lo, e, talvez por isso o processo de criação tenha sido tão rápido e tão intenso. Escrevi a primeira versão da Rua em apenas dez dias. Foi uma experiência única. Estive povoada por dez dias e vivi emoções extremas, do riso ao choro. Quanto ao Aconteceu, minha quarta novela juvenil, queria falar de um tempo que era o tempo da minha própria adolescência e, então, me ocorreu falar de um último ano, na vida de uma menina, no Instituto de Educação. Acho que é o livro que mais responde ao meu projeto com relação aos jovens: não tem uma história, tem situações, e tem um objetivo claro que é discutir a adolescência, os sentimentos, as dúvidas, as surpresas.

Como é escrever literatura infanto-juvenil? Vem à tona uma Jane diferente da que escreve outro tipo de literatura?
Jane Tutikian: Para falar a verdade, eu entrei na literatura juvenil quase por acaso, ou, pelo menos, sem intenção. Tinha uma personagem de 13 anos, escrevi sua história e surgiu A cor do azul, hoje na 22ª edição. Não pensei “agora vou escrever para jovem”. E acho isso o mais legal de tudo, porque não fiz nenhuma concessão de linguagem, de estilo, de pensamento, de nada. Não subestimei ninguém. Estou lá inteira, da mesma forma que estou inteira nos textos para adultos. Sou lá mais uma contadora de emoções do que uma contadora de histórias, da mesma forma que sou nos textos para adultos.

Quem é a primeira pessoa que lê teus livros? Eles vão direto para o editor ou há uma espécie de leitura informal de amigos?
Jane Tutikian: A primeira pessoa que lê os meus textos é a minha filha Fernanda. Ela é muito sensível e muito crítica. Se passa por ela, eu sei que está pronto; se não passa, sento e trabalho o texto. Por que não entrego para alguém da área? Porque o público não é da área e é para ele que eu escrevo.

Quando tu estás mergulhada na criação de um livro, quais são as maiores transformações no teu dia a dia?
Jane Tutikian: Não há grandes transformações no meu dia, há em mim, que fico mais dispersiva e com mais dificuldade de me concentrar em outra coisa que não o texto. Às vezes sou tomada por uma sensação de perda de tempo e lembro da Katherine Mansfield, lá na década de 20, quando dizia em uma das suas cartas: “não sei por que a gente que escreve acha que é tudo o que importa.” Quando escrevo, é, também, o que importa.

Tua atuação acadêmica facilita ou dificulta teu produção literária?
Jane Tutikian: Já atrapalhou e muito. Hoje, consigo separar a escritora da professora e isso me dá tranquilidade e espontaneidade para criar.

Quais são tuas influências literárias?
Jane Tutikian: Tudo o que li, que me transformou, que me emocionou. Álvaro de Campos, Clarice Lispector, Virgínia Woolf, Simone de Beauvoir, Caio Fernando Abreu e tantos outros.

Para uma autora que já recebeu tantos prêmios, até mesmo o Jabuti – prêmio máximo em nível nacional – existe uma certa expectativa de reconhecimento a cada novo trabalho?
Jane Tutikian: Os prêmios são um momento. Envaidecem, mas não inspiram, não são determinantes na criação de novos textos. O reconhecimento, por sua vez, depende de muitos fatores extra-literários e a gente tem que ter isso muito claro. Não temos, por exemplo, uma estrutura editorial que nos permita uma distribuição adequada, tanto em termos de Rio Grande do Sul quanto de Brasil, e uma boa divulgação. A distribuição é precária e a divulgação privilegia meia dúzia de eleitos. O reconhecimento passa por isso. Há muita gente boa produzindo muito e bem, neste país de extensão continental, e a gente não chega sequer a conhecer.

Qual a importância de um evento como a Feira do Livro de Porto Alegre?
Jane Tutikian: A Feira do Livro de Porto Alegre faz parte da nossa identidade, essa é sua grande e verdadeira importância, é o momento em que a cidade para e se centra no livro. As pessoas economizam e juntam dinheiro para a feira, e isso é um barato! É a grande oportunidade de o livro cumprir seu destino, pois não há como cumpri-lo se não for junto ao leitor. Em termos mais amplos, em tempos de avanço tecnológico, impõe-se o desafio da humanização de que o livro pode ser o melhor agente.

Qual a tua opinião sobre sites na internet que estimulam a criação literária e a discussão na rede?
Jane Tutikian: Sou de uma geração muito mais feliz do que esta. Tínhamos o Caderno de Sábado, que aceitava nossos textos. Criticávamos nossos textos impressos e essa relação é fundamental. Como esse espaço foi suprimido, criaram-se outros, como os sites, e eu sou plenamente a favor deles como espaço alternativo de divulgação e de reflexão. Não creio, por exemplo, que possam vir a substituir o livro.

Jane Tutikian nasceu em Porto Alegre em 1952. É escritora e professora universitária (UFRGS). Autora de Batalha naval, A cor do azul (prêmio Jabuti literatura Infanto-Juvenil), Pessoas (prêmio Erico Verissimo), Geração Traída (prêmio Gralha Azul/PR), Um time muito especial (prêmio Tibicuera Livro do Ano), Alê, Marcelo, Ju & Eu (prêmio Açorianos Infanto-Juvenil), A rua dos secretos amores, Aconteceu também comigo (prêmio destaque Academia Brasileira de Letras), entre outros.

