SOM AMBIENTE

Richard Clayderman - Matrimonio De Amor .mp3
Found at bee mp3 search engine

domingo

AMOR PELOS LIVROS

DIAS IDOS E NÃO VIVIDOS
Gilvan Lemos


A estrada de rodagem findava no silêncio. Estreita na terra pura, nua, ao chegar à curva parecia que o mato a havia engolido. Nas partes fofas, de areia, as marcas dos pneus do caminhão do leite; nas duras, onde sempre entremostrava-se um lombo cinzento de pedra, a solidão faiscante do sol, a presença firme do sol, a expectativa de uma coisa que indistintamente ia acontecer e que nunca acontecia.
O zumbido da desnatadeira manual, a força humana regrada pelo ritmo impositivo da máquina, a fadiga dum braço transmitida ao outro, a conformação refletida no olhar esmorecido, a contabilidade mental do volume de leite a ser desnatado ainda.
— Eu tinha uns quinze anos, mais ou menos.
Espaçadamente, os fornecedores diários. Modestos, pequenos produtores. E o leite. Em latas na cabeça, em alimárias, parte da carga contrapesada com mochilas de milho, feijão, pedra, mamona. Murmúrios de vozes mal acordadas, zurrar metódico de jumentos, passadas breves, ruído de uma folha de papel sendo rasgada. E a lamúria dos porcos grunhindo no chiqueiro.
— Era uma fábrica de laticínios, era?
— Entreposto. Desnatava-se parte do leite, era eu quem desnatava. À tarde o caminhão do leite vinha apanhar.
O homem. Agreste, robusto, a barba sempre por fazer. A camisa, por dentro das calças, entreabertas na prega do último botão, o umbigo rodeado de pêlos negros. No chão engordurado seus tamancos não retiniam, sim em casa, onde o piso de tijolos era varrido diariamente. A mulher recomendava: Calce os chinelos. Fumava grosso cigarro, de fumo por ele mesmo picado. Na extremidade, a que levava à boca, a mancha amarelada da saliva. À noite, na espreguiçadeira, de frente para a escuridão, falava sozinho. Se a mulher indagava, ele: Eu não disse nada. Daí então calava-se de fato, os lábios remexendo, sôfregos, como se ele blasfemasse interiormente.
Correria de ratos na sala da frente, a da recepção do leite, local da desnatadeira. Esta, a (minha) inimiga. Cães a latir de incompreensão e espanto. Seriam os espectros noturnos, o rangido dos galhos soprados pelo vento a causa dos seus desvelos. Na manga iridescente do candeeiro, mariposas cediam à tentação do holocausto. A aranha, em sombra refletida na parede, aumentada mil vezes, movia-se, dissimulando a concupiscência logo incitada. E os porcos não grunhiam no chiqueiro.
O homem deixava a cadeira, junto com a baba escura cuspia a ponta do cigarro. Boca escancarada, bocejos longos e repetidos. Dava dois passos. Cambaleando, espreguiçando-se furiosamente, encaminhava-se para o terreiro. O espaço desocupado adquiria-lhe a personalidade e, impositivo, recalcitrante, esperava-lhe o retorno, a resguardar-lhe a posição de mando. Lá fora os cães se acalmavam. O cavalo, olhos brilhantes como de labaredas, sacudia a cabeça, a tábua do pescoço retesada, as crinas empoeiradas de mistério. Eh-eh, fazia o homem, num acento inusitado de ternura. E, mãos nos quadris, a cabeça erguida para a negridão do céu, urinava no tronco do marmeleiro.
Portas batidas, janelas entrameladas. A espreguiçadeira, reposta no lugar de costume, resignava-se à própria imparcialidade. Os tamancos do homem conduziam-no à ausência. Sinais íntimos, últimos ruídos preparando-se para serem extintos pelo sono. Dele, porque para os outros (para mim) a noite se eternizava na insônia. Restavam na sala fulgores auditivos de um passado recente. Luzes e brilhos ouvidos mais do que vistos. Ouvidos pelo coração. Em transe o coração. A voz duma menina que lhe segura as (minhas) mãos: Não vá não, besta. Você vai se enterrar ali. E outra mulher, como esta agora remendando velhas camisas e calças desbotadas: É preciso, filho, será um ajuda para nós. Seu pai... Este a interrompia: Com onze anos saí de casa para ganhar a vida.
Vida, vida! A que estava vivendo, a que deixara para trás, a que se enfumava na lembrança, a que ingenuamente lhe aprazia e lhe faltava. Claros dessa outra vida, sonhos sonhados na vigília. E aquela estrela, mais do todas brilhante, a iludi-lo com o esplendor dum êxito indefinido.
Da camarinha, ressonos altos, roncos cavernosos. O homem penetrava-se em si mesmo, com o mesmo poderio pertencendo-se, com a mesma força mantendo o respeito intransferido. Na sala, a mulher, sem pressa de terminar os seus remendos, torcia a agulha escapa da agulha, tornava a enfiá-la no buraco: Não vai dormir? A ele (a mim) perguntava, e desfazia-lhe o procurado encanto. Porque, embora a semelhança física, sua voz diferençava da da outra e, sem ser áspera ou ofensiva, faltava a ela um toque inexplicável de meiguice, aquele que só se encontra na voz das mães que estão distantes.
Pelas frestas dos olhos umedecidos não mais a sombra da aranha na parede, não mais o recurso de acompanhar o vôo suicida das mariposas. E os ratos do depósito tinham sossegado.
— Quem eram eles? O homem do entreposto e a mulher, quem eram eles?
— Ela, irmã de minha mãe; ele, naturalmente, seu marido. E meu patrão.
As mãos tornadas insensíveis pelos calos, o enfado que não se acomodava ao remanso, o sono que não encontrava repouso. A voz da mulher, desta, a tia, ponteando-lhe as cordas da memória: Não teve mais notícia de sua mãe? O carinho, de que não tinha costume, empanado em promessas duvidosas: Sábado consigo que você vá à cidade. O olhar rápido, suspenso do alinhavo: Vai ver a feira, seus pais, seus irmãos. E num quase sorriso de cumplicidade: A namorada... Não tinha uma? E então?
Sábado ou domingo. Não havia parada. No peito da vaca o leite não podia esperar para ser tirado na segunda-feira; no entreposto não aguardaria sem mácula pela desnatação. Tampouco o caminhão deixaria de vir por um ou dois dias. Ele (eu) sabia disso, ela também. Os roncos inadvertidamente interrompiam-se na camarinha. E a voz do homem chegava suspicaz à mulher emaranhada em suas linhas: Não vem dormir hoje não? Era o sinal. O final. Do serão.
À tarde, o motorista do caminhão do leite trouxera-lhe um recado: Seu pai mandou dizer que é pra você ir sem falta, sua mãe está muito mal. O olhar enviesado do patrão, falanges cabeludas rasgando o papel da nota de remessa. A tia, em sombra furtiva transmudada, passando ligeiramente da porta dos fundos à varanda. No espaço, o tempo parado. Tudo parado. O motorista, com a última sílaba da última palavra do recado suspensa na boca aberta; o patrão segurando a nota que não se despregara de todo e que não se largava do bloco porque ele não acabava de puxá-la; a tia, de perfil, um pé erguido, sem dar a passada final que a conduziria à varanda. E os porcos grunhindo no chiqueiro.
Posso esperar no máximo dez minutos, completara o motorista. Não mais os porcos, só o zumbido da desnatadeira. Deixada de lado, ainda lhe transmitia o parco movimento. Dos músculos dele (de mim) inda exigia a força da vibração. E nos ouvidos fixava-se, monótona-eterna-calculadamente: a rígida marcação, o compasso opressivo da incerteza.
Eis a roupa especial colocada sobre a cama. Junto, os sapatos de irem à cidade e para esse fim jamais utilizados, e mais a pressa de revestir o corpo sujo de suor, calças os pés tanto tempo desacostumados de semelhante ostentação. Súbito, o patrão encostado no portal: Só depois de lavar o vasilhame. Por trás dele a mulher, a tia: Assim não vai dar tempo de pegar o caminhão. Silêncio intencional, o homem: Vai depois, a pé, o cavalo está doente. A outra voz, perdendo suavidades: Mas é tão longe! É a mãe dele, não compreende? E a ordem definitiva: Tanto faz.
Da janela, a mulher em vigilância. Era o marido que ela acompanhava com a vista. Ele, que tratava do cavalo e que, após, o conduziria ao pasto. Foi nessa ocasião que ela procurou o sobrinho. Levara-lhe a muda da roupa e os sapatos havia pouco abandonados: Troque-se aí mesmo, apresse-se que talvez ainda possa pegar o caminhão. Cortando em direção ao rio você o alcançará quando ele vier de volta. E o vasilhame? Ela mesma lavava. Ao partir, cabisbaixo, apenas ouviu — não precisava voltar-se para saber que a tia estava com os olhos pisados: Vá com Deus, meu filho. Só volte aqui quando quiser. E se quiser.
No ponto indicado, as marcas dos pneus na areia solta não pareciam recentes. Tão cansado se mostrava, não tempo de regozijar-se. A estrada triste era igual à que se avistava do entreposto nas tardes de longa aflição sem recompensa. O sol já não queimava, os pássaros escondiam-se no silêncio, o vento embalava a solidão presente fora e dentro dele (de mim).
Mesa posta, a família toda reunida. Os irmãos casados sem as esposas, as irmãs sem os maridos. Na cabeceira o pai, a calva esbranquiçada, a espera contrita. A luz fraca pendente do fio encaroçado de moscas, o relógio da parede batendo as horas, inatendido e solitário em sua marcha laboriosa, de roteiro jamais-em-tempo-algum alterado. Ninguém demonstrava dar por ele, por ele ou pelo relógio, o que não era de estranhar: seus lugares, respectivos, viviam sem novidades ocupados. Os cheiros, os ruídos de costume vindos da cozinha; os vários olhares de olhos injetados, as bocas salivantes. E um coro de avidez rumorejando nos lábios tensos, retorcidos. Foi quando a mãe surgiu da porta estreita, só ela alegre, só ela notando sua presença: Chegou enfim! Bem na hora. Vamos comer, meu filho. Mas em vez disso ela o abraçava chorando.
— Como? Então tinha ficado boa?
— Sonhei. Enquanto aguardava o caminhão, adormeci sentado numa pedra, a cabeça encostada no tronco duma árvore. Me lembro que quando acordei estava com o rosto lavado das lágrimas do sonho. O fato é que, ao chegar à cidade, ela já havia morrido.
Olhara-a rapidamente, apenas para certificar-se de que não era a mesma. Nos traços da do entreposto havia deixado a fisionomia, os gestos, a ternura calma, conforme vinha há tempo recompondo e comparando. A semelhança era tanta! Não no timbre da voz. Mas a daqui já não falava. As condolências, os reconfortos. Não queria que a ninguém pertencesse a dor de tê-la perdido, sua dor, íntima-úmida-dor. Por outro lado, a ninguém queria mais pertencer. E não se pertencia. De fora, ausentando-se, não se julgava de casa. Desta. A casa onde morre uma pessoa querida não é mais a nossa casa. Petrificava-se, pretendia ser único, ímpar no mundo. Mas quando o pai lhe disse: Ela ontem chamou tanto por você... — sucumbiu, entregou-se, o filho, também do pai, retornado. E quando o parente idoso, homem de prestígio, tentou acalmá-lo (Conforme-se, menino, foi um descanso pra ela.), agrediu-o, batendo-lhe no rosto, forte, desatinado.
— Foi o maior escândalo.
— Voltou, depois, pra trabalhar no entreposto?
— Não. Acalmados os ânimos, esse parente idoso, através do seu prestígio, conseguiu um emprego pra mim na prefeitura. Era um homem bom, me compreendeu.