sexta-feira

AMOR PELOS LIVROS

A PERDA DO PAI
Artur da Távola


A perda do pai: quem sabe vivenciá-la? Como aceitar mortal e falível aquela pessoa grande, capaz de conseguir o universo, logo ele, o provedor, abridor de caminhos pelos quais começamos a passar medrosos?
A perda do pai é a retirada da rede protetora no momento do salto. E há que saltar. É o roubo feito no exato momento em que estávamos a descobrir o melhor do mundo.
A perda do pai é a entrada no lugar-comum, é começar a ser igual a todos os que a sofrem, a ter os mesmos medos, as mesmas frases. É voltar a se emocionar com o que se desprezava: datas, pequenas lembranças, objetos, palavras e até com as manias dele que nos irritavam.
A perda do pai é o começo do balanço da própria vida, porque, enquanto vivia, era mais fácil nele descarregar alguns fracassos e culpas.
A perda do pai é o início da significação. As palavras começam a fazer um estranho e novo sentido.
A perda do pai começa a nos ensinar o valor do tempo: o que não fizemos, a visita deixada para depois, o gosto adiado, a advertência desdenhada, o convite abandonado sem resposta, o interesse desinteressado...tudo isso volta, massacrante, cobrando-nos o egoísmo. Nosso primeiro exame de consciência verdadeiro começa quando o pai morre. Nosso encontro com a morte inaugura-se com a dele. Nossa primeira noite sem proteção consciente, dá-se quando ele já não está. E nunca somos mais sós que na primeira noite em que já não o temos. O pai é o mistério enquanto vida e a revelação depois de morto. Num segundo, entendemos tudo o que, durante a vida, nele nos parecia uma gruta de mistérios. Seus objetos ganham vida, suas comidas preferidas passam a ter mais gosto, suas frases adquirem o sentido que só o tempo e a repetição outorgam às coisas.
A perda do pai dói muito! Isso é tudo. Para que querer saber por que? O pai é o eu no outro. É dois em um, santíssima dualidade a proclamar o mistério e a glória de existir, dívida que com ele temos, sem nunca conseguir pagar, o que o faz por isso mesmo, sempre, muito melhor do que nós...

quinta-feira

O AMOR PELOS LIVROS

A VERDADEIRA LIBERDADE EMERGE DO NOSSO INTERIOR
OSHO


Existem muitos tipos de liberdade - a social, a política, a econômica -, mas elas são apenas superficiais.
A verdadeira liberdade tem uma dimensão totalmente diferente. Ela não diz respeito ao mundo exterior, nada disso; ela emerge da nossa interioridade.
Trata-se da liberdade com relação ao condicionamento, a todos os tipos de condicionamento, às ideologias religiosas, às filosofias políticas.
Todos eles têm sido impostos por outras pessoas sobre você, têm agrilhoado você, acorrentado você, aprisionado você, têm feito de você espiritualmente um escravo.
A meditação nada mais é do que destruir todos esses grilhões, condicionamentos, a destruição de todas as prisões, de modo que você possa ficar novamente sob o céu, sob as estrelas, ao ar livre, disponível para a existência.

quarta-feira

AMOR PELOS LIVROS

Bom Humor e muitos livros: Às vésperas de completar 90 anos, Tatiana Belinky tem seu lugar garantido no pequeno círculo das grandes contadoras de história da literatura infantil brasileira. Acima, em seu escritório

RETRATO DE UMA ETERNA CRIANÇA
POR RITA ALVES

 
Que tal uma história bem contada? Tatiana Belinky é uma expert no assunto. Mas dessa vez o mundo da imaginação foi deixado de lado por ela. A escritora soltou o verbo para falar de si mesma e quem ouviu suas histórias foi o jornalista e dramaturgo Sérgio Roveri. É ele o autor da biografia ...e quem quiser que conte outra da Coleção Aplauso (Imprensa Oficial, 240 páginas, R$ 15).

O livro, escrito na primeira pessoa, traz fotos de diversas épocas e, assim como o jeito delicioso de Tatiana contar histórias, fala da carreira e trajetória da escritora. Estão lá a experiência com o teatro, as adaptações da obra de Monteiro Lobato para a televisão, a família, o aprendizado com as crianças, o marido que encontrou debaixo de uma mesa e muito mais.

O autor diz que levou pouco mais de dois meses de conversa para reunir material suficiente. Os encontros eram feitos sempre nas tardes de terça-feira, na casa dela, e duravam, no mínimo, duas horas. Nessa época, o fim das gravações não era sinônimo de fim de papo. "Depois que a segunda fita terminava, ainda ficávamos conversando um pouco, e eu anotando tudo. Nossos encontros sempre terminavam com um cálice de vinho do porto. Era nestas horas, sempre bem-humorada, que a Tatiana contava as histórias mais engraçadas".

O contato mais próximo com a autora deixou o jornalista impressionado. "Várias coisas me surpreenderam nas declarações de Tatiana, mas principalmente a clareza de raciocínio, a memória prodigiosa e seu grande respeito pela cultura nacional. Fiquei impressionado em ver como uma mulher nascida na Rússia, alfabetizada em russo e alemão, se apaixonou perdidamente pelo nosso idioma, pelo Brasil e pelo nosso estilo de vida, a ponto de se tornar uma referência na literatura infantil".

Roveri conta que as lembranças fluiram de maneira prazerosa, com exceção de dois acontecimentos muito dolorosos para ela: a morte do marido Júlio Gouveia e do filho André, ocorrida na França. Tristeza e saudade vieram à tona nesses momentos. "Mas depois, como uma boa e velha russa batalhadora, até nas entrevistas ela deu rapidamente a volta por cima".

terça-feira

AMOR PELOS LIVROS

Tu Queres Sono: Despe-te dos Ruídos
Ana Cristina Cesar


Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.


PROJETO RELEITURA

segunda-feira

AMOR PELOS LIVROS

"olho muito tempo o corpo de um poema"
Ana Cristina Cesar

 

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas





Ana Cristina Cesar, ou Ana C., como era conhecida, nasceu em 1952 nesta cidade do Rio de Janeiro. Após 1968, passou um ano em Londres, fez algumas viagens pelos arredores e, na volta, deu aulas, traduziu, fez letras, escreveu para revistas e jornais alternativos, e saiu na antologia "26 Poetas Hoje", de Heloísa Buarque. Publicou, pela Funarte, pesquisa sobre literatura e cinema, fez mestrado em comunicação, lançou seus primeiros livros em edições independentes: "Cenas de Abril" e "Correspondência Completa". Dez anos depois voltou à Inglaterra, graduou-se em tradução literária, escreveu muitas cartas e editou "Luvas de Pelica". Trabalhou em jornalismo, televisão e escreveu "A Teus Pés", Editora Ática - São Paulo, 1998.



O poema acima foi incluído no livro "Os cem melhores poemas brasileiros do século", Editora Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 249, seleção de Ítalo Moriconi, que assim se manifestou sobre a escritora: "Ana Cristina dizia que uma das facetas do seu desbunde fora abandonar a idéia de ser escritora, livrar-se do que ela naquele momento julgava ser sua face herdada, o estigma princesa bem-comportada, alguém marcada para escrever".

Projeto Releitura

AMOR PELOS LIVROS

A Hungria entrou para o Guinness, livro dos recordes, com o maior livro do mundo. A obra feita pelo húngaro Bela Varga, sua mulher e outros 25 voluntários mede 4,18 metros por 3,77 metros, pesa 1.420 quilos e conta com 346 páginas. O livro está exposto em Szinpetri, a cerca de 240 quilômetros da capital Budapeste, segundo a imprensa húngara.

domingo

AMOR PELOS LIVROS

Manuel Bandeira
Sophia de Mello Breyner Andresen





Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar


Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
"As três mulheres do sabonete Araxá"
E minha avó se espantava


Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do "Trem de ferro"
E o "Poema do beco"


Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava


Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado.


Texto extraído do livro "Poemas escolhidos - Sophia de Mello Breyner Andresen", Cia. das Letras - São Paulo, 2004, pág. 180

sexta-feira

AMOR PELOS LIVROS

ENTRE IRMÃOS
José J. Veiga




O menino sentado à minha frente é meu irmão, assim me disseram; e bem pode ser verdade, ele regula pelos dezessete anos, justamente o tempo que estive solto no mundo, sem contato nem notícia. Quanta coisa muda em dezessete anos, até os nossos sentimentos, e quanta coisa acontece — um menino nasce, cresce e fica quase homem e de repente nos olha na cara e temos que abrir lugar para ele em nosso mundo, e com urgência porque ele não pode mais ficar de fora.
A princípio quero tratá-lo como intruso, mostrar-lhe a minha hostilidade, não abertamente para não chocá-lo, mas de maneira a não lhe deixar dúvida, como se lhe perguntasse com todas as letras: que direito tem você de estar aqui na intimidade de minha família, entrando nos nossos segredos mais íntimos, dormindo na cama onde eu dormi, lendo meus velhos livros, talvez sorrindo das minhas anotações à margem, tratando meu pai com intimidade, talvez discutindo a minha conduta, talvez até criticando-a? Mas depois vou notando que ele não é totalmente estranho, as orelhas muito afastadas da cabeça não são diferentes das minhas, o seu sorriso tem um traço de sarcasmo que eu conheço muito bem de olhar-me ao espelho, o seu jeito de sentar-se de lado e cruzar as pernas tem impressionante semelhança com o meu pai. De repente fere-me a idéia de que o intruso talvez seja eu, que ele tenha mais direito de hostilizar-me do que eu a ele, que vive nesta casa há dezessete anos, sem a ter pedido ele aceitou e fez dela o seu lar, estabeleceu intimidade com o espaço e com os objetos, amansou o ambiente a seu modo, criou as suas preferências e as suas antipatias, e agora eu caio aí de repente desarticulando tudo com minhas vibrações de onda diferente. O intruso sou eu, não ele.
Ao pensar nisso vem-me o desejo urgente de entendê-lo e de ficar amigo, de derrubar todas as barreiras, de abrir-lhe o meu mundo e de entrar no dele. Faço-lhe perguntas e noto a sua avidez em respondê-las, mas logo vejo a inutilidade de prosseguir nesse caminho, as perguntas parecem-me formais e as respostas forçadas e complacentes. Há um silêncio incômodo, eu olho os pés dele, noto os sapatos bastante usados, os solados revirando-se nas beiradas, as rachaduras do couro como mapa de rios em miniatura, a poeira acumulada nas fendas. Se não fosse o receio de parecer fútil eu perguntaria se ele tem outro sapato mais conservado, se gostaria que lhe oferecesse um novo, e uma roupa nova para combinar. Mas seria esse o caminho para chegar a ele? Não seria um caminho simples demais, e por conseguinte inadequado?