Texto extraído do livro "A Inocente Farsa Da Vingança", Ed. Estação Liberdade — São Paulo — Maio, 1991.


PROJETO RELEITURA

AMOR PELOS LIVROS

FANTASIA ASSINADA
Joyce Cavalccante

Tínhamos, não sei por que nem quando, combinado que ele ia fazer meu retrato, mas nunca dava tempo e nenhum dos dois se organizava pra conseguir uma brecha na agenda. Um dia era ele que esperava a visita de um galerista importante, outro era eu que não acreditava em duendes e tinha que trabalhar. Enquanto isso, rodando como um fundo musical, uma euforia que ainda não era concretamente um tesão; mais parecida era com a excitação pela idéia de fazer o que jamais havia feito: posar para um pintor.

Nada que justificasse tanto alvoroço. Ninguém tinha combinado que eu deveria me despir para posar. Mas, lá no íntimo, já eu partia desse pressuposto. Querendo. Imaginando muito mais. Temendo.

Até quando nos encontramos numa festa. Ele veio conversar e baixinho, rouco, como se conspirando, perguntou quando eu poderia ir vê-lo em seu atelier. Olhei para os lados pra me certificar se meu namorado não estava nas proximidades e marquei dia e hora. Selamos o acordo.

Sem nada assumir, escolhi calcinhas de cetim verde escuro quase preto, combinando com um sutiã rendado. Meias novas e um figurino irretocável, sugerindo pecado. Banho, ao começar a me aprontar, perfume gostoso espalhado pelo corpo inteiro, inclusive entre os dedos dos pés. Surpresa me critiquei: Ainda não conseguiram pintar a imagem dos cheiros.

Consumindo-me em fantasias, depois de tanta preparação, ali estávamos um em frente ao outro. Ele, de macacão salpicado de tinta de todas as cores e ocasiões, mas o rosto barbeado e, se não me engano, exalava um leve cheiro de madeira perfumada como os perfumes da moda.

Foi me explicando como fazia suas próprias tintas, como com elas invadia as telas. Segurou-me com carinho pelo queixo, a luz do sol examinou meu rosto e minha mão, para decidir qual matiz seria o mais apropriado. Pôs-se a trabalhar, enquanto eu, caladinha, sentada no único divã de veludo cor de maravilha, alisava o tecido, observando. Mais tarde veio conferir a tonalidade que encontrara para minha cor: entre cambraia e pêssego, comentou, quase inaudível. Em seguida, parecia que eu já não estava mais ali. Concentrava-se para esboçar-me.

Pincelava na tela meu rosto que não se parecia comigo de início para depois começar a parecer-se. Vinha e apalpava meus olhos com os polegares.
Voltava ao cavalete. Olhava-me. Olhava a tela à distância. Examinava-me longa e lentamente; gesto sempre despudorado. Aproximava-se e me acariciava o nariz, medindo-o. Voltava a seu posto. Trocou de pincel, pegando agora um bem mais delicado. Desceu aos lábios de forma aplicada. Voltou a manipular as tintas numa paleta que trouxe para perto, e me explicou que estava inventando uma cor para meus lábios, descrevendo-os com gulosa luxúria. Experimentando a cor, passou o tímido pincel pelos contornos de minha boca, ato demorado, cuidadoso, ilícito; me deixando arrepiada, me obrigando a suspirar alto, quase me traindo. E para que ele não adivinhasse o estado de minhas calcinhas, fechei os olhos e o deixei servir-se, modular-me. Voltou à tela e depois de me pincelar à vontade, foi até a janela e decidiu que o sol já não mais o satisfazia. Continuaríamos no dia seguinte. Eu estava tonta. Rubra. Afogueada. Ele notou e indagou com cinismo se no dia seguinte eu conseguiria ficar como agora. Ria pelo cantinho da boca quando o deixei, respondendo: talvez.

Ao chegar o tal dia seguinte, ele tinha se adiantado e já desenhado meu pescoço. Contou-me que passou a noite inteira a fazer isso, me imaginando. Dizendo assim passava os dedos pelas minhas linhas, na tela, mais uma vez me arrepiando cá, me umedecendo lá.

Chegando perto ainda mais ousado, deslizou o olhar por mim inteira, descendo pela curva dos seios por entre o decote, adivinhando-os em tamanho e formato, desenhando-os demoradamente. Acariciava um depois o outro com o pincel. A partir daí me olhava com o rabo de um só olho, enquanto com a cabeça do polegar esfumava sombras em meus mamilos, que em mim se iam encolhendo, ficando durinhos. E ele a me fitar como se estivesse percebendo o arco-íris por baixo de minha blusa.

Acho que está ficando seca. Vou molhá-la mais. Estava se referindo à tinta. Deu lambidinhas nas linhas do pescoço, descendo até um dos meus peitos em figura, enquanto passava os dedos pelo outro, com ternura.

O corpo dele se avolumava também me querendo, fazendo de seu macacão uma tenda armada, assim como o meu o queria, regando-se. Mas graças à diferença eu estava absolutamente confiante que ele não sabia do que acontecia em mim, pois meu corpo não se denunciava como o dele, assim. Maliciosa, ria do que nele se passava, e ele não podia se rir igualmente de mim por ser masculino, expressionista.

Foram muitas essas sessões entre tardes ensolaradas ou escuras. De todas elas eu saía excitada, sentindo um não sei o quê, que vinha não sei de onde, e doía não sei por quê. Era tudo feito muito vagarosamente, prolongando os momentos. Fatalmente chegou o dia em que ele, já depois de ter me definido o umbigo e me acariciado o ventre com seus instrumentos, revelou minhas coxas e o que está entre elas, meu sexo, feixe das emoções mais fortes dessa vida. Me fez de pêlos louros e ralos, como sou. Me fez de pernas largas e abertas esperando sua visita, como estava. E para se certificar de que seria bem-vindo, acrescentou ao quadro duas gotinhas soltas descendo pela minha virilha esquerda, sugerindo já saber dos líquidos que de mim se geravam, mistérios da alma indiscreta que denuncia o querer feminino, cheio de ambivalências impressionistas.