Tenho tanta coisa a dizer, mas não sei como começar, até a minha voz parece ter perdido a naturalidade, sinto que não a governo, eu mesmo me aborreço ao ouvi-la. Ele me olha, e vejo que está me examinando, procurando decidir se devo ser tratado como irmão ou como estranho, e imagino que as suas dificuldades não devem ser menores do que as minhas. Ele me pergunta se eu moro numa casa grande, com muitos quartos, e antes de responder procuro descobrir o motivo da pergunta. Por que falar em casa? E qual a importância de muitos quartos? Causarei inveja nele se responder que sim? Não, não tenho casa, há muito tempo que tenho morado em hotel. Ele me olha parece que fascinado, diz que deve ser bom viver em hotel, e conta que toda vez que faz reparos à comida mamãe diz que ele deve ir para um hotel, onde pode reclamar e exigir. De repente o fascínio se transforma em alarme, e ele observa que se eu vivo em hotel não posso ter um cão em minha companhia, o jornal disse uma vez que um homem foi processado por ter um cão em um quarto de hotel. Não me sinto atingido pela proibição, se é que existe, nunca pensei em ter um cão, não resistiria me separar dele quando tivesse que arrumar as malas, como estou sempre fazendo; mas devo dizer-lhe isso e provocar nele uma pena que eu mesmo não sinto? Confirmo a proibição e exagero a vigilância nos hotéis. Ele suspira e diz que então não viveria num hotel nem de graça.
Ficamos novamente calados e eu procuro imaginar como será ele quando está com seus amigos, quais os seus assuntos favoritos, o timbre de sua risada quando ele está feliz e despreocupado, a fluência de sua voz quando ele pode falar sem ter que vigiar as palavras. O telefone toca lá dentro e eu fico desejando que o chamado seja para um de nós, assim teremos um bom pretexto para interromper a conversa sem ter que inventar uma desculpa; mas passa-se muito tempo e perco a esperança, o telefone já deve até ter sido desligado. Ele também parece interessado no telefone, mas disfarça muito bem a impaciência. Agora ele está olhando pela janela, com certeza desejando que passe algum amigo ou conhecido que o salve do martírio, mas o sol está muito quente e ninguém quer sair à rua a essa hora do dia. Embaixo na esquina um homem afia facas, escuto o gemido fino da lâmina no rebolo e sinto mais calor ainda. Quando eu era menino tive uma faca que troquei por um projetor de cinema feito por mim mesmo — uma caixa de sapato dividida ao meio, um buraquinho quadrado, uma lente de óculos — e passava horas à beira do rego afiando a faca, servia para descascar cana e laranja. Vale a pena dizer-lhe isso ou será muita infantilidade, considerando que ele está com dezessete anos e eu tinha uns dez naquele tempo? É melhor não dizer, só o que é espontâneo interessa, e a simples hesitação já estraga a espontaneidade.
Uma mulher entra na sala, reconheço nela uma de nossas vizinhas, entra com o ar de quem vem pedir alguma coisa urgente. Levanto-me de um pulo para me oferecer; ela diz que não sabia que estávamos conversando, promete não nos interromper, pede desculpa e desaparece. Não sei se consegui disfarçar um suspiro, detesto aquela consideração fora de hora, e sou capaz de jurar que meu irmão também pensa assim. Olhamo-nos novamente já em franco desespero, compreendemos que somos prisioneiros um do outro, mas compreendemos também que nada podemos fazer para nos libertar. Ele diz qualquer coisa a respeito do tempo, eu acho a observação tão desnecessária — e idiota — que nem me dou ao trabalho de responder.
Francamente já não sei o que fazer, a minha experiência não me socorre , não sei como fugir daquela sala, dos retratos da parede, do velho espelho embaciado que reflete uma estampa do Sagrado Coração, do assoalho de tábuas empenadas formando ondas. Esforço-me com tanta veemência que a consciência do esforço me amarra cada vez mais àquelas quatro paredes. Só uma catástrofe nos salvaria, e eu desejo intensamente um terremoto ou um incêndio, mas infelizmente essas coisas não acontecem por encomenda. Sinto o suor escorrendo frio por dentro da camisa e tenho vontade de sair dali correndo, mas como poderei fazê-lo sem perder para sempre alguma coisa muito importante, e como explicar depois a minha conduta quando eu puder examiná-la de longe e ver o quanto fui inepto? Não, basta de fugas, preciso ficar aqui sentado e purgar o meu erro.
A porta abre-se abruptamente e a vizinha entra de novo apertando as mãos no peito, olha alternadamente para um e outro de nós e diz, numa voz que mal escuto:
— Sua mãe está pedindo um padre.
Levantamos os dois de um pulo, dando graças a Deus — que ele nos perdoe — pela oportunidade de escaparmos daquela câmara de suplício.