Querendo comparar criação e criatura, quando o retrato ficou pronto, me pediu agora, finalmente, para tirar a roupa toda. Precisava ver-me. Eu precisava dele.

Nua, me conduziu pelos ombros, colocando-me ao lado da obra, na mesma posição da imagem. Como outras vezes já tinha feito, tomou distância para avaliar o resultado. Enquanto olhava para nós também se desnudava. Seu pincel, seu sexo já se preparavam para o ato final. Foi só quando veio a completar esse seu trabalho, satisfazendo-lhe o último detalhe, imprimindo em meu dentro sua assinatura e no canto inferior direito do quadro, seu orgasmo.



AMOR PELOS LIVROS

A BARATA
Dino Buzzati



Tendo voltado tarde para casa, esmaguei uma barata que, no corredor, me escapava entre os pés (ficou lá, preta, no ladrilho) depois entrei no quarto. Ela dormia. Deitei-me ao seu lado, apaguei a luz, da janela aberta via um pedaço de parede e o céu. Fazia calor, não conseguia dormir, velhas histórias renasciam dentro de mim, dúvidas também, uma genérica desconfiança no amanhã. Ela soltou um pequeno lamento. "Que houve?", perguntei. Ela abriu um olho, grande, sem me ver e murmurou: "Tenho medo." "Medo de quê?", perguntei. "Tenho medo de morrer." "Medo de morrer? Por quê?" Respondeu: "Tive um sonho..." Aproximou-se um pouco. "Mas que é que você sonhou?" "Sonhei que estava no campo, estava sentada na margem de um rio e ouvi gritos ao longe... E eu devia morrer." "Na beira de um rio?" "Sim.", respondeu "Ouvia as rãs... faziam crá, crá." "E que horas eram?" "Era noite e ouvi gritar." "Bem, durma, agora são quase duas horas." "Duas horas?", mas não conseguia compreender, já tornara a pegar no sono.
Apaguei a luz e ouvi alguém remexendo no pátio. Depois, subiu a voz de um cão, aguda e longa; parecia lamentar-se. Subiu, passando diante da janela, perdeu-se na noite quente. Depois abriu-se uma persiana (ou se fechou?). Longe, muito longe, mas talvez eu me enganasse, uma criança se pôs a chorar. Depois, novamente o ulular do cão, longo como antes. Eu não conseguia dormir.
Vozes de homens vieram de alguma outra janela. Eram baixas, como murmuradas entre o sono. De uma sacada abaixo, ouvi um cip, cip, zitevitt, e algumas batidas de asas. "Flório!", ouviu-se chamar de repente, devia ser duas ou três casas mais adiante. "Flório!", parecia uma mulher, mulher angustiada, que tivesse perdido o filho.
Mas por que o canarinho do andar de baixo acordara? Que havia? Com um rangido lamentoso, como se fosse empurrada devagarinho por alguém que não queria fazer-se ouvir, uma porta se abriu em algum lugar da casa. Quanta gente acordada a essa hora, pensei. Estranho, a essa hora.
"Tenho medo, tenho medo", queixou-se ela procurando-me com o braço. "Oh, Maria", perguntei, "Que tem você?" Respondeu com voz tênue: "Tenho medo de morrer." "Você sonhou de novo?" Fez que sim, devagarinho, com a cabeça. "De novo aqueles gritos?" Fez sinal que sim. "E você ia morrer?" Sim, sim, indicava, procurando olhar-me, com as pálpebras grudadas pelo sono.
Há alguma coisa, pensei: ela sonha, o cão uiva, o canarinho acordou, as pessoas se levantam e falam, ela sonha com a morte, como se todos tivessem sentido uma coisa, uma presença. Oh, o sono não vinha e as estrelas passavam. Ouvi distintamente no pátio o ruído de um fósforo aceso. Por que alguém se punha a fumar às três horas da manhã? Então senti sede, levantei-me e saí do quarto para beber água. A triste lâmpada do corredor estava acesa, percebi vagamente a mancha preta no ladrilho e parei, assustado. Olhei: a mancha preta se movia.Ou melhor, movia-se um pedacinho (ela sonha que vai morrer, o cão uiva, o canarinho acorda, pessoas se levantaram, uma mãe chama o filho, as portas rangem, alguém fuma, e há talvez um choro de criança).
Vi, no chão, o bichinho preto que movia uma patinha. Era a do meio, à direita. O resto estava imóvel, uma mancha de tinta que caíra da morte. Mas a perninha remava fracamente como se quisesse subir de novo alguma coisa, o rio das trevas, talvez. Teria ainda esperança?
Durante duas horas e meia, dentro da noite — senti um calafrio —, o imundo inseto grudado no ladrilho pelas suas próprias mucilagens viscerais, durante duas horas e meia continuara a morrer e ainda não acabara. Maravilhosamente continuava a morrer, transmitindo, com a última patinha, a sua mensagem. Mas quem a podia colher às três da manhã, na escuridão do corredor de uma pensão desconhecida? Duas horas e meia, pensei, continuamente para cima e para baixo, a última porção de vida na perninha sobrevivente, para invocar justiça. O pranto de uma criança — lera um dia — basta para envenenar o mundo. Em seu coração, Deus onipotente quisera que certas coisas não acontecessem, mas não pôde impedi-lo porque por ele mesmo foi decidido. Mas uma sombra jaz ainda sobre nós. Esmaguei o inseto com o chinelo e, esfregando no chão, esmigalhei-o num longo rasto cinza.
Então, finalmente, o cão calou-se, ela, no sono, se acalmou e parecia quase sorrir, as vozes se apagaram, calou a mãe, não se percebeu mais nenhum sintoma de inquietude do canarinho, a noite recomeçava a passar sobre a casa cansada, a morte fora inchar sua inquietude em outras partes do mundo.


Texto extraído do livro "Naquele Exato Momento", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1986, pág. 32, tradução de Fúlvia M. L. Moretto.

AMOR PELOS LIVROS

A BÍBLIA NA ÓTICA FEMININA
Frei Betto


A menina marcava as páginas onde estavam impressas aquelas leis absurdas com a intenção de, mais tarde, arrancá-las. 0 pai explicou-lhe que era inútil, havia muitos outros livros com as mesmas leis. quisesse mudá-las, teria de convencer as pessoas que faziam leis.
Lida por esta ótica, a Bíblia revela a igualdade entre homens e mulheres e denuncia a leitura machista que pretende derivar dos desígnios de Deus instrumentos de dominação, como a interdição de acesso das mulheres ao sacerdócio e ao episcopado, e a preponderância masculina sob o pretexto de que Eva foi criada a partir da costela de Adão — quando a natureza não deixa dúvidas de que todo homem nasce do corpo de uma mulher.
0 evangelista Mateus aponta, na árvore genealógica de Jesus; cinco mulheres. Tamar, Raab, Rute e Maria; e de modo implícito, a mãe de Salomão, aquela "que foi mulher de Urias". Não é bem uma ascendência da qual um de nós haveria de se orgulhar.
Em sua atividade pública, Jesus se fez acompanhar pelos Doze e por algumas mulheres: Maria Madalena; Joana, mulher de Cuza, o procurador de Herodes; Susana e várias outras. Portanto, o grupo de discípulos de Jesus não era propriamente machista. Além disso, Jesus freqüentava, em Betânia, a casa de suas amigas Marta e Maria, irmãs de Lázaro.
O primeiro milagre de Jesus foi para atender ao pedido de uma mulher, Maria, sua mãe, preocupada com a falta de vinho numa festa de casamento em Canã.
Escolhido por Jesus para ser o primeiro Papa, Pedro era casado.
Em nosso país, destacam-se Ana Flora Anderson, Teresa Cavalcanti, Wanda Deifelt e Athalya Brenner. O Centro de Estudos Bíblicos (Cebi) há anos forma, pelo Brasil afora, homens e mulheres dos setores populares em novos métodos de interpretação bíblica, pondo fim ao monopólio clerical e machista.
Descobrir que a mulher ocupa na Bíblia lugar e importância iguais aos do homem é questionar as igrejas que, às vésperas do terceiro milênio, insistem em reservar aos homens as funções de poder. E, por tabela, subverter os valores desta sociedade que considera a direção política um talento masculino e a questão social um derivativo da primeira dama, e ilustra sua publicidade televisiva e as páginas das revistas com mulheres que se prestam a ser reificadas, reduzidas ao mero apelo de consumo material e simbólico e, no entanto, queixam-se quando tratadas pelos homens como objetos descartáveis.

O texto acima foi publicado no jornal "O Globo", de 28/07/2000.


PROJETO RELEITURA

A PRIMEIRA VEZ QUE ENTENDI - AFFONSO ROMANO

AFFONSO ROMANO

A PRIMEIRA VEZ QUE ENTENDI

A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.

COM “Ó”, NUNO RAMOS VENCE O PRÊMIO PORTUGAL TELECOM DE LITERATURA

ENTREVISTA COM NUNO RAMOS


Nuno Ramos e os livros

Ao lançar Ó - narrativas entre a poesia e o pensamento, na definição do próprio autor -, Nuno Ramos, 48 anos, revolve a sua criação literária e reinventa-se mais uma vez. A inquietação é marca forte em sua produção literária e de artista plástico. Ao contrário de Cujo e O pão do corvo, livros de linguagem mais concisa e enxuta, os "contos" de Ó enveredam para uma prosa caudalosa, incessante, que arrasta junto sempre o corpo humano: é uma torrente a carregar o que lhe tenta impedir a passagem. Nesta entrevista por e-mail, o autor fala da multiplicidade de sentidos de Ó, do diálogo entre literatura e artes plásticas, da produção contemporânea, entre outros assuntos.

• Os contos de Ó não seguem modelos padrões. Muito pelo contrário. As narrativas inventam novas possibilidades. O senhor teme não ser compreendido e alguém decretar: os contos de Ó não são contos? Como senhor define sua literatura?
Acho que meu livro Ó não é um livro de contos. Penso nele como um misto de poesia com ensaios amalucados, entremeados por cantos, elegias, que aparecem em itálico. O que me guiou de início foi uma voz que pensa as coisas e as comenta, à Emerson ou à Montaigne. Claro que outras vozes foram surgindo, às vezes narrativas inteiras, com personagens e tudo, mas tenho a impressão de que a voz dominante quer falar das coisas, do mundo, quer tratar dos assuntos mais diversos. Se eu pudesse escolher, diria que o Ó está em algum lugar entre a poesia e o pensamento.
• Pode-se dizer que a sua prosa é caudalosa, verborrágica, no bom sentido da palavra. Hoje, muita gente recomenda e prega um texto conciso. O senhor tenta ir na contramão de boa parte da literatura feita hoje no Brasil?
Exatamente por ser muito verborrágico, preciso do corpo, da fisicalidade das coisas, tanto como escritor como na persona de artista plástico. Acho que meu trabalho é uma luta entre o impulso expressivo, demasiado confiante e às vezes quase retórico, e o freio do peso e do visgo das coisas. Acho que me tornei artista plástico justamente para encontrar este freio - nessa coisa indominável que é a matéria. Meus livros de ficção anteriores (Cujo, de 1993 e O pão do corvo, de 2001) têm uma prosa concisa, macerada, influenciada pelo lado Beckett, digamos assim, da literatura. Acho que Ó é uma tentativa de escrever mais solto, com períodos longos intercalados e apostos sucessivos, à maneira daquilo que mais me atraiu em tudo o que li, que é a frase interminável, infinitamente inclusiva, do Proust. Mas não saberia dizer se isso vai na contramão do que se produz hoje no Brasil.
• Há um leitor ideal para Ó?
Acho que o leitor ideal, qualquer leitor ideal, deve ser um sujeito muito chato. Espero não encontrar jamais meu leitor ideal. Deve ser uma experiência horrível.
• No conto Túmulos, lê-se: "vamos aos poucos nos esquecendo deles, dos nossos mortos, enquanto afundam na terra ou são queimados, ou mesmo atirados com pesos ao mar". De que maneira o senhor lida com a idéia da morte?
Antes de mais nada, morte é matéria, redução do sopro, do desejo, ao peso, ao inerte. Acho que esse é o primeiro interesse que tenho pelo tema: a passagem entre uma coisa e outra. Mas vale lembrar que o mais importante aqui é justamente essa palavra, passagem, que vale nos dois sentidos - pode ir do inerte ao vivo como do vivo ao inerte. Gosto, em suma, da reversão de uma coisa na outra - tanto de ver uma palavra virar cadáver quanto de ver um cadáver virar sentido, verbo.

• Quais são os seus demônios? O que o impulsiona a escrever?
Talvez a consciência de que nada do que fiz é relevante perto do que é ainda possível fazer. Não consigo pensar em meu trabalho senão como em um jogo que ainda está começando (e eu já tenho 48 anos!). O demônio mais cruel é o sentimento do possível. Mas talvez não haja arte (nem vida) sem ele.
• Qual o sentido da literatura em um tempo tão apressado, sem tempo, que luta o tempo todo contra a solidão, tão vital à leitura?
O ato de ler é em si mesmo mágico, em sua solidão ocupada por um outro (o livro). Quem lê pode estar isolado, mas não está sozinho. Neste sentido, há na própria leitura, independentemente do livro que se lê, uma resistência ao sentido de rebanho tão freqüente na vida contemporânea. É difícil imaginar um livro-rebanho, cuja própria leitura seja acachapante e unificadora - o livro vermelho de Mao, talvez? Ou a Bíblia (mas o sentido-rebanho da bíblia não vem da leitura em voz alta, da ladainha, daquilo que é lido no altar?) Ler é uma forma profundamente compartilhada de estar sozinho, o que não deixa de sugerir uma forma quase ideal de cidadania.
• O senhor acredita que a literatura é capaz de dar conta da realidade que nos cerca? A linguagem que inventamos é suficiente para compreender certo caos instalado ao nosso redor?
Eu não vejo caos, vejo controle. Acho as coisas cada vez mais apaziguadas, os discursos mais unificados e a arte trazendo pra si tarefas que eram da esfera pública. A loucura da arte foi povoada pelos (bons) discursos de nossa época - pelo arrazoado feminista, étnico, sexista, etc. Por mais que concorde com estes discursos, acho que a produção artística não deve coincidir com eles. Há em toda arte um pé fora do tempo, fora da história, que nossa época parece não entender, nem perdoar. De todo modo, acho que nada nem ninguém "dá conta da realidade". Talvez realidade seja justamente aquilo de que ninguém dá conta - nem a religião, nem a política, nem a espinha ereta, nem a tecnologia, nem os psicotrópicos. Talvez a arte, de modo geral, seja uma ferramenta para a gente tomar consciência disso.
• Com que autores a sua literatura dialoga? Quais escritores são fundamentais na sua formação como escritor?
Acho que Drummond é fundamental pra mim, aquele que vai de José a Lição de coisas. Algumas passagens (A paixão segundo GH) da Clarice Lispector. Beckett (Molloy) e Kafka (Um artista da fome) e Proust. Mais recentemente, venho me dedicando a um amor envergonhado pela literatura de Philip Roth.
• De que maneira o senhor tornou-se leitor?
Primeiro com Robinson Crusoé, versão resumida e ilustrada - mesmo naquela ilha no fim do mundo, sozinho e sem meus pais, era possível reconstruir a minha casa inteirinha, e eu continuava protegido. Acho que li o livro, como as crianças fazem, dezenas de vezes, e cheguei a esquentar o termômetro na lâmpada, para ficar em casa lendo. Depois, no início da adolescência, com Dostoiévski, Poe, Henry Miller, Álvaro de Campos - o terrível da vida batendo à porta.
• Os críticos e resenhistas te entendem ou te entediam?
Há uma mágica entre crítica e arte que nossa época também parece estar perdendo. O crítico não é um diretor de colégio chato querendo travar a vida sexual dos alunos - ele é parte de um circuito entre obra e mundo que alimenta o mundo e o público, mas alimenta também a obra. Há uma libido crítica que volta para a obra, fecundando-a, um desejo de mais obra, um pedido por mais arte, um querer mais e mais. Este sentido glutão da crítica é altamente positivo, e aparece, muitas vezes, ainda que o juízo sobre a obra seja negativo. O artista tem de ter ego para suportar isso, para deixar-se nutrir por isso, para extrair da crítica o que lhe interessa, e ao seu trabalho. Mas é claro que nem toda crítica tem esta voltagem, esta capacidade de viver a obra por dentro, solicitando dela que seja tudo o que pode ser.