O conto acima, que consta do livro "Os Cavalinhos de Platiplanto",  Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 186.

terça-feira

AMOR PELOS LIVROS

O VELHO DE ALCÂNTARA-MAR
Miguel Souza Tavares

Eu estava a almoçar sozinho num restaurante, como tanto gosto de fazer, a meio do dia de trabalho. Detesto «almoços de trabalho», almoços de circunstância ou almoços de coisa alguma. Detesto almoçar os outros, resumindo. Prefiro almoçar a comida, acompanhada de uma revista ou de um jornal.
O restaurante era pouco mais que uma tasquinha de Alcântara, que tem a vantagem de ter uma comida caseira e sem pretensões e de não ser frequentado pela classe emergente dos almoços, com os telemóveis em cima da mesa, ao alcance de uma urgência, porque gente importante e ocupada é assim. Este restaurante, pelo contrário, é frequentado por uns clientes discretos, habituais e silenciosos, que vêm comer polvo cozido com todos e parecem cobertos por uma fina poeira de tristeza que os toma, de certa forma, íntimos. Íntimos, apesar do nosso mútuo silêncio, cúmplices na solidão das mesas, como marinheiros naufragados, cada um em sua ilha.
Gosto destes personagens lisboetas da hora de almoço, que comem sozinhos resmungando entre dentes, que compram lotaria, lêem os anúncios do Correio da Manhã e tratam as empregadas de mesa por «Menina isto» e «Menina aquilo». Imagino em cada um deles um Fernando Pessoa, órfão de obra e deserdado de sentimentos. São solitários e tristes, porém não são trôpegos, mas dignos, de costas direitas e cara fechada olhando em frente, quando se levantam da mesa discretamente em direcção à porta, como se deslizassem em direcção à vida.
Um dia entrou um homem destes, que eu já tinha visto anteriormente. Era um cliente de bairro, um «vizinho» do restaurante — ocasionalmente almoça, mas, regra geral, limita-se a chegar sobre o tarde, senta-se numa mesa em frente à porta com um jornal dobrado à frente, encomenda uma bica e fica a olhar para a rua, atento ao passar do tempo. Vê-se que é reformado porque não tem horário fixo nem pressa alguma. Não será viúvo, mas apenas gasto, viverá num 3° esquerdo, indiferente às lamúrias da «patroa», sentado num sofá de costas para a janela para receber a luz para as palavras cruzadas do jornal.
Mas nesse dia o homem entrou no restaurante com um sorriso luminoso na cara. Parecia ter rejuvenescido dez anos, as costas estavam mais direitas, a roupa mais alisada, o cabelo penteado deveria cheirar a água de colónia Ach. Brito. Só percebi a razão da transformação quando o vi virar-se para trás na porta da entrada e estender a mão a um miúdo que o seguia: era o neto. Passeou o miúdo pelo restaurante como se apresentasse uma namorada rainha de beleza. De mão dada com ele, foi até ao balcão e sentou-o lá em cima para que todos os empregados o vissem, sorriu à volta e fez um gesto largo para o miúdo, indicando o mostruário onde repousavam a pescada para cozer ou fritar, o leitão frio ou quente da Mealhada e as costeletas de vitela para grelhar, e disse: «Então, escolhe lá o que queres almoçar».
Pediu mesa com toalha de pano, encostada à parede, de onde todos o pudessem ver e ele pudesse ver todos. Levou o neto ao colo até à mesa, sentou-o na cadeira, atou-lhe o guardanapo de pano ao pescoço e então o miúdo agarrou-lhe a cara de repente, puxou-o para si e deu-lhe um beijo. O velho sentou-se à frente dele e olhou em frente. Encontrou o meu olhar, que devorava a cena. Por um brevíssimo instante pareceu-me que ele tinha ficado suspenso da minha reacção: queria ser visto, mas tinha medo. Inclinei a cabeça e cumprimentei-o em silêncio — foi a primeira vez que o cumprimentei: o seu olhar era líquido de ternura e firme de orgulho. Quando for velho, quero ser exactamente assim.

(Foi mantida a grafia original)


Texto extraído do livro “Não te deixarei morrer, David Crockett”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2005, pág. 99.

AMOR PELOS LIVROS

JOSÉ MINDLIN UM APAIXONADO PELOS LIVROS


José Mindlin foi o maior bibliógrafo brasileiro e – talvez – o maior do mundo. Filho de país russos, imigrados para o Brasil no começo do século passado, advogado, fundador da Metal Leve ( Fabricante de autopeças), repórter de “O Estado de S.Paulo” e ex-secretário de Cultura do governo Paulo Egydio Martins, Mindlin define as etapas do processo em que se estabelece a compulsão patológica, o “verdadeiro vício”, pelos livros. 
Primeiro se começa com as edições comuns. Depois vem o interesse pelo livro bonito, com ilustrações e bem diagramados. A próxima é a busca das primeiras edições de um determinado título. Passa-se, então, a procurar exemplares autografados. A última etapa é a consciência da raridade. E aí você está definitivamente perdido.
O intelectual admite que manter uma biblioteca em casa é algo que dá prazer, mas argumenta que “ter o livro não deveria ser a condição para se ler”. Para ele, é obrigação do governo — com a colaboração dos empresários — a formação de bibliotecas, principalmente em escolas públicas de ensino fundamental e médio. Com isso, estaria-se estimulando o hábito principalmente entre as crianças. “O interesse cada vez maior pela leitura também formará um grupo maior de patrocinadores. Quem gosta de ler tem o prazer de que isso seja transmitido”, ensina ele, que é considerado um dos mais importantes mecenas brasileiro do livro. “Eu tenho procurado sempre inocular o vírus da leitura e do gosto pelos livros para um maior número de pessoas.”
E falando nisso, ele comentou a afirmação de Rubem Alves de que a leitura não deve ser mero hábito, mas prazer:
Hábito ou gosto, o fato é que a leitura deve entrar na nossa vida. Quando eu ia levar as crianças para a escola, tinha que chegar às 7h10. Encostava o carro debaixo de uma árvore e lia até 8h45. Uma hora e meia de leitura diária. Naquele tempo não havia assaltos, ou telefone celular – que até hoje não uso. Em geral, gosto de ler um livro até o fim. Mas, se não me dá prazer, eu deixo. O livro não é só uma fonte de conhecimento. Você tem que gostar do que está lendo. O livro é, principalmente, uma fonte de prazer. E nisso Rubem Alves está certo.