BOLHA DE SABÃO LÁ SE VAI - RESENHA DO LIVRO Ó DE NUNO RAMOS

Entrevista com Nuno Ramos
Por Rogério Pereira e Vitor Mann

JOSÉ EDUARDO AGUALUSA COM "MANUAL PRÁTICO DE LEVITAÇÃO"

MANUAL PRÁTICO DE LEVITAÇÃO
José Eduardo Agualusa


Não gosto de festas. Aborrece-me a conversa fiada, o fumo, a alegria fátua dos bêbados. Irritam-me ainda mais os pratos de plástico. Os talheres de plástico. Os copos de plástico. Servem-me coelho assado num prato de plástico, forçam-me a comer com talheres de plástico, o prato nos joelhos, porque não há mais lugares à mesa, e inevitavelmente o garfo quebra-se. A carne salta e cai-me nas calças. Derramo o vinho. Além disso odeio coelho. Faço um esforço enorme para que ninguém repare em mim, mas há sempre uma mulher que, a dada altura, me puxa pelo braço, vamos dançar?, e lá vou eu, de rastos, atordoado pelo estrídulo dissonante dos perfumes e o volume da música. Terminado o número, um tanto humilhado porque, confesso, tenho o pé pesado, sirvo-me de um uísque, com muito gelo, mas logo alguém me sacode, o que foi, meu velho, estás chateado?, e eu, que não, esforçando-me por sorrir, esforçando-me por rir às gargalhadas, como o resto da chusma, chateado? por que havia de estar chateado?, o dever da alegria chama-me, grito, lá vou, lá vou, e regresso à pista, e finjo que danço, finjo que estou feliz, pulando para a direita, pulando para a esquerda, até que se esqueçam de mim. Naquela noite estava quase a ser esquecido quando reparei num sujeito alto, todo vestido de branco, como um lírio, alva cabeleira à solta pelos ombros, a rondar sombriamente os pastéis de bacalhau. O homem parecia estar ali por engano. Achei-o de repente tão desamparado quanto eu. Podia ser eu, excepto pela roupa, pois evito o branco. O branco não é muito apropriado para o meu negócio. Menos ainda as cores garridas. Obedeço ao lugar-comum — visto-me de negro. Aproximei-me do homem, numa solidariedade de náufrago, e estendi-lhe a mão.
— Sou Fulano — disse-lhe. — Vendo caixões.
A mão do homem (entre a minha) era lassa e pálida. Os olhos tinham um brilho escuro, vago, como um lago, à noite, iluminado pela luz do luar. A maioria das pessoas não consegue disfarçar o choque, ou o riso, depende da circunstância, quando escutam a palavra caixões. Alguns hesitam: paixões? Não, corrijo, caixões. O sujeito, porém, permaneceu imperturbável.
— Nenhum nome é verdadeiro —, respondeu-me, com forte sotaque pernambucano. — Mas pode me chamar Emanuel Subtil.
— E o que faz o senhor?
— Sou professor...
— Ah Sim? E de quê?
Emanuel Subtil sacudiu a cabeleira num movimento distraído:
— Dou aulas de levitação.
— Levitação?!
— Levitação, sabe?, fenômeno psíquico, anímico, mediúnico, em que uma pessoa ou
uma coisa é erguida do solo sem um motivo visível, apenas devido ao esforço mental. A mente movimenta fluidos ectoplasmáticos capazes de vencer a força da gravidade. Eu ensino técnicas de levitação. Sem arames nem outros truques soezes.
— Interessante! Muito interessante! —, respondi, tentando ganhar tempo para pensar. — E tem muitos alunos?
O homem sorriu-me gravemente. É certo que não, disse, nos dias de hoje são poucas as pessoas interessadas em levitar. Tristes tempos estes. O triunfo do materialismo tem vindo a corromper tudo. Escasseiam as vocações para as obras do espírito. As vocações e a força mental — sugeri timidamente. Sim, confirmou Emanuel Subtil, sacudindo outra vez a magnífica cabeleira branca, e a força mental. As pessoas preferem manter os pés bem assentes na terra. E levitava, ele?, quis eu saber. Isto é, praticava com freqüência essa arte esquecida? Emanuel Subtil sorriu absorto:
— Não há dia em que não pratique. Levitar, meu caro senhor, é o mais completo dos exercícios. Cinco minutos em suspensão, logo pela manhã, ao romper da alva, estimula todos os órgãos vitais e regenera a alma.
Inclusive acontecia-lhe às vezes levitar por descuido. Contou-me que São José de Copertino, que viveu entre 1603 e 1663, sofria ataques de imponderabilidade sempre que algo o emocionava. Chamava a isso, com terror, "as minhas vertigens". Um domingo, durante a missa, elevou-se no vazio e durante largos minutos pairou numa aflição sobre o altar, em meio à chama aguda das velas, e ao alarido das beatas, ficando gravemente queimado. A igreja afastou-o, durante 35 anos, de todos os rituais públicos, em razão destas práticas extravagantes, mas nem isso impediu que a sua fama se propagasse. Uma tarde, passeando o santo homem pelos jardins do mosteiro, em companhia de um monge beneditino, foi subitamente arrastado até aos ramos mais altos de uma oliveira por um golpe de vento. Infelizmente sucedia com ele o mesmo que com os gatos, ou os balões, toda a sua propensão era para subir, não para descer, de forma que os monges tiveram de o resgatar de lá com o auxílio de uma escada. Murmurei qualquer coisa sobre a vocação mística das oliveiras, a tendência que demonstram, desde há milênios, para acolherem santos e demiurgos. Emanuel Subtil, porém, ignorou a minha observação. O caso de São José de Copertino, explicou, servia-lhe somente para ilustrar os perigos que incorre um leigo, ainda que excepcionalmente talentoso, ao praticar a arte da levitação sem o acompanhamento de um mestre:
— Você oferecia um Ferrari a uma criança? Certamente que não!
Concordei logo. É claro, por amor de Deus!, não o punha nem nas minhas mãos.
— Levitar não é para qualquer um, — prosseguiu Emanuel Subtil carregando nas palavras. — Levitar exige fé, perseverança e ainda algo mais: responsabilidade. Quer tentar?
E logo ali expôs as suas condições. Trezentos reais por mês. Quatro vezes por semana. Uma hora cada sessão. Naturalmente, acrescentou, seria impossível observar resultados antes de três a quatro meses.
— E se não obtiver resultados?
Emanuel Subtil sossegou-me. Em três meses, convenientemente orientado, até um
elefante consegue levitar. Mas ainda que eu me revelasse tão mau levitador quanto bailarino (só então percebi que passara a noite a observar-me) ele próprio me daria um empurrão. Citou-me o caso de um famoso médium inglês, Daniel Douglas Home, que nos anos trinta desafiava a tradicional fleuma britânica fazendo flutuar pianos e outros objectos pesados. Conta-se que uma noite levou um boi para o salão de um rico industrial, e o ergueu no ar. Ia o boi ao nível dos lustres, bem alto e iluminado, quando, por distracção ou um repentino desfalecimento de fé, lhe falharam as forças (ao médium), romperam-se os fluidos ectoplasmáticos, e o animal precipitou-se, com brutal fragor, sobre duas das acólitas.
— Morreram?
— O que lhe parece? — Suspirou. — A história da aeronáutica está cheia de tragédias, pequenas e grandes, mas nem por isso deixamos de andar de avião.
Declinei o convite. A festa chegara ao fim. Um velho negro dançava sozinho, de lágrimas nos olhos, alheio à música, vamos chamar-lhe música, uma mistura de alarme de carros, já rouco e exausto, e metais em convulsão. Duas raparigas muito loiras, muito lânguidas, dormiam abraçadas num sofá. Eu não conhecia ninguém. Ninguém me conhecia.
—Talvez você saiba de alguém que dê aulas de invisibilidade. Nisso estou interessado.
Emanuel Subtil olhou-me com desdém. Não respondeu. Já no hall, enquanto escolhia um guarda-chuva discreto, conforme ao meu ofício, entre um denso molhe deles, ainda vi o brasileiro abrir caminho através do fumo espesso e desabar no sofá, junto às duas raparigas loiras. Vi-o fechar os olhos. Cruzar os braços sobre o peito magro. Pareceu-me que sorria. Tenho conhecido gente um pouco estranha nestas festas. Existe de tudo. As ocupações mais bizarras. Eu sei, é claro, que isso depende sempre da perspectiva. Eu, por exemplo, vendo caixões. O meu pai vendia caixões. O meu avô vendia caixões. Cresci nisto. Acho até prosaico. Preferia, reconheço, dar aulas de levitação. Paciência. Consola-me saber que a morte é melhor negócio. Como o meu avô dizia - só uma coisa me aflige: a imortalidade.

Texto extraído do livro “Manual prático de levitação”, Gryphus Editora – Rio de Janeiro, 2005, pág. 49.