segunda-feira

AMOR PELOS LIVROS

IDA A TUPÃ
Mauro Rasi

Quando vamos passar o fim de semana em Tupã, distante uns 200 e poucos quilômetros de Bauru, todo mundo ia pra cama logo após o jantar, pra acordar cedinho. Mal conseguia dormir de excitação. Íamos ver tio Walter e tia Conceição e meus primos Neusa, Cidinha e Zé Roberto. Querem mais?
Às seis da manhã já estávamos na estrada. Papai pilotava o Gordini e mamãe puxava o coro, animadíssima.
— "Adeus Sarita;vou partir para a fronteira..."
Sua disposição era impressionante: As seis da manhã já estava com a corda toda, E, me vendo sonolento, pois não havia dormido direito de tanta excitação, ordenava:
— “Canta, menino!"
Eu, praticamente dormindo, completava, de mau humor:
— "Vou levar minha boiada para vender lá na feira.
Mamãe via um eucalipto na estrada e gritava:
— "Respira fundo, enche o pulmão."
Enchíamos o pulmão. Ela insistia:
— "Prende a respiração. Prende."
E não deixava a peteca cair. Quando ameaçava cair ela logo puxava "Ronda", de Paulo Vanzolini, que instantaneamente virava um sambinha animado:
— "Se hoje eu rondo a cidade a te procurar, sem te encontrar,lálárirá...'
Cantava tudo com alegria. Até "Assum Preto" tornava-se de uma alegria contagiante:
— "Furaram os óio, do assum preto, pra ele assim cantá mior..."
Na sua interpretação o pobre pássaro ficava cego, mas feliz. Mamãe não admitia infelicidade. Maysa em sua boca virava uma Ivete Sangalo. Seu "Meu Mundo Caiu" era visto com otimismo. Quem a ouvisse pensaria que o mundo havia desabado de felicidade.
Perto de Marília, ou seja, na metade do caminho, era hora de cantar o hit de Nora Ney, "Ninguém me ama, ninguém me quer". Com alegria; se é que isso é possível. Parecia que era tudo de mentirinha:
— "Fui como resto de bebida que você jogou fora..." Mamãe não sentia nada do que cantava; era tudo da boca pra fora. Como em "Lama", do Lupicínio:
— "Se meu passado foi lama, hoje quem me difama viveu na lama também...". Não havia rancor nem amargura. Era uma lama "limpa, uma lama do bem. Quando cantarolava "a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou" parecia até que o pai havia deixado um seguro de uns US$ 1 milhão e não algo de que se pudesse envergonhar.
Seu repertório era praticamente de fossa, que ela metamorfoseava. As músicas entravam lagartas e saíam borboletas. Ela sempre via o lado positivo das coisas. Depressão lá em casa não se criava, era sinônimo de chilique ou faniquito. Tudo se curava com um bom banho frio. E, se a depressão persistisse, vinha a ameaça:
— Dá uma enxada pra ele capinar o quintal que eu quero ver se esse fricote não passa...
Mas às vezes acontecia uma tragédia, como sábado passado. Papai foi matar formigas. Da última vez tinha usado querosene e quase pôs fogo na casa. Dessa vez usou formicida. Formicida Tatu. Só de ver aquela caveirinha entre duas tíbias estampada na latinha já suava frio. A latinha ficava guardada na última prateleira do armário do quintal, num lugar quase inacessível. Mas eu achava que um dia não iria me conter e acabaria abrindo a lata e experimentando um pouquinho. Deve ter sido porque o primeiro morto que eu vi (devia ter uns cinco anos) estava caído, descalço e sem camisa, no portão do E.C. Noroeste. Ao lado do corpo havia uma garrafa de Coca-Cola e a fatídica latinha.
Para encurtar a história, papai espalhou formicida pela casa, mas esqueceu de avisar o Bolinha, nosso cãozinho vira-lata, que foi lá e lambeu. E morreu.
Por isso estávamos indo para Tupã, para esquecer. Nessa época meu universo ia de Bauru a Tupã. Eu me perguntava: "O que será que tem depois de Tupã?". Mas no íntimo eu já sabia a resposta. Depois de Tupã começava a fantasia.

Texto extraído do caderno “Mais” da Folha de São Paulo, outubro de 2002.

AMOR PELOS LIVROS

A RESPOSTA
Lêdo Ivo


Seu nome era Serafim Costa. Mas nome de quem, ou de que? Na cidade pequena , decerto a sua figura deveria ter se cruzado, muitas vezes, com a do menino fardado, de camisa branca e curtas calças azuis extraídas das velhas casimiras paternas. Ele, o comerciante abastado, talvez comendador, não conhecia o garoto. E este jamais poderia ligar o nome à pessoa. Assim, Serafim Costa era apenas um nome — a belíssima sonoridade de um estilhaço de mitologia, uma flor aérea que, em vez de pétalas, possuía sílabas.
Ele morava no Farol, exatamente onde o bonde fazia a última curva. Os muros brancos, que cercavam o quarteirão, semi-escondiam a casa, também branca, além do jardim que aparecia entre as grades, e em cujos canteiros florejavam espessuras e certas musguentas flores amarelas, e um imenso besouro zoava. A casa era um palacete de dois andares, crivado de sacadas e cegas janelas, e que parecia desabitada. Possivelmente essa incorrigível falsária, a Memória, a pintou, sem tir-te nem guar-te, com a sua branca tinta adúltera, substituindo a verdade nativa, feita de alvorentes azulejos pintalgados de azul, por alguma caprichosa arquitetura rococó. De qualquer modo, de outro lado do muro reto, sem dúvida encimado por afiados cacos de garrafas para impedir o salto dos ladrões, a gente via as copas das mangueiras, cajueiros, palmeiras e outras árvores sob as quais alguns cães esperavam, impacientes, que a rotina bocejante do dia se esfarelasse para que eles pudessem latir, na noite raiada de estrelas, como que lembrando a Serafim Costa — que interromperia por meio minuto o seu sono tranqüilo e patriarcal — as suas presenças vigilantes.
— Aqui mora Serafim Costa devia ter-me dito meu pai, num daqueles crepúsculos em que, de bonde, voltávamos para casa; ele com a sua velha pasta que inexplicavelmente não o acompanhou ao túmulo (o que talvez não o fizesse ser de pronto reconhecido no Paraíso), e nós ainda guardando nos ouvidos o bulício vesperal do instante em que, aberta a porta do grupo escolar, as crianças escoavam para a praça e se perdiam nas escurentas ruas tortuosas.
O palacete branco vulgava riqueza, luxo, secreto esplendor. Além das portas fechadas, das presumíveis estatuetas de mármore, do aroma das dálias, do fino palor dos azulejos, das mudas venezianas, havia decerto um universo de opulência, que a nossa fantasia de meninos pobres mal podia imaginar. A tarde transcurecia; o portão fechado validava-se como o brasão de uma existência que, terminados os diálogos inevitáveis de seu ofício de grande comerciante sempre atarefado e vigilante, suspendia qualquer tráfico com as mesquinharias diurnas, igual a um navio que, após todo o baixo ritual da estiva, readquire a sua dignidade perdida sulcando o mar sem amarras.
Era o palácio de Serafim Costa. E o nome, a magia desse nome que ocupou toda a minha infância, e era o preâmbulo mágico das encantações, demorava-se em mim, .solfejando-se no ar eternamente perfumado pelo Oceano. Meu pai, então guarda-livros de um armazém de tecidos, conhecia Serafim Costa, e nos mostrava a sua residência. "Aqui mora Serafim Costa." Não nos nomeava uma forma definida de casa (sobrado, bangalô, palacete); e certo aquela moradia, uma das mais luxuosas da pequena cidade, refugia às denominações irreversíveis. Ignoro se Serafim Costa era alagoano ou um dos muitos imigrantes portugueses que, estabelecidos em Maceió, enriqueceram em tecidos ou em secos e molhados e terminaram comendadores — mas em seu palacete, na exuberância do jardim equatorial, no chão assombrado de árvores enlanguescidas pelo mormaço, havia algo que era a fusão improfundável dos mais faustosos elementos nativos com uma substância remota e avoengueira, como que a reprodução de antiga planta deixada do outro lado do mar e tacitamente reconstruída pela poupança e ambição do imigrante afortunado. Por isso, meu pai dizia aqui, querendo assim significar tudo o que era o império de Serafim Costa: as grades do jardim, os sinuosos canteiros colmeados de folhas e flores, os calangros e insetos, a água espatifada de uma fonte, os familiares que não apareciam às janelas, talvez para não confundir a visão de todos os que, como eu, o imaginavam reinando solitário em sua mansão, sem quinhoar ostensivamente com ninguém o resultado, de sua vida vitoriosa, feita de zelo e siso.
Embora eu não tivesse conhecido Serafim Costa, tornou-se-me familiar aos olhos um dos empregados de seu armazém. Era um velho corcunda, de fiapos brancos na cabeça calva, e devoto. Alguns anos depois, quando já tínhamos deixado de morar no sítio e passáramos a habitar numa rua do centro da cidade, estávamos todos, no sótão, assistindo à passagem de uma procissão que enchia a monotonia da tarde de domingo. Súbito, identifiquei na multidão o corcunda velho e devoto, e exclamei:
— Olhe o Serafim Costa!
A exclamação fez espécie a meu pai, que se virou para mim, surpreendido com a notícia. Seu ar era mais do que de dúvida — decerto eu dissera uma heresia, que reclamava pronta corrigenda ou a aura de uma prova irretocável. Com o dedo, apontei o velho corcunda que, de casimira preta na tarde de sol fugidiço, vencia, na aglomeração, os. paralelepípedos da rua. Meu pai reconheceu o empregado de Serafim Costa e exclamou, de bom rosto:
— Não é o Serafim Costa — e achou engraçado que eu confundisse o empregado humilde e devoto com o poderoso e mitológico patrão.
E assim ele ficou sendo, para mim, sempre e eternamente, um nome, inatingível figura do ar. Muitas vezes, passeando sozinho pelo sítio ou junto ao mar lampejante, eu repetia esse nome, despetalava-o na brisa como se ele fosse um malmequer, juntava de novo as pétalas das sílabas que cantavam mesmo momentaneamente esquartejadas. Serafim Costa! dizia eu bem alto para que os costados dos navios pudessem devolver-me, em forma de eco, essa primeira lição de poesia, essa infindável soletração do absoluto.
Muitos anos depois, desintegrada a infância, e já envolto numa névoa de estrangeiro, voltei à curva do bonde. Era ali que morava Serafim Costa — o portão fechado era sinal de que ele estava lá dentro, movendo-se possivelmente entre frutas maduras, gatos sonolentos e bojudas porcelanas azuis. Trinta anos se tinham passado desde os dias em que o bonde, na volta da escola, nos fazia ver a misteriosa morada, o universo branco e verde estriado de agudas grades negras e manchas róseas. O invisível Serafim Costa já deveria estar morando, e de há muito, em outra alvacenta morada... Mas parei diante do portão cerrado, espiei o jardim silencioso, os vasos de azulejos, as escadarias de mármore, as altas janelas que pareciam sotéias. E chamei: Serafim Costa!
Chamei a quem, a que? E ocorreu o milagre. O nome ficou suspenso no jardim onde se ocultava uma cobra papa-ovo, depois voou pelos ares, como um pássaro; chocou-se contra os costados dos cargueiros que, no destempo hirto, desembarcavam em Maceió os caixotes das mercadorias encomendadas, do outro lado do Oceano, pelo valimento comercial de Serafim Costa; e, metamorfoseado em eco, voltou de novo aos meus ouvidos, já agora na soberba hierarquia de um nome que não precisa mais de figura ou de anedota; e se tornou para sempre algo sonoro e puro, deslumbrante e enxuto.
E, assim, obtive a resposta.

O texto acima foi extraído da revista "Ficção" nº 06, Rio de Janeiro, junho/1976, pág. 46.