ARNALDO ANTUNES E A ORIGEM DA POESIA

A ORIGEM DA POESIA
Arnaldo Antunes


A origem da poesia se confunde com a origem da própria linguagem. Talvez fizesse mais sentido perguntar quando a linguagem verbal deixou de ser poesia. Ou: qual a origem do discurso não-poético, já que, restituindo laços mais íntimos entre os signos e as coisas por eles designadas, a poesia aponta para um uso muito primário da linguagem, que parece anterior ao perfil de sua ocorrência nas conversas, nos jornais, nas aulas, conferências, discussões, discursos, ensaios ou telefonemas.
Como se ela restituísse, através de um uso específico da língua, a integridade entre nome e coisa — que o tempo e as culturas do homem civilizado trataram de separar no decorrer da história.
A manifestação do que chamamos de poesia hoje nos sugere mínimos flashbacks de uma possível infância da linguagem, antes que a representação rompesse seu cordão umbilical, gerando essas duas metades — significante e significado.
Houve esse tempo? Quando não havia poesia porque a poesia estava em tudo o que se dizia? Quando o nome da coisa era algo que fazia parte dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? Quando os laços entre os sentidos ainda não se haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se conjugavam em experiências integrais, associadas a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, sexuais, guerreiras?
Pode ser que essas suposições tenham algo de utópico, projetado sobre um passado pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, com sua ocorrência, um pouco desse passado.
Lembro-me de ter lido, certa vez, um comentário de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção para o fato de, tanto em chinês como em tupi, não existir o verbo ser, enquanto verbo de ligação. Assim, o ser das coisas ditas se manifestaria nelas próprias (substantivos), não numa partícula verbal externa a elas, o que faria delas línguas poéticas por natureza, mais propensas à composição analógica.
Mais perto do senso comum, podemos atentar para como colocam os índios americanos falando, na maioria dos filmes de cowboy — Eles dizem "maçã vermelha", "água boa", "cavalo veloz"; em vez de "a maçã é vermelha", "essa água é boa", "aquele cavalo é veloz". Essa forma mais sintética, telegráfica, aproxima os nomes da própria existência — como se a fala não estivesse se referindo àquelas coisas, e sim apresentando-as (ao mesmo tempo em que se apresenta).
No seu estado de língua, no dicionário, as palavras intermediam nossa relação com as coisas, impedindo nosso contato direto com elas. A linguagem poética inverte essa relação pois vindo a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
Segundo Mikhail Bakhtin, (em "Marxismo e Filosofia da Linguagem") "o estudo das línguas dos povos primitivos e a paleontologia contemporânea das significações levam-nos a uma conclusão acerca da chamada 'complexidade' do pensamento primitivo. O homem pré-histórico usava uma mesma e única palavra para designar manifestações muito diversas, que, do nosso ponto de vista, não apresentam nenhum elo entre si. Além disso, uma mesma e única palavra podia designar conceitos diametralmente opostos: o alto e o baixo, a terra e o céu, o bem e o mal, etc". Tais usos são inteiramente estranhos à linguagem referencial, mas bastante comuns à poesia, que elabora seus paradoxos, duplos sentidos, analogias e ambiguidades para gerar novas significações nos signos de sempre.
Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. As palavras se desapegaram das coisas, assim como os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação se desapegou da vida. Mas temos esses pequenos oásis — os poemas — contaminando o deserto da referencialidade.

Esse texto foi retirado da Revista Oca das Letras 1ª Edição de Abril 2009

sábado

TEXTO PUBLICADO NO "CARDENO DE IDÉIAS", Nº 8 - CURITIBA, FEVEREIRO DE 2004.

CARNAVAL EM CURITIBA
Cristovão Tezza

Lembro Jamil Snege, atrás da mesa, cigarro entre os dedos: "Carnaval em Curitiba? Não dá. O sujeito pula na rua, alegrinho, vem o guarda e prende!" Vendo de um certo jeito, é uma espécie de maldição esse carnaval — ou não-carnaval — na cidade. Temos até de nos explicar por escrito, como agora. Parece que carregamos a culpa pela falta de espírito carnavalesco, a vergonha do falso rebolado, essa triste ausência de brasilidade, quem sabe até falta de patriotismo! Quando o Brasil inteiro dança, nós aqui, naquele silêncio de missa, andando pelas ruas vazias, metendo o olho crítico no primeiro engraçadinho que sai por aí fazendo escândalo. Coisa de bêbados!
Nem as crianças se entusiasmam: uma terça-feira gorda no Parque Barigüi, que descanso! Parece que estamos passeando em Genebra num começo de primavera! Nenhuma máscara de pirata ou palhaço, nada de serpentina, nem um único confete no chão, naquelas trilhas onde o pessoal sério faz a firme corrida vespertina, bufando, como se não estivesse acontecendo nada no resto do Brasil. É uma coisa tão desenxabida, que quem defende o carnaval da cidade tem de fazê-lo aos gritos, em altos brados, tem de exigir atitude das autoridades, reclamar por leis mais severas, mandar requerimento aos vereadores! Ora, alguma coisa tem de ser feita contra esse crime, parecem dizer, contra essa terrível indiferença!
Bem, carnaval que precisa de lei ou regulamentação, que precisa de muito apoio, defesas apaixonadas para uma platéia apática ou apenas discretamente divertida, tem alguma coisa errada — ou não tem nada errado; apenas não existe. Parece que há uma incompatibilidade radical entre o espaço curitibano e a idéia de carnaval. Digo "espaço" porque, no período, uma horda imensa de curitibanos foge daqui, desabala-se sôfrega em filas intermináveis para descer ao litoral onde, apertada na multidão que enche calçadas, praias, restaurantes, bares, supermercados e apartamentos, passa quatro dias, às vezes sem água na torneira, reclamando da chuva. Ou os habitantes escapam para Floripa, para o Rio, escondem-se em Antonina, em qualquer lugar onde possam se divertir. Aqui, alguma coisa decididamente não combina.
E não é de hoje. A edição de O Paranaense, de 15 de fevereiro de 1880, ilustra-nos Wilson Martins, descrevia os "folguedos carnavalescos" como um desfile de "raras e desengraçadas figuras". Observe-se a finura crítica da expressão, nossa marca registrada: "desengraçadas figuras" — onde naufraga o carnaval, brilha a linguagem.
Há algumas surpresas. Anos atrás, fui pela primeira vez ao antigo Bar do Ermes em pleno carnaval: fregueses bebiam cerveja tranqüilos nas mesas espalhadas, como numa noite de outubro. Mas percebi um som ao fundo, algo que vinha dos subterrâneos, vibrava o chão, uma espécie de bate-estacas que se aproxima. Descobri a escada para o porão e naquele pequeno espaço sem ar, enfumaçado, como na Chicago da Lei Seca, vislumbrei uma multidão clandestina que pulava carnaval, acotovelando-se no escuro com serpentina e tudo, num calor infernal e transpirando alegria. O contraste entre aquele caldeirão nas trevas e a paz iluminada lá da terra me sugeriu uma manchete possível para a Tribuna do Paraná: "Polícia estoura ponto de carnaval em Curitiba!"
Tudo bem: não temos carnaval. Mas vejamos de outro modo: em vez de defeito, não seria esse um capital respeitável a ser mais bem-aproveitado? Uma importante cidade brasileira substancialmente avessa ao carnaval! São quatro ou cinco dias de silêncio, de grandes espaços vazios para caminhar — e toda a infra-estrutura de lazer sub-aproveitada, teatros fechados, cinemas às moscas. Calculem-se os milhares — talvez milhões — de brasileiros que, como eu, acham carnaval uma coisa aborrecida e que muitas vezes se submetem por absoluta falta do que fazer àqueles desfiles intermináveis e chatíssimos da rede Globo, oitocentas horas seguidas da mesma coisa, torturados por sambas-enredos idiotas e clonados ao infinito na alegria militarizada da avenida.
Pois esse povo sofrido e sem opção encontraria em Curitiba o seu paraíso! Quanta coisa poderia ser programada nesse período! Desde a versão hard — digamos, um Festival Internacional de Música Sacra ou um Concurso Nacional de Canto Gregoriano —, até opções mais suaves, como, quem sabe, Encontros de Jazz Instrumental, algo assim, ou uma boa Mostra do Cinema Escandinavo, etc. São muitas opções. O único cuidado deverá ser vetar expressamente manifestações de MPB, porque atrás delas sempre há o risco de um trio-elétrico aparecer e aí, bem, aí sai todo mundo correndo, acabou o carnaval curitibano e voltamos à estaca zero.


PROJETO RELEITURA

sexta-feira

EUGENIO MONTALE FOI AGRACIADO COM O PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA EM 1975

SEM TÍTULO
Eugenio Montale


Um dia não muito longe
assistiremos à colisão
dos planetas e o céu diamantado
acabará submerso em escombros.
Então colheremos flores rutilantes
e estrelas de néon.
Olha, eis o sinal, um fogo
acende-se no céu, chocam-se
Júpiter e Órion e no terrível
estampido onde acabou o homem?
Certo que basta um sopro neste mundo
em que vivemos para que ele acabe.
Ficará talvez um grito, o da
terra que não quer perecer.






O poema acima foi publicado na revista "Palavra", Editora da Palavra - Belo Horizonte (MG), ano 1, nº 7, Outubro/1999, tradução de Ivo Barroso.

"A VONTADE E A FORTUNA" NOVO ROMANCE DO ESCRITOR CARLOS FUENTES

CASTOR E PÓLUX


Permitam-me apresentar-me. Ou melhor: apresentar meu corpo, violentamente separado (isto já o sabem) de minha cabeça. Falo de meu corpo porque o perdi e não terei outra oportunidade de apresentá-lo a vossas mercês, ou a mim mesmo. Indico assim, de uma vez, que a narração que se segue é ditada por minha cabeça e apenas por minha cabeça, uma vez que meu corpo, separado dela, já não é mais que uma lembrança: o que aqui for capaz de consignar e deixar nas mãos do advertido leitor.

Bem advertido: o corpo é pelo menos metade do que somos. No entanto, o deixamos escondido num closet verbal. Por pudor, não nos referimos a suas inapreciáveis e indispensáveis funções. Dispensem-me vocês: falarei com todo o detalhe de meu corpo. Porque, se não o fizer, logo meu corpo não será senão cadáver insepulto, ave de açougue, anônimo lombo. E, se não quiserem saber de minhas intimidades corporais, pulem este capítulo e iniciem a leitura, muito formalmente, no seguinte.
Sou um homem de vinte e sete anos de idade e um metro e setenta e oito de altura. Toda manhã me olho nu no espelho de meu banheiro e acaricio as faces antecipando a cotidiana cerimônia: fazer a barba e o bigode, provocar uma reação forte com a água-de-colônia Jean-Marie Farina no rosto, resignar-me a pentear um cabelo preto, grosso e revolto. Fechar os olhos. Negar ao rosto e á cabeça preto, grosso e revolto. Fechar os olhos. Negar ao rosto e á cabeça o papel principal que minha morte se encarregará de dar-lhes. Concentrar-me, em vez disso, em meu corpo. O tronco que vai separar-se da cabeça. O corpo que me ocupa do pescoço às extremidades, revestido de uma pele cor de canela pálida e externado em unhas que continuam crescendo horas e dias após a morte, como se quisessem arranhar a tampa do caixão e gritar aqui estou eu, continuo vivo, você se enganaram ao enterrar-me.
Esta é uma consideração puramente metafísica, como o é o terror em suas modalidades passageiras e permanentes. Devo concentrar-me em minha pele aqui e agora: devo resgatar meu físico, em toda a sua integridade, antes que seja tarde demais. Este é o órgão do tato que cobre todo o meu corpo e se prolonga dentro dele com travessuras anais módicas e permissíveis se comparadas com as brincadeiras maiores do gênero feminino, com seu incessante entrar e sair de corpos alheios (a verga do macho notoriamente e o corpo do menino sagradamente, enquanto de meu envoltório masculino só saem o sêmen e a urina pela frente, e por trás, tal como chez la femme, a merda e, em casos de prisão de ventre, a hóstia profunda do supositório). Cantarolo agora: “Caga o boi, caga a vaca e até a menina mais guapa solta sua bola de caca.” Amplas, generosas entradas e saídas da mulher. Estreitas, avaras as do homem: a uretra, o ânus, a urina, a merda. Claros e brutais os nomes. Obscuros e risíveis as alcunhas: tubos de Bellini, asa de Henle, cápsula de Bowmann, glomérulo de Malpigio. Perigos: anuria e uremia. Sem urina. Urina no sangue. Eu os evitei. Tudo, ao fim e ao cabo, é evitável na vida, menos a morte.
Suei. em vida suou todo o meu corpo, com exceção das pálpebras e da borda dos lábios. Suei limpo, salgado, sem mau cheiro, embora suar e urinar fossem produtos humanos, mas distinguíveis pela qualidade distinta do cheiro. Nunca precisei de desodorantes. Tive nobres e limpas axilas. Minha urina, sim, cheirou mal, a tugúrio esquecido e a caverna sem luz. Meu cocô variou com as circunstâncias, sobretudo dependendo da dieta. A comida mexicana nos aproxima perigosamente da diarréia, a norte-americana da cólica, a britânica da prisão de ventre. Apenas a cozinha mediterrânea assegura um equilíbrio sadio entre o que entra pela boca e o que sai pelo cu, como se o azeite de oliva e o vinagre de Módena, o produto das horas de Meio-dia, os pêssegos e os figos, os melões e os pimentões, soubessem antecipadamente que o gosto de comer deve ser compensado como o gosto de cagar, muito de acordo com as prosas de Quevedo: “Mais te amo que a uma boa vontade de cagar.”
Em todo o caso — em meu caso —, a merda é quase sempre dura e amarronzada, ás vezes enroscada com estética como as de barro que se vendem nos mercados, às vezes diluída e atormentada pelos alimentos picantes nacionais: merda minha. E raras vezes (sobretudo ao viajar) reticente e mal-encarada.
Sei que com estas diversões, meus caros sobreviventes, estou adiando o mais importante. Chegar à minha cabeça. Contar-lhe como era meu rosto após dar a entender que as nádegas são, como é bem sabido, o segundo rosto do homem. Ou será o primeiro? Já indiquei, ao pentear-me, que tenho uma boa mata indígena de cabelo escuro e mais enraizado que um agave. Falta-me indicar que meus olhos escuros afundem nas órbitas de um esqueleto facial quase transparente se não fosse pelo disfarce moreno da pele. (A pele morena esconde melhor os sentimentos que a pele branca. Por isso quando se manifesta é mais brutal, ainda que menos hipócrita.) Resumo: tenho sobrancelhas invisíveis, boca agradável, fina, quase sempre, e sem razão alguma, salvo a da cortesia, sorridente. Orelhas nem grandes nem pequenas, apenas adequadas a meu rosto extremamente magro, a pele colada ao osso, as raízes do cabelo brotando como matos noturnos que crescem sem luz.
E tenho nariz. Não um nariz qualquer, mas uma probóscide grande, por sorte fina, mas longa e fina, como um periscópio da alma que se adianta á vista para explorar a paisagem e saber se vale a pena desembarcar ou permanecer retraído, debaixo do mar da existência.
O grande sargaço da morte antecipada.
O mar que sobe em breves ondas, obrigando-me a engoli-lo antes que chegue aos orifícios de meu grande nariz, saliente entre a praia e a maré do amanhecer.
Sou corpo. Serei alma.

"A vontade e a fortuna" (Rocco), novo romance do escritor mexicano Carlos Fuentes.