PROJETO RELEITURA

AMOR PELOS LIVROS

QUANDO DÓI UMA SAUDADE
Nei Lopes




Um dos maiores violonistas anônimos do subúrbio carioca foi o Athaúde — com "th", como exigia. Mas o que tinha de cobra, tinha de baixo astral.
Papo bom pra ele, era doença, epidemia, catástrofe. E a introdução preferida de seus papos era a célebre "sabe quem morreu?".
Essa opção preferencial pelo fúnebre Athaúde levava consigo em seus endereços, na medida em que o tempo ia passando e seus já parcos recursos iam escasseando ainda mais. Tanto que da rua Real Grandeza, onde nasceu, foi morar no Catumbi, depois no Caju, depois em lnhaúma, depois na Cacuia, depois no lrajá (na Freguesia, que no Pau-Ferro todo mundo é vivo!), depois em Ricardo de Albuquerque... até seu repouso eterno no Murundu, em Realengo.
Mas o caso é que, debaixo daquela sua mortalha roxa e amarela, Athaúde também usava uma máscara deste tamanho. E isto porque sabia-se quase um Zé Menezes — tocava todos os instrumentos de corda, "menos harpa e relógio", como, passando pelo tenor, que a gente chamava de "viola americana" e pelo banjo, que Seu Acácio da Venda achava que era um "pandeiro de rabo". E, aí, sabendo que abafava, ficava dando uma de virtuose pobre-coitado:
— Eu não toco nada! Você precisava ver meu finado irmão...
Esse irmão falecido, que a gente nunca soube ao certo se era uma saudade ou uma desculpa, não saía da nossa roda — é óbvio — de choro: "Lamento", "Tristezas do Sólon", "Saxofone Por Que Choras?", "Bonifrates de Muletas", "Chorando baixinho", "Quanto Dói Uma Saudade", "Tristeza de Um Violão", eram as preferidas do Athaúde, naquele seu interminável in memoriam.
— Porra, toca "Brasileirinho", ô Ataíde ! — esbravejou o Fornalha já cheio de timbuca, naquela extemporânea e blasfema roda formada, de improviso, na Sexta-feira da Paixão.
— "Ataíde", não! A—tha-ú-de! Com "th". E "Brasileirinho" é choro de cavaco — fez doce o lúgubre instrumentista mascarado.
— Então, pega o cavaco, ô mão de vaca! Tu brinca nas onze, que eu sei! Deixa de modéstia, ô Segóvia! botou pilha o Jorge Bagunça, debochado como ele só. Mas o baixo astral foi irredutível:
— Quando eu perdi meu irmão, jurei nunca mais pegar no cavaquinho.
Acontece que um dia — sei lá o que houve, se ganhou no bicho, se comeu alguém, se bebeu, se fumou, se cheirou — o Athaúde chegou no boteco do Zé Calcinha completamente diferente. Ria, falava com todo mundo, chegou até a passar a mão na bunda da Dona Alzira que, como sempre, não entendeu nada. E, pra acabar com o baile, tomou o cavaco da mão do Vavá, riscou o tom e solou um "Brasileirinho" com uma rapidez, uma destreza e uma alegria nunca vistas, de São Cristóvão a Padre Miguel.
Foi nessa que o sacana do Jorge Bagunça chegou, não acreditou no que viu, pediu uma Faixa Azul, encheu um copo, tomou um gole, limpou a espuma do bigode (naquele tempo cerveja tinha espuma), foi-se chegando devagarzinho pra roda e, no último acorde, no fecha, naquela do "tchan-tchan", berrou na alça da orelha do Athaúde:
— Irmão desnaturado !!!!!!!!!!!!

Texto extraído do jornal "Direitos Já", órgão oficial da AMAR—SOMBRAS — Associação de Músicos, Arranjadores e Regentes

domingo

AMOR PELOS LIVROS

Churrasco de cavalo
José Antonio Pinheiro Machado


Tive que ir à Bahia para entender o Acampamento Farroupilha do Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, em Porto Alegre. Os baianos começam o carnaval uma semana antes do tempo e terminam duas semanas depois. É uma devoção que consome 24 horas por dia, sob sol, chuva, falta de banheiro e de banho. Os gaúchos que acampam no parque têm esse mesmo tipo de destemor diante dos tormentos do desconforto. Com a militância apaixonada que lembra os baianos no carnaval, a gauchada vai fazendo a Semana Farroupilha ocupar o setembro inteiro. Nada consegue desencorajá-los. Nem mesmo o frio de rachar tardio de setembro diminui o entusiasmo. Certos anos, por pouco em setembro não pinta uma neve, para testar a têmpera dos nossos gaudérios. Quando estive no acampamento, certa vez, pensei que o carro ia naufragar no barro.
Valeu a aventura, porque a visita me convenceu de que somos mais gaúchos do que os outros. Pelo menos, mais gaúchos do que os argentinos. Como se não bastassem outros fundamentos da nossa eterna rivalidade, descobri, através do livro Fogão campeiro, que o Carlos Castillo nos presenteou no parque, que os argentinos comem carne de cavalo! Não apenas "comem", fazem mais: saboreiam, adoram.
Anos atrás, quando estivemos num grupo de brasileiros jantando com Fidel Castro no Palácio da Revolução, em Havana, pedi desculpas ao comandante: não ia comer o picadinho de cavalo, magnificamente apresentado, que era o prato principal da recepção. No limite da bravata de estância, expliquei que uma das tradições gaúchas é o respeito ao cavalo. Que o cavalo, para o gaúcho, é quase um irmão ou a continuação de suas próprias pernas etc. etc.
E, agora, essa dos argentinos... Eu já tinha ouvido falar que, num passado secular, os nossos índios churrasqueavam suas montarias, mas, o que fazer, eram selvagens remotos... Para o gaúcho argentino, um "costillar de potro" é uma iguaria. Soa como um costume bárbaro mantido no século 21. Castillo conta no seu belo livro que o mestre Dom Atahualpa Yupanqui — logo ele! —, numa daquelas charlas à beira do fogo, talvez depois de algum vinho generoso, lhe confessou que, de vez em quando, gosta de comer um assado de potro. Um potro! A barbárie é completa. Não é o sacrifício de um pingo velho nem o último recurso diante da escassez. É uma variação do cardápio, um apetite que faz salivar. Digo, como gostam de dizer aqueles guascas lá de fora, espantados com os desvarios alheios: morro e não vejo tudo.


O texto acima foi extraído do livro "Na mesa ninguém envelhece", Editora L&PM - Porto Alegre, 2004, pág. 95.