"CORAÇÕES VAGABUNDOS" - FERNANDO BONASSI

CORAÇÕES VAGABUNDOS
Fernando Bonassi



O carro dobrou na Cesário Mota Jr., e Cibele logo percebeu que era o homem esquisito. Já passava de seis meses agora. Toda semana. Toda sexta-feira à noite. Nove horas em ponto o sujeito aparecia. Banho tomado, roupa passada. Ele vinha escorregando com o carro pro lado dela. Parava, mas deixava o motor ligado. Destravava a porta. Às vezes dizia alguma coisa.
— Boa noite.
— Boa.
Às vezes, nem isso... Mas sempre aquele cheiro de água de colônia. Enjoativo. Cibele sentia falta de ar. Procurava pelo botão do vidro. Não achava. Não tinha coragem de perguntar onde ficava. Contava até dez. Passava.
— Aposto que eu sei onde a gente vai...
O homem fez que sim com a cabeça. Ele a levava pra comer frango à passarinho com caipirinha em Pinheiros. Bebiam e comiam em silêncio aquelas irresistíveis desgraças cheias de gordura até perderem o juízo. Ela não conseguia se controlar. Depois pediam sobremesa. Ela simplesmente não conseguia se controlar! E ainda tomavam cafezinho:
— Sem açúcar, por favor...
Ele pagava e a deixava no mesmo lugar. Pagava o preço mais caro. Perguntou na primeira vez:
— Quanto é pra fazer tudo?
Ela caprichou. Ele tirou o dinheiro do bolso. Não tinha muito mais do que ela pedira, mas fez questão de acertar antes. De lá pra cá era sempre igual. Uma vez perguntou:
— Teve aumento?
Cibele não teve coragem. Pediu o de sempre.
Portanto ele podia fazer tudo o que quisesse, mas sempre a devolvia na mesma esquina. "Sem um arranhão!", como costumava dizer às amigas. Toda semana. Toda sexta-feira, entre 11 e 11 e meia estava de volta ao ponto. Menos mal, pensava a mulher, que ainda contava com todo o movimento da madrugada pra aproveitar. Aproveitava mesmo, que Cibele não fazia questão de prestar e tinha muitos planos; mas aquele homem... Não sabia se tinha vergonha... Ou pena. O coração dela ficava espremido. Ruminava as razões dele. Passava a semana com esse troço por dentro. Não chegava a lugar nenhum.
Até esse dia tinha ficado quieta, mas, no restaurante, quando ele perguntou o que ela queria, Cibele pôs a língua pra fora e disse:
— Você.
O garçom se fez de morto. Era um bom garçom. Ficou brincando de estátua com a caneta e o bloquinho. Passou um bom tempo assim, porque o homem deu uma risada comprida e só então virou pra pedir:
— Duas caipirinhas de pinga e um frango à passarinho.
O garçom se afastou e a mulher continuou provocando:
— Você gosta de beber, né?
— É bom, fica tudo mais fácil...
— Devia comer de vez em quando.
Dessa vez o homem não riu.
— Você é casado?
— Hum-hum.
— Mentira. Se fosse casado a tua mulher ia desconfiar da rotina.
— Não é uma questão de confiança.
— Ela é doente?
O homem voltou a rir.
— Você é doente?
— Não.
— Gay?
Chegou o pedido. Cibele ficou desacorçoada. Costumava dizer que se um dia fosse executada, frango à passarinho seria sua última refeição. Tentou escolher um pedaço bem sequinho. Difícil. Ficou mordiscando. Depois pegou mais. E foi pegando, querendo morrer. Seus lábios brilhavam quando perguntou:
— Eu não sou boa pra você?
O homem teve a coragem de fazer Cibele esperar que pegasse um cigarro do maço, tirasse caixa de fósforos do bolso da calça, um palito de dentro dela, acendesse esse maldito cigarro e só então se dignasse a responder:
— Você é a melhor coisa da minha semana.
— "Coisa"?!
O homem bufou diante da mulher, levantou a palma da mão pro garçom e fez que escrevia nela com um dedo. Cibele ficou pescando os restinhos de alho da bandeja.
— Você me engorda.
Cibele fechou a cara. De cara fechada esperou que o homem pagasse a conta e a levasse de volta à esquina de sempre. Nessa noite Cibele não sentiu o enjôo da água de colônia quando ele se debruçou nela pra destravar a porta. Desceu e ficou de costas. O homem baixou o vidro. "Aqueles botões...”
— Até sexta-feira...
Cibele pensou em ofender, mas quando virou, aquele homem esquisito estava bem ali... Ela sem saber se era vergonha ou pena... O coração espremido...
— Tá bom, te espero aqui.

Texto extraído da coluna que o autor mantém no jornal "Folha de S.Paulo".

"DESAFORISMOS" Franklin Jorge

DESAFORISMOS
"Tudo o que vemos é outra coisa."
Fernando Pessoa - Primeiro Fausto
Franklin Jorge


Ao embaixador Fernando Abbott Galvão.


Ascese: A rotina é uma forma de ascese.
Alegria: A alegria, de essência vulgar, é o consolo dos pobres.
Arquivo: V. Corpo.
Artista: Um artista alegre é tão inconcebível quanto um boi voador.
Bagdad: V. Sertão.
Balé: O balé é por demais abstrato.
Café: Ópio dos intelectuais. Madame de Sévigné repudiou o café como um modismo de cortesãos. Não foi feliz quando lhe vaticinou um sucesso efêmero.
Carnaval: O carnaval é a ópera socializada.
Casamento: Comodidade que acaba incomodando. Suprema punição do indivíduo que recorre ao hábito da família.
Clube: A feira, popular e multitudinária, é o clube do homem sertanejo.
Corpo: Arquivo de sensações.
Criar: Criar, para burlar a morte.
Dândi: Homem que não gosta de tirar a roupa.
Édipo (Complexo de): O homem é de tal forma edipiano que às vezes casa-se apenas para ter uma sogra.
Envelhecer: Embora o corpo não constitua obstáculo ao romance, sinto o grave desgosto de envelhecer.
Excesso: O excesso de limão estraga a ostra.
Excrescência: Os seios, numa mulher, são excrescência. Como a barba, nos homens.
Escrever: Escrever é transgredir os códigos. Escrever paralisa os hipócritas. Escrever é a vingança do mais fraco. Escrever equivale a um lento suicídio. É o ato mais próximo do suicídio. Quero disciplinar-me a escrever com uma raiva fria.
Família: uma sociedade de estranhos que se cumprimentam e às vezes se agridem. A vida em família é uma maneira aceitável de autopunição.
Filhos: Os filhos pagam os prazeres dos pais, mas rolam a dívida para os netos e bisnetos etc.
Humor: A ausência de humor embrutece o homem.
Jornalismo: Profissão de homens sem profissão. A sociedade espera mais do que recebe do jornalismo.
Linguagem: A linguagem sertaneja é por demais refinada. Muita vez ouvi dizer "miolo de quartinha", significando a conversa fútil, inconsistente, jogada fora, a prosa vadia.
Mediocridade: A mediocridade é contaminante. Sempre vence. A mediocridade é o partido dos que tiram vantagem de tudo na vida.
Metáfora: A mais bela metáfora é a do homem que escala a montanha.
Morrer: Antes morrer de Aids do que de tédio.
Morte: A morte é ecológica.
Motel: Sinônimo de supermercado.
Mulheres: As mulheres seriam os melhores amigos do homem, se soubessem distinguir sexo de amizade.
Museu: O museu do futuro não terá limites.
Música: Quando menino eu gostava de cantar e tinha uma bela voz. Depois, meu ouvido tomou-se impaciente para a música. O pior dos ruídos, segundo Napoleão. Dante não faz referência à música no seu poema.
Músicos: Convivi em minha infância com violeiros, músicos e poetas ambulantes, populares no sertão nordestino. Aprecio alguns músicos que não sei bem se o são. Eric Satie, Jean-Michel Jarre, Ravel e Saint-Sãens.
Narcisismo: A idéia de procriar é o cúmulo do narcisismo.
Nietzsche: O mundo seria pobre sem os ditirambos de Nietzsche, assassino de Deus.
Ópera: A ópera é um carnaval estilizado. É um espetáculo que cansa os sentidos. Resultaria numa tortura refinada a imposição de uma temporada que durasse infinitamente.
Orgasmo: O orgasmo não vale o esforço de tirar a roupa. Os homens confundem orgasmo com poder.
Piscina: A piscina é o símbolo infeccioso de uma época vulgar e promíscua. Piscina é coisa de romano ou arrivista.
Plástico: O plástico é uma matéria-prima repulsiva, símbolo descartável da sociedade de consumo. Nos séculos 17 e 18, civilizadíssimos, não havia plástico.
Rabo: Sinônimo de cu. Rogaciano Leite, escrevendo sobre os efeitos da seca no Nordeste, disse que Deus não viu quando o diabo amarrou uma tocha flamífera no rabo e saiu a correr incendiando o sertão.
Releitura: A cada releitura de Ascendino Leite, pensador de um infinito jornal literário, tenho a noção de que aprendi alguma coisa.
Remorso: O remorso é uma metáfora do inferno. É um inferno para uso privado.
Ricos: Mesmo entre os ricos há os que trabalham e os que se divertem.
Ridículo: Somente o ridículo tem vida eterna. Somente o ridículo sobrevive ao homem. Somente o ridículo é eficaz.
Rir: Os homens vulgares não sabem rir.
Ruído: A palavra ruído me cativa com a sua sonoridade sincopada.
Sauna: A sauna é o que há de mais próximo de um templo. Como nos santuários de antigos deuses do paganismo, aqui a prostituição é ofício sagrado. É uma maravilhosa invenção que reúne em um mesmo âmbito duas coisas sagradas: religião e prostituição. Nunca entrei numa sauna sem um certo temor reverente.
Sertão: O sertão é um mundo na fronteira do Oriente. Para o sertanejo, toda cidade é um pouco Bagdá. O sertão é uma utopia de João Guimarães Rosa.
Sexo: De origem vulgar. O sexo é suspeito porque implica a cumplicidade de um parceiro. O sexo competitivo é tão insípido quanto um rodízio de churrascaria. Uma herança das cavernas. Sinônimo de tédio.
Sobressalto: O luxo de criar, enfim, um sobressalto.
Solidão: Conquista difícil, prêmio de poucos.
Sonhos: Os sonhos são alquímicos.
Tragédia: Quase todo noivado antecipa uma tragédia.
Utopia: A utopia é um nobre refúgio.
Vaqueiro: Porque tenho a alma de vaqueiro, sigo adorando os sons orientais.
Vulgaridade: A vulgaridade é superlativa.


Franklin Jorge
"Ficções Fricções Africções" - Mares do Sul, 1999, pg. 53